Incêndios. O pânico transforma a morte em absurdo

18 OUTUBRO, 2017 -

Nenhum recém-nascido morreu na Quinta da Barroca. Quem morreu foi um casal idoso que deixou uma casa intacta para fugir. Sílvio Neves desafiou duas vezes a morte e resistiu

O grosso e pesado poste de telecomunicações levita sobre o chão de cinzas, ardendo lentamente. Deixou de cumprir a função de manter ao alto os fios, agora são estes que garantem a sua morte de pé, como uma lembrança que se vai consumindo com o tempo. Como se fosse vela acesa em homenagem ao casal que ali morreu.

De um lado e de outro, as árvores queimadas mantêm-se em pé, são uma sombra do bosque verde, fresco que ali havia, deitando a sua sombra às casas. Numa delas morava um casal entre os seus 60 e 70 anos. A casa ali está intacta na alvenaria que desafia o fogo. Os muros ainda brancos, o portão fechado não tem marcas. O carro, pequeno, jaz calcinado a poucos metros do portão. O homem e a mulher foram encontrados umas dezenas de metros mais à frente. O que os teria levado a fugir para os braços das chamas desde a proteção da sua casa? Nuno Santos, o adjunto do comando dos bombeiros de Vila Nova de Oliveirinha, a que pertence proteger a dúzia de casas que compõem a Quinta da Barroca, não consegue perceber.

O casal de vizinhos, emigrantes em França, usam um galicismo para aventarem a sua hipótese: “Panicaram”, que é, como o termo indica, entraram em pânico e agiram de forma irrefletida, caminhando para as chamas numa tentativa de fugir de um lugar que os protegia. Não é de estranhar o medo, pela forma vivaz como os vizinhos descrevem um fogo que avançou rápido, consumiu tudo à sua passagem e deixou um rasto de árvores dobradas até à irrealidade como um contorcionista de circo: eram primeiro umas fagulhas e de repente passou a ser um terrível bailado de fagulhas que penetrava por todos os lados.

Durante algum tempo avançou-se a hipótese de com este casal da Quinta da Barroca estar um recém-nascido, primeiro dado como desaparecido e depois como falecido. Nuno Santos garante que não há nenhum bebé envolvido neste incidente. O casal terá sido confundido com um outro, jovem, que teve um filho há pouco tempo e a história ter-se-á espalhado tão rápido como o fogo. O adjunto do comando dos bombeiros de Vila Nova de Oliveirinha diz que na sua área de atuação, que é parte do concelho de Tábua, lamenta-se a morte desse casal e de um dos feridos graves de Midões que acabou por falecer ontem no hospital devido às queimaduras. Um balanço que poderia ter sido mais trágico tendo em conta que 80% da área de atuação do seu corpo de bombeiros foi consumida pelas chamas.

O pânico pode ajudar a explicar a morte do casal da Quinta da Barroca, como é a única explicação plausível para a morte do casal que se ficou à beira da estrada, em Relvas, no concelho de Santa Comba Dão. Sabemos que o fogo andou por estas bandas quando seguimos na estrada porque aqui e ali deixou marcas da sua passagem. A terra negra como breu, alguma casa atingida, porém, na sua maioria, a natureza resistiu, como o homem e aquilo que criou.

Até chegarmos a esse troço onde a carcaça do Volkswagen Golf jaz à beira do alcatrão. A estrada passa em túnel por baixo do IP3 e sobe para uma estrada que corre paralela a esse itinerário principal. O casal ficou aí: o carro despistou-se, provavelmente devido ao fogo ou pelo fumo, tendo em conta o calcinado que estão as árvores e a vegetação do lado direito. Seja pelos ferimentos, seja porque a mulher não conseguia abrir a porta por causa da posição em que o veículo ficou, seja por causa do fogo rápido ou da inalação do fumo; qualquer que tenha sido a razão, ali ficaram. Tivessem eles conseguido atravessar esse túnel e imagino que não teriam tido melhor sorte. A estrada transformou-se aí numa armadilha mortal, os sinais de trânsito estão praticamente irreconhecíveis pelos efeitos do calor, as árvores calcinadas ou dobradas como pelo bafo de um dragão; o negro é a cor predominante.

São dois dos cinco mortos confirmados no concelho de Santa Comba Dão, disse ao i o vereador com o pelouro da proteção civil da Câmara de Santa Comba Dão, João Tomás. Outros dois morreram um pouco mais abaixo, em São Joaninho, apanhados pelo fogo quando tentavam chegar a um aviário para dar uma mão ao proprietário. Eram o irmão e um grande amigo de Sílvio Neves que encontramos entre o rescaldo do incêndio e a alimentação dos pintos que conseguiu salvar (perdeu uns cinco a seis mil) com estoicismo, orgulho, teimosia, tenacidade e loucura.

O corpo carbonizado do irmão foi encontrado num caminho de terra entre os pinheiros queimados, o do amigo no lado oposto do aviário. Nenhum deles conseguiu chegar a tempo de ajudar – “eu nunca os vi, nem sabia”. Aos 61 anos, baixinho e entroncado, Sílvio Neves é um desses homens que preferem quebrar a torcer. Andava ele a combater as chamas, tentando evitar que o fogo consumisse um dos armazéns onde guardava o bezerro e os porcos, quando se viu envolto em labaredas ou em lambras como é tradição na Beira, quando ele próprio se viu encurralado: “Pensei para mim ‘ou passo no meio ou fico aqui e morro’. Então avancei com o trator’”. Conseguiu assim salvar-se.

Mas Sílvio Neves trabalha desde que casou para construir aquilo que tinha até àquele domingo; o bezerro e os porcos não podiam ser salvos, mas ainda podia tentar os pintos e o longo aviário onde os cria. Cerca de 30 minutos depois decidiu que iria voltar, desafiaria as chamas: “Pensei na minha vida. Que se sobrevivesse a tudo, o meu suor, a minha vida teria valido a pena”.

A mulher, Maria Raquel, ainda o questionou (a mesma agora que trabalha febrilmente como se precisasse de esgotar-se fisicamente para evitar ser tomada pela dor – a certa altura acabará por não resistir e chorará e lamentará em prantos a má sorte, ao longe, cabeça apoiada nos braços), ainda o tentou demover e recebeu como resposta: “Prefiro morrer do que andar por aí a pedir uma côdea”. Sem o poder demover, a mulher juntou-se-lhe nessa loucura heroica: “Se morreres, morremos os dois”.

E os dois voltaram, em cima de um trator com um Tomix (reservatório de água), atravessando as chamas regados com a água, sem luz que não fosse a do fogo para uma luta que parecia inglória, mas lhe permitiu pelo menos salvar parte do aviário. Leva-nos lá para dentro, entre os pintos, para nos apontar as marcas no teto onde o fogo chegou a tocar: “queimou aqui, queimou aqui, queimou aqui”.

A morte do irmão e do amigo ainda não estão assimiladas, nada à volta está assimilado, tem lágrimas nos olhos a certa altura, diz que fez tudo sem pensar, como quando deu um muro na portinhola que controla o tanque de gás para fechar a torneira e se manteve a combater um fogo ao lado de uma bomba relógio de 4800 litros de gás que se explodisse destruiria tudo à volta.

O fogo parece trazer o melhor e o pior de todos ao de cima. De quem foge sem pensar ao encontro da morte e de quem a desafia como se fosse à prova de tudo, de choque. Como em Lajeosa do Dão, onde Hermínio Romão, contra os conselhos de todos, perante o fogo que consumia parte desta freguesia de Tondela, resolveu sair à rua para soltar as galinhas que tinha no seu pequeno galinheiro. As chamas vinham de cima, como bolas de fogo, e iam acertando aqui e ali numa roleta russa dos céus cujo azar acabaria por tocar a este homem de 70 e poucos anos.

A mulher ainda lhe rogou para não ir, o sobrinho pediu-lhe por “amor de Deus” para voltar para trás que ficava por lá, mas Hermínio Romão só pensava nos seus animais e lá foi para o pequeno terreno no fundo da aldeia de onde não regressaria. Terá tropeçado no caminho, o corpo foi encontrado no dia seguinte pelos bombeiros, ainda tinha o cão nos braços.

Artigo escrito por António Rodrigues / Parceria jornal i
Fotografia de Beatriz Rato

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