‘In the Same Room’ pouco adiciona às belíssimas canções de Julia Holter

19 ABRIL, 2017 -

Fazer um álbum ao vivo pode ser um desafio. Ao mesmo tempo que os artistas pretendem não fazer uma mera repetição daquilo que já foi feito em estúdio, também evitam ceder totalmente a impulsos de improvisação ou variações que desvirtuem as canções que os fãs conhecem. In the Same Room tem um bom equilíbrio entre estes dois factores, devido à leveza que Holter atribui às canções, que acabam por se soltar ligeiramente dos moldes que têm nas versões de estúdio. Ao passo que algumas canções ganham com isso, outras acabam por não se libertar da sombra das suas correspondentes.

O início do álbum é logo um exemplo gritante de como se pode perder muito na conversão ao vivo. “Horns Surrounding Me” perde muita da intensidade que tem em Loud City Song, de 2013, pela falta dos instrumentos de sopro ameaçadores, que criam uma bela imagem do que o título descreve, ao formar uma parede de som que nos enclausura. Esta versão quase não tem percussão, é frágil e ampla, mas, apesar de bela, isso torna-a menor.

No entanto, para compensar, logo de seguida temos o melhor exemplo de reconversão. “So Lillies” perde todo o interlúdio que tem em Tragedy, de 2011, e recebe uma remodelação à la Have You in My Wilderness, o último álbum de Holter. Com uma sonoridade airosa e belíssimas nuances por parte da viola de Dina Maccabee, é uma versão que ultrapassa a original, não só em termos de acessibilidade, como em termos de beleza desmedida.

Tendo em conta que Have You in My Wilderness é o álbum mais recente de Julia Holter, é normal que seja o que se aproxima mais da sua actual visão criativa e aquele que a artista prefere tocar actualmente. No entanto, o rearranjo de “So Lillies” leva-nos a pensar que este In the Same Room lucraria com a inclusão de mais canções antigas, que, reinventadas, poderiam ter mais interesse do que ouvir versões pouco inventivas de “Feel You” ou “Sea Calls Me Home”. Aliás, é complicado perdoar a omissão total de Ekstasis, de 2012.

“Silhouette”, apesar de ser uma canção mais recente, contraria a tendência, ganhando terreno através de uma injecção de intensidade no seu clímax, graças a uma performance vocal bastante apaixonada por parte da cantora, que muito engrandece a canção. Outro muito bom exemplo é “Vasquez”, já de si um improviso na versão de estúdio, é aqui ainda mais prolongada. No entanto, soa mais focada e triunfante, provando aquilo que já suspeitávamos: a canção podia durar para sempre.

“In the Green Wild” e “City Appearing”, também de Loud City Song, vêm a sua maior qualidade na demonstração da evolução vocal de Julia Holter. Na primeira, a artista brinca com a enunciação e melodia de uma forma descomprometida que leva um sorriso aos lábios; na segunda, uma das mais maravilhosas canções da sua curta carreira, o conto citadino é elevado pela intensidade da entrega. Infelizmente, esta última também perde um pouco da aura crepuscular da versão original, na qual o momento em que a percussão surge é a definição de sublime.

A produção deste álbum faz com que o piano de Holter soe mais orgânico que nas versões de estúdio, transmitindo bem a experiência auditiva de um concerto em sala fechada. No entanto, há a perda do ambiente intimista advindo da experiência visual (vem-nos à mente o Verão de 2013, na ZdB), que levaria a que grande parte das críticas aqui tecidas se dissipassem.

Para os coleccionistas e fãs aguerridos de uma das artistas a solo mais promissoras da actualidade, vale a pena perder-se neste In the Same Room; para os restantes, mais vale perder-se nos quatro álbuns de Julia Holter, cujas belíssimas canções são merecedoras de atenção.

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