Instalou-se a cultura do aplauso, da ovação gratuita

22 SETEMBRO, 2016 -

Tenho dito isso muitas vezes. Um dos espaços que os escritores antes ocupavam era o de serem pensadores do mundo. Não tinham essa obrigação, mas faziam-no. Mas hoje já não podem fazê-lo. Sobretudo por causa da interacção do mundo virtual. E desse fenómeno denominado «viral».
Um escritor com um livro publicado, com uma tiragem de 500 exemplares, não se pode aventurar em ser opinador do mundo. Porque se o fizer, seja qual for a sua opinião, haverá sempre alguns ou muitos com uma opinião contrária. Até pode gerar inimizades; e quanto mais inimigos tiver, menos livros venderá.
A massificação do mercado editorial, com edições pequenas de 300 a 500 exemplares, silenciou os escritores.
O novo escritor em Portugal (tirando uma excepção ou outra), por ter de vender os seus 500 exemplares, não pode ter uma opinião fracturante do mundo. E muito daquilo que ele escreve é apenas para obter aplausos, ovações. É marketing.
O escritor não pode entrar em rota de colisão com o seu potencial leitor/cliente.
E o que os escritores e editoras ainda não se aperceberam é que essa atitude mercantilizada da Literatura está a produzir um vazio. O leitor português está com outras necessidades de leitura. O leitor já não acha tanta piada às palavras bonitinhas que pedem aplausos.
Não prevejo um futuro brilhante para o mercado editorial em Portugal. Por alguma razão os clássicos estão a vender bem!
Ou escritor português (apoiado pela sua editora) volta a ser uma referência de pensamento crítico sobre o mundo, ou, aos poucos, vai desaparecer.
O leitor não é tonto!
É leitor!

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