Ir ao cinema é diferente de ver filmes

10 OUTUBRO, 2017 -

Podemos ver dezenas, centenas de filmes nos diversos ecrãs de que dispomos. Mas ir ao cinema é outra coisa. Como ir ao teatro, à ópera, a concertos ou a qualquer espetáculo. A sociedade do facilitismo está a destruir simbolismos essenciais que têm a ver com o fruir do tempo

Os otimistas podem dizer que hoje há um cinema em cada casa (ou mais do que um, se contarmos com os vários aparelhos de televisão e com os computadores e tablets). Em cada casa ou em cada mão. Os pessimistas recordarão que ir ao cinema não é o mesmo que ver um filme. É mais, e é mais do que pipocas ou gomas, mais do que aproveitar uma ida ao supermercado, a uma loja de roupas de criança ou comprar um acessório para o computador ou para o telemóvel.

É… ir ao cinema, um conceito que se vai perdendo, mas que fique claro não se tratar de um juízo de valor, mas tão-somente de uma constatação. Um ritual, que implicava horários, disposição, um conjunto de gostos e obrigações que eram saborosas. Claro que se ficava furioso quando se chegava atrasado ou a lotação estava esgotada… ou mesmo quando só havia bilhetes na primeira fila e os primeiros cinco minutos a olhar para o ecrã eram piores do que estar às voltas numa nave espacial.

Os tempos mudam e as atividades também. Mais, muda a gestão dessas mesmas atividades. Vai-se ao cinema um pouco a correr, porventura como se fazem as festas das crianças num local programado e com uma duração de duas horas mal contadas.

Todavia, sendo o cinema uma das artes que mais influenciaram o mundo – seja no ecrã de um cinema, seja no de uma televisão ou computador –, vale a pena relembrar os três cinemas que faziam parte do pequeno ecossistema onde habito: o Roma, o Star e o Londres. Hoje, todos desapareceram. O Roma tornou-se a sede da Assembleia Municipal de Lisboa.

O Star deu origem à C&A e, atualmente, à VIVA. O Londres, depois de fechado, não teve compradores, os seus pertences foram penhorados (aquelas fantásticas cadeiras que baixavam com o peso da pessoa, mais os projetores e os enormes ecrãs) e é, atualmente, uma grande (e útil, não nego!) “loja do chinês”.

Começando pelo Roma, ficava no n.o 14 da Avenida de Roma, perto da piscina municipal, e é conhecido agora como Fórum Lisboa, sendo também sede da Videoteca Municipal. O auditório funciona agora para projeção de filmes quando inseridos em festivais, conferências, seminários, e para concertos de música. A sala abriu portas em 1957. Tinha uma capacidade de 1107 lugares, sendo um dos cinemas gigantes dos anos 50. Foi concebido com base nas novas ideias de grandiosidade da arquitetura típica do Estado Novo. Em setembro de 1963, para promover o filme “Summer Holiday – Mocidade em Férias”, com Cliff Richard e os Shadows, a gerência do cinema achou por bem organizar um concurso de bandas a que deu o curioso título Conjuntos Portugueses do tipo “The Shadows”. Inscreveram-se 22 conjuntos e o vencedor foi o Conjunto Mistério, com Fernando Concha. O cinema encerrou em 1988 e, durante algum tempo, foi utilizado como armazém até ser comprado pela câmara municipal. Felizmente, neste verão já tivemos cinema ao ar livre, no Jardim Fernando Pessa, um espaço cada vez mais agradável, com relva, árvores, esplanada e recinto para os cães andarem livremente. Nesta freguesia, aliás, os espaços verdes e os pormenores das árvores e das plantas com flores são o exemplo de como se pode fazer um exercício formidável de boa arquitetura paisagística, que já vem do tempo em que foi construído, há cerca de 75 anos – na linha do jardim da Gulbenkian e da visão futurista e vanguardista de Ribeiro Teles.

O Star ficava na Av. Guerra Junqueiro e abriu ao público em meados dos anos 70, sendo depois uma loja de roupa (primeiro a Marks & Spencer e depois a C&A). Ficou famoso por ser mais largo do que comprido, por ter cadeiras enormes e superconfortáveis onde se podia dormir uma boa soneca e por ter passado, semanas a fio (raro nessa altura), um filme de Claude Lelouch, “Les Uns et Les Autres”.

O Londres foi o último a terminar. Curiosamente, nasceu a partir de uma discoteca chamada Tropical, em 1969, e situava-se na Av. de Roma, entre a Praça de Londres e a Av. João xxi. O grupo português Os Sheiks, que marcou uma geração, tocou pela última vez ao vivo nessa discoteca, no dia 28 de outubro de 1967; nela existia também uma pista de automóveis denominada Bólide.

Quando foi inaugurado, em 1972, com o filme “Morrer de Amar”, de André Cayatte, o Londres tinha uma só sala, com cadeiras que desciam quando a pessoa se sentava e eram muito confortáveis. A capacidade era de 460 espectadores e o espaço pensado para três funções: ver cinema, jantar no snack-bar e conversar no Pub The Flag, que ficava ao lado, anexo ao cinema. A programação era excelente, variada e cobrindo os vários filmes dos diversos países. Talvez por isso tenha resistido mais tempo, mesmo que dividido em duas salas mais pequenas para rentabilizar o espaço, dada a redução de espectadores. O Café Magnólia explorou a parte de restauração até ao final.

Lisboa perdeu praticamente todos os cinemas – o que existe, sim, são múltiplas salas onde se projetam filmes, dentro de centros comerciais, com ou sem pipocas. Paulo Branco bem tentou manter o cinema enquanto cinema. O que existe não são cinemas, por mais que se doure a pílula. Curiosamente, isto não acontece em Madrid, Paris, Roma ou Londres… é um fenómeno quase exclusivamente português.

Será que, ao perdermos a mística e a magia de ir ao cinema – mesmo que se vejam filmes na televisão, nos iPads ou nos pequenos ecrãs dos telemóveis –, não estaremos a dar um passo no caminho da banalização dos momentos especiais, da perda de rituais e da vitória do “ter tudo na hora, à distância de um clique”? Fica a dúvida se, ao perdermos estes e outros cinemas (e o ritual e o prazer de ir ao cinema) – como tantas outras coisas simbólicas e que nos mantêm a sensação do fruir do tempo –, estaremos a evoluir ou a involuir em termos civilizacionais.

Crónica escrita pelo Pediatra Mário Cordeiro / Parceria jornal i

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