‘Indivisibili’, a história da inseparabilidade emocional

20 ABRIL, 2017 -

No Cinema São Jorge, durante o encerramento da Festa do Cinema italiano, foi exibido “Indivisibili”, um filme de 2016 realizado pelo italiano Edoardo De Angelis. A obra foi apresentada no Venice Film Festival e foi uma revelação que surpreendeu todos pela sua organizada estrutura emocional.

Neste filme o realizador conta-nos uma história marginal, de uma família napolitana, que vive nos subúrbios, rodeada de pobreza e miséria. A família é formada por quatro elementos, em que o pai é uma figura embebida de ganância e superficialidade, e a mãe é alcoólica e descomposta. As duas raparigas siamesas são as personagens principais do filme, e é à volta desta condição que o filme se desenvolve.

Viola e Daisy têm 17 anos, e as suas duas belas vozes, juntamente com esta anormalidade, permitem que elas sustentam toda a família, cantando em pequenas festas, para além de casamentos, batizados, comunhões, etc. Tudo muda quando surge a oportunidade de uma cirurgia que as vai separar, e permitir que cada uma continue a vida com normalidade.

O realizador De Angelis, juntamente com a argumentista Nicola Guaglianone, mostra-nos um mundo feio, decadente, onde as raparigas não têm muitas chances de vencer, mas em que, mesmo assim, conseguem fazê-lo de forma subtil com uma estrutura quase poética. Apresenta-se, assim, a ideia de que alguma beleza se encontra no interior do ser humano, mas só em alguns se demonstra.   

O argumento do filme coloca também uma grande questão. Mesmo com a separação cirúrgica das duas gémeas, nada as consegue separar, já que a ligação que existe entre elas não é só uma ligação de ‘carne e osso’, mas sim uma conexão eterna inexplicável, intemporal e intransmissível. Esta mensagem, que é bastante clara, é o que vem dar nome ao filme.

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Esta sua visão passa a mensagem para todo o filme, em que o que as liga é cada emoção e cada pensamento. A experiência de atravessar toda uma vida com alguém ao seu lado, 24 sobre 24 horas, mês a mês e ano a ano, também mantém esta complexa conexão interligada.

Como siamesas, sempre partilharam, entre corpos, sensações parecidas e/ou iguais. No entanto, e apesar desta profunda ligação, elas têm personalidades diferentes. Daisy é mais sonhadora e inconformada, já Viola é mais forte psicologicamente, mas realista.

Esta cirurgia é oferecida por um médico, ficando a cargo das pacientes pagar as viagens e a estadia no hospital. O pai das raparigas, contudo, afirma que, para além de não ter qualquer tipo de  dinheiro, também não quer perder o que lhe enriquece e lhe diferencia, ou seja, essa tão aclamada anormalidade. É como se elas fossem aberrações, e que as pessoas necessitassem de as ver como um milagre santo, mas onde ninguém se apercebe que elas também são seres que sentem, e que querem assumir estes sentimentos, agindo e defendendo-se. A vida de Viola e Daisy nunca foi fácil, tendo um pai e uma mãe que as veem como mercadorias  lucrativas, sem nunca as ver verdadeiramente.

Como tal, o realizador escolhe um tema bastante delicado, fora dos seu espectro normal de temas. Trata-se uma obra que traz de volta ao cinema uma faceta humanitária que ecoa reflexos de vida.O realismo sobressai, e ganha um certo encanto quando se cruza com os pensamentos sobre a vida das duas raparigas, e com os seus sonhos, ambições e fantasias.

Desta feita, o italiano traça linhas emocionais muito ténues em redor de toda a narrativa. Para qualquer lado que a linha se estenda, o resultado fixa-se num conflito emocional, social e económico. Um filme capaz de emocionar, que nos perturba e que nos entusiasma. Um bom retorno ao neo-realismo, fiel no retrato dos ambientes que o personificam.

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