IndieLisboa: ‘Treblinka’

27 ABRIL, 2016 -

Outra das estreias nacionais a acontecer neste IndieLisboa, foi a de Treblinka, de Sérgio Tréfaut. O realizador português nascido em São Paulo, vencedor já de dois prémios no IndieLisboa através de Lisboetas, em 2004, e de Alentejo, Alentejo, em 2014, está novamente presente na competição nacional de longas-metragens do festival com a sua mais recente obra.

Híbrido de Documentário e Ficção, este filme-ensaio é baseado nas memórias de Chil Rajchman, Je suis le dernier Juif, acerca da sua passagem pelo campo de extermínio de Treblinka, onde escapou à execução, trabalhando durante 10 meses sobre ameaças e espancamentos contínuos. Esse relato, de atrocidades e sobrevivência, é justaposto às imagens de Kirill Kashlikov e Isabel Ruth confinados ao espaço do comboio transiberiano, onde aparecem quase sempre como reflexos de si próprios, fantasmas filmados através de vidros, nus, contemplativos, a narrar, em Russo, essa tragédia (a “voz” da personagem de Isabel Ruth, sempre em off, é feita pela conhecida tradutora Nina Guerra), enquanto surgem imagens do branco da Rússia, da Ucrânia e da Polónia, locais de onde, aliás, eram muitos dos mortos de Treblinka (a maior parte polaca, não fosse o campo na Polónia).

Num mundo com estas paisagens, permitimos que aconteçam coisas como estas. É nesta dicotomia, texto horrendo sobre imagens belas, que assenta o filme, e é esta violência, a juntar ao facto da narrativa se tratar sempre de um relato, que torna este num filme de difícil visualização, apesar da sua curta duração de 61 minutos. Uma dificuldade que nos leva a reflectir sobre aquilo que nos é narrado e em como, mesmo quando nós, seres humanos, dissemos que tais atrocidades não se viriam a repetir, elas não desapareceram e não pertencem apenas a um tempo passado, repetindo-se e voltando a repetir-se novamente.

Treblinka

Ainda assim, findo o filme, justaposta à violência a que fomos sujeitos, fica a faltar qualquer coisa que permita que o objectivo a que o filme se propõe seja completamente alcançado. Se por um lado é necessário reavivar as memórias do Holocausto e evocar essa tragédia, sente-se também uma certa saturação no que a retratos do Holocausto diz respeito, mas compreende-se a tentativa de abordar a temática de uma nova maneira, facto que torna, só por si, o filme relevante e merecedor de visualização. Um retrato de sobreviventes e fantasmas, onde os únicos arquivos usados são os de texto, não os de imagem.

Treblinka terá ainda nova sessão no IndieLisboa dia 30 de Abril, sábado, às 17h15 no Pequeno Auditório da Culturgest. Quem não poder ir, terá de esperar pela estreia do filme nas salas convencionais, onde deverá chegar ainda este ano. Abaixo podem ver o trailer:

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