Jean Cocteau, o mestre do faz-tudo

5 JULHO, 2016 -

Jean Cocteau foi um mestre. No entanto, para além de deter o estatuto de mestre, o francês foi mais além. Na pele de poeta, encenador, ator, cineasta e designer, foi um polímata moderno ligado à célebre primeira metade do século XX. Tendo cooperado com nomes de nomeada da cultura gaulesa, como Edith Piaf, Coco Chanel ou Erik Satie, Cocteau deu voz e luz ao seu legado na literatura e em palco e foi também mestre na mescla entre os cânones tradicionais e linguísticos com o emergente avant-garde e com as novas premissas de se fazer arte. Cocteau fez, refez, inspirou e transpirou. Eis o mestre do faz-tudo.

Jean Maurice Eugène Clément Cocteau nasceu a 5 de julho de 1889 em Maison-Lafitte, vilarejo nos arredores de Paris. O seu pai, advogado e pintor amador, suicidou-se quando Jean tinha somente 9 anos. Quanto à sua mãe, esta pertencia à família Lecomte, uma das principais na sociedade parisiense. O jovem frequentou dos onze aos quinze anos o Lycée Condorcet, onde conheceu e estabeleceu a primeira relação física com Pierre Dargelos, assumindo a sua bissexualidade. No final do seu período escolar, saiu de casa e aos dezanove anos já contava com uma coletânea (“La Lampe d’Aladin, 1909) de poemas seus escritos. Neste período, Cocteau integrou-se nos círculos artísticos da boémia cidade de Paris, conhecido na ocasião somente pela sua poesia. Porém, a sua carreira tomaria uma amplitude e uma diversidade bem maiores.

Do Discurso do Grande Sono

Eu trabalho, eis aqui a pluma,
o papel : a pista branca
onde o homem pode tourear o mistério.

Associado a nomes como os dos escritores Marcel Proust e André Gide e o do jornalista Maurice Barrès, foi ainda em tenra idade que colaborou na sua primeira coreografia de ballet ao lado do artista Léon Bakst, escrevendo o libreto de “Le Dieu Bleu” (1912). De seguida, e por força das circunstâncias bélicas da Primeira Guerra Mundial, serve a Cruz Vermelha como condutor de ambulâncias. Neste período, trava contacto com nomes que marcariam a década vindoura em solo parisiense, tais como o poeta Guillaume Apollinaire e os pintores Pablo Picasso, com quem viria a colaborar em vários projetos de contexto europeu, e Amedeo Modigliani. Após o término do conflito, Cocteau foi novamente convidado para colaborar num ballet, desta feita para  redigir um cenário para “Parade” (1917). Embaixado pelo mecena russo Sergei Diaghilev, a obra contou com a pintura de elementos cénicos por parte de Picasso, a redação do libreto por Apollinaire e a composição da música por Erik Satie. A obra seria futuramente estruturada numa ópera completa, consolidada pelo contributo musical de Francis Poulenc e Maurice Ravel. Também em contexto de ópera o francês escreveu um outro libreto, desta feita para o compositor russo Igor Stravinsky e para a sua criação “Oedipus rex” (1927). Todo este trabalho assentou numa relação íntima com o grupo de compositores gauleses denominado Les Six, entidade que pretendia dissociar o rumo da música do estilo dramático de Richard Wagner e impressionista de Claude Debussy. Esta toada avant-garde influenciaria a sua carreira artística, embora tenha recusado qualquer associação ao surrealismo.

Jean Cocteau (1916), de Amedeo Modigliani

Em 1918, Jean Cocteau conhece o poeta conterrâneo Raymond Radiguet, com quem viria a colaborar profusamente e com quem privaria bastante. Admirando o talento literário deste, o primeiro integrou-o no seio artístico da capital francesa e auxiliou a publicação de “Le Diable au corps” (1923), uma história autobiográfica envolvendo uma relação adúltera. Não negando a atração física que sentia pelo literato, Cocteau acaba por se deixar perturbar pela morte repentina de Radiguet no mesmo ano em que o livro foi publicado. Foi nesta fase que o uso compulsivo de ópio condicionou a vida e a carreira de Cocteau, que se viria a arrepender de algumas atitudes assumidas, tal como a omissão do funeral do seu cúmplice. Não obstante este consumo de ópio desmesurado, foi nesta ocasião que, em apenas uma semana, o francês redigiu “Les Enfants Terribles” (1929). Esta obra retrata a vida de dois familiares (Elisabeth e Paul) que se isolam do mundo consoante crescem, isolamento esse que se vai deteriorando com as preocupações das suas adolescências. Curiosamente, foi nesse mesmo ano que a recuperação do seu vício foi iniciada, apoiada pelo filósofo e compatriota Jacques Maritain. Foi sob a sua alçada que Cocteau recuperou em parte a fé pela Igreja Católica e que desenvolveu alguns projetos voltados para a mesma.

“Os espelhos fariam bem em reflectir um pouco antes de nos devolverem as imagens.”

As experiências que viria a desenvolver com a voz humana culminariam na sua peça “La Voix Humaine” (1930). Esta obra cénica envolve uma mulher em palco que contacta através do telefone o seu invisível e inaudível amado, o mesmo que se prepara para a deixar para casar com outra. O telefone é usado como o mecanismo para o aqui dramaturgo expressar as suas ideias, conceitos, sentimentos e códigos relativos às necessidades e realidades humanas na comunicação e na representação. O artista reconheceu, como motivação da sua criação, a tentativa de responder às críticas que o acusavam de se centrar em demasia no argumento e na direção e não tanto na espontaneidade dos talentos com os quais contava na interpretação. Apesar da aparente simplicidade da obra, foi bastante influente nas sucessivas criações da sua autoria e no lançamento de outros nomes artísticos de nomeada, como o cineasta Roberto Rosselini e o compositor Gian Carlo Menotti. Outra das grandes produções cénicas do polímata foi “La Machine Infernale” (1934), na qual disseca sobre o mito grego de Édipo e que para muitos é considerada a sua obra de arte mais sustentada e consolidada.  Já na linha do cinema, Cocteau deixou a sua marca em “The Blood of a Poet” (1930), “Orpheus” (1950) e “Testament of Orpheus” (1960), trilogia pela qual marcou os primeiros passos gauleses na indústria cinematográfica e dando o mote para a afirmação da La Nouvelle Vague.

“O tacto na audácia é sabermos até onde podemos ir.”

Nos anos 30, o francês estabeleceu vários vínculos emocionais, entre eles a Princesa Natalie Paley, filha de um Grão-Duque, e o ator Jean Marais, com quem havia contado em diversas peças da sua autoria e com quem manteve uma ligação com mais de duas décadas. Contudo, não só de rosas nem de diferentes prosas foi feita a vida de Cocteau desde então. Especulações de simpatia com a ideologia nazi graças à proximidade com o amigo Arno Breker fizeram estremecer a estabilidade do artista. No entanto, passaram incólumes diante da profundidade e variedade do trabalho desenvolvido. Também nos turbulentos anos 40 foi escrita e apresentada a peça “Le Bel Indifférent” à diva da cultura gauelsa Édith Piaf, granjeando um enorme sucesso. Segue-se uma lista de várias de outros filmes da direção de Cocteau e cuja vocação vanguardista é indelével:

  • “Le Sang d’un Poète” (1930)
  • “La Belle et la Bête” (1946)
  • “Les Parents terribles” (1948)

Aos 74 anos, no dia 11 de outubro de 1963, Jean Cocteau faleceu no seu castelo em Milly-la-Forêt, Essonne, logo no dia após Édith Piaf partir. Cineasta, autor, dramaturgo, poeta, crítico, diretor de fotografia, ilustrador, designer. Foi isto e bem mais no íntimo de uma míriade de artistas franceses e europeus. Dando expressão a uma mescla entre os preceitos da comunicação e da codificação e os métodos vanguardistas de expressão, Cocteau criou um “Cocteail” artístico: um estilo vanguardista assente em premissas clássicas. Este Cocteail pouco convencional e distinto de todos os outros encheu palcos nos grandes teatros e Boulevards parisienses dos brilhantes anos 30. Apesar de nunca se assumir como surrealista, não andou longe do registo através do simbolismo assumido nas suas produções. A bebida que criou e que popularizou tornou-se, dessa forma, uma referência para todos os apreciadores de um bom refresco cultural. Desde uma ardente ópera até a um adocicado palco, passando pelas ondas da literatura e da pintura. Jean Cocteau apontou a receita para que a cultura francesa se diferenciasse ainda mais, quebrando barreiras e apontando para vastas e diferentes plateias. É com mais esta proposta que se lança uma França tão bem composta.

A história é a verdade que se deforma, a lenda é a falsidade que se encarna.

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