Isaac Asimov, um dos mestres da ficção científica

25 JANEIRO, 2017 -

Isaac Asimov foi um dos nomes primordiais na fusão da literatura e da arte com a ciência e com a investigação científica. Nesse sentido, e ao lado de nomes como Robert A. Heinlein e Arthur C. Clarke, este autor nascido na Rússia conseguiu a proeza de aplicar a sua formação académica e a sua experiência profissional ao serviço da fantasia e da ficção. Tudo isto sem nunca descartar a importância de uma retrospetiva histórica na análise e no discurso narrativo de todas as peripécias que a ciência consegue gerar. Com mais de 500 unidades de escrita da sua autoria, Asimov estendeu o seu saber e o seu imaginar para uma diversidade de temáticas, dando origem a um repertório de elevada reputação que ainda hoje é motivo dos mais abrangentes estudos de diferentes disciplinas e áreas.

Isaak Yudovich Ozimov nasceu entre 4 de outubro de 1910 e 2 de janeiro de 1911 numa pequena cidade do ocidente russo, de nome Petrovichi. O seio familiar onde cresceu tinha raízes judaicas e é pelas diferenças existentes entre o calendário hebraico e o juliano (empregue na altura pela Igreja Ortodoxa) que surgem dúvidas quanto à data do seu nascimento. No entanto, o futuro escritor viria a celebrar os seus aniversários no dia 2 de janeiro. A família, cujo apelido deriva de uma palavra do russo que significa um cereal de inverno, emigrou para os Estados Unidos aos três anos de idade do pequeno. O dialeto usado pelos seus pais (o iídiche) e o inglês empregue no quotidiano dos três acabou por não possibilitar a aprendizagem do russo a Asimov. Crescendo no subúrbio novaiorquino de Brooklyn, no qual viria a viver até à data da sua morte, foi com celeridade que aprendeu a ler e que começou a apaixonar-se pelas revistas de pulp fiction (revistas de ficção científica que receberam este nome pelo material que as constitui). Com onze anos, sentiu a autonomia e a criatividade necessárias para redigir as suas próprias histórias e, oito anos depois, passou a vendê-las para angariar algum dinheiro. Um dos seus compradores foi o editor da revista Astounding Science Fiction John W. Cambpell, que se tornou num dos principais conselheiros e amigos da sua vida.

Após uma esmerada educação básica, o então naturalizado norte-americano ingressou na Universidade de Columbia, conseguindo um doutoramento (PhD) em bioquímica no ano de 1948. Toda esta formação tornou-se primordial em todo o registo literário que eternizou numa ficção com muito de ciência. Antes de o conseguir, porém, trabalhou durante três anos no porto da Marinha, no estado da Philadelphia, na época da Segunda Guerra Mundial. No final deste conflito, tornou-se destacado para o Exército do país, tornando-se cabo pouco depois de seis meses ao ativo. Saindo nove meses depois da sua entrada, não participou por pouco nos testes da bomba atómica de 1946. Depois deste período militar, juntou-se à Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, onde se tornou associado, e voltou-se para a escrita, na qual obteve receitas que excediam o seu salário académico. No entanto, nunca deixou de pertencer aos quadros da Universidade e, em 1979, tornou-se professor catedrático no ramo da bioquímica.

No plano pessoal, Asimov casou-se com a canadiana Gertrude Blugerman no ano de 1942, com quem teve David e Robyn Joan. O seu matrimónio findou em 1970 e o escritor voltou a casar-se, desta feita com Janet Jeppson. Como pequenos prazeres, o autor gostava de espaços fechados e pequenos, sonhando já desde criança em ter um quiosque numa estação de metro novaiorquina que lhe possibilitava ouvir o ruído de todos os transportes enquanto lia. Este apreço por Nova Iorque foi reforçado pelo seu medo de voar, limitando-lhe as viagens de longo curso e abrindo-lhe perspetivas na sua literatura, principalmente na série “The Robot” (1954-85), protagonizada por Elijah Bailey, um detetive à imagem de Hercule Poirot ou de Sherlock Holmes mas aplicado a uma realidade futurista. Influenciado pelo medo de voar foi “Asimov’s Mysteries” (1968), um grupo de catorze pequenos contos que apresentam a figura de Wendell Urth, misterioso perito da realidade alienígena (apesar da pouca frequência com a qual Asimov tratou o tema) e que sofria de uma fobia que o impossibilitava de viajar em transportes. As viagens que foi empreendendo eram substancialmente a partir de navios de cruzeiro, palestrando com eloquência e volume sobre ciência. A predisposição leve que transportava para estas palestras era a mesma que trazia para conversas formais e informais sobre ficção científica, dando amplitude ao seu sentido de humor na obra “Asimov Laughs Again” (1992), expondo alguns episódios e sensações peculiares. Não sabendo nadar, gostava de conduzir e essa estima pela prática passou também para a literatura. “Sally” (1989), parte constituinte da sua numerosa bibliografia, expressava uma realidade na qual os carros moviam-se de forma independente e na qual os carros eram descritos com detalhe e virtude.

“Um cientista é um homem tão frágil e humano como qualquer outro; contudo, a busca científica pode enobrecê-lo, inclusivamente contra a sua vontade.”

Os seus interesses eram muitos e dispersos mas sem nunca perder o rumo literário. Assim, pertencia a organizações que cultivavam interesse pela dupla musical humorística Gilbert and Sullivan, pela série literária em que figurava Nero Wolfe, detetiva da criação do autor Rex Stout, e pelo próprio Sherlock Holmes. Perto do final da sua vida, chegou a ser presidente da American Humanist Association, destinada a valorizar a autonomia humana na busca progressiva pela sua felicidade. Contando com a sua rica experiência ficcionada e científica, aconselhou Gene Roddenberry, o criador de Star Trek, em vários aspetos contextuais.

Depois de uma unidade de publicações que lhe torna um dos escritores mais produtivos de todos os tempos, Asimov contraiu SIDA em 1983, após uma transfusão de sangue, e faleceu a 6 de abril de 1992, em Nova Iorque. Tudo isto sem antes emitir algumas opiniões sobre o futuro que viriam a ser certeiras, em especial no livro “A Choice of Catastrophes” (1979). Entre elas, dissertou sobre a tendência de centralizar informações e do conhecimento partir dessa fonte central a partir da qual a educação se dava, com as novas ideias a surgirem como propostas para a sua atualização. Assim, os agentes envolvidos neste panorama eram simultaneamente professores e alunos. Antes, numa entrevista concedida ao The New York Times em 1964, meditara sobre o futuro, no qual perspetivava o uso de eletrodomésticos para tudo e de muitos padecedores de depressão pelo isolamento que a maquinaria traria ao ser humano.

“O aspecto mais triste da vida actual é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria.” 

Quanto à sua literatura propriamente dita, e para além das obras acima citadas, outras séries tornaram-se as cabeças-de-cartaz na representação dos seus contributos à literatura. Entre ficções, ensaios e biografias, destacam-se “Foundation” (1942-1993), que relata as peripécias do matemático Hari Seldon na tentativa científica de prever o futuro e de percecionar aquilo que seriam os próximos tempos cósmicos, culminando na construção das bases de um novo Império Galático que evitasse a sua queda numa espiral negra de séculos; e “Galactic Empire” (1945-1951), partilhando as bases da série supracitada e onde se problematiza sobre os moldes futuros de um novo Império Galático, tanto no sentido instrumental e logístico como celestial e espacial. Isto cruza-se com a série “Robots”, onde se explora a formalização da robótica (onde se incluem as três leis do ramo, no qual se alude à sua subserviência perante a humanidade) e com “Lucky Starr” (1952-57), voltada para os mais jovens mas sem nunca perder esse prisma analítico sobre a realidade científica e astronómica.

Com um repertório que inclui séries de ficção científica, contos, ensaios científicos, mistérios e autobiografias, houve duas premissas que se tornaram subjacentes a toda esta farta produção literária de Asimov. Em primeiro lugar, a necessidade de explicar e de contextualizar conceitos científicos à luz da História, seguindo a ordem inerente às circunstâncias globais e universais e viajando até aos tempos nos quais a ciência era ainda muito rudimentar. A outra passou pela consubstanciação das suas expressões através do uso de referências a outros cientistas e a guias semânticos e fonéticos respeitantes aos termos apresentados. Nesta toada, integram-se “Guide to Science” (1965, atualizado em 1984), os volumes de “Understanding Physics” (1966) e “Chronology of Science and Discovery” (1989). Ainda no campo da ficção, as suas narrativas assumiram proporções pouco convencionais, seguindo linhas cronológicas não lineares e até chegando ao ponto de confrontar personagens de diferentes dimensões temporais. Algumas das críticas endereçadas à sua obra passavam, porém, pela ausência de personagens femininas fortes e autónomas e pela ausência de uma discussão social frequente e acesa na continuidade da sua obra, sendo a exceção “The Naked Sun” (1957), pertencente à série “Robots”, na qual dialoga sobre a genética e a arcologia e seus papéis numa sociedade futurista.

Ateu de religião, liberal de política, assumido feminista e socialmente progressista, Isaac Asimov foi muito mais do que um mero autor. Com uma franca obra em quantidade e qualidade, foi pouco aquilo que se inibiu em ser tema representado nas ficções e realizações do autor naturalizado norte-americano. Por mais críticas que a sua ficção recebesse no que toca a uma ativa reflexão social, o autor nunca desprimorou a realidade, perspetivando-a de forma distinta através do seu conhecimento científico e da sua interminável e infatigável imaginação. A sua influência exprimiu-se ao nível do cinema, da literatura, da política, da ciência e até da economia, tendo o génio de reunir toda a diversidade de ramos e de sentidos na sua “Psicohistória” (método usado na série “Foundation” para se efetuarem conjeturas sobre o comportamento humano futuro e que reúne a história, a sociologia e a estatística). Tudo ao serviço de um mundo que não lhe chegou, estando encarregue e responsável de ter criado um universo mais amplo que permitiu vislumbrar a humanidade de uma forma modesta mas sempre em vias de superação durante o múltiplo êxito da criação.

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