In Media Res #9: qual é o papel dos Gato Fedorento na nossa vida?

25 SETEMBRO, 2017 -

In media res é um espaço de ensaio a partir de elementos culturais. Reflexões desprovidas da lógica cronológica. O privilégio da ordem das nossas coisas. Sem pretensão avaliativa ou necessidade de aferição científica. Comprometida, somente, com a turva impressão pessoal do mundo das coisas. In media res porque todos surgimos no meio da História.

Não vos escondo. Padeço de uma condição inibidora, não dos sinais vitais, mas das tarefas de trabalho ou estudo. Trata-se de uma peculiar forma de procrastinação que me leva a navegar, sem freios ou culpa, nos sketches dos primordiais tempos de Gato Fedorento.

Sei que é um culto muito mais do que pessoal ou geracional. O impacto cultural de Gato Fedorento é tremendo. Estende-se a vários grupos e idades. Certos mecanismos e expressões entraram de maneira tão incisiva no nosso quotidiano que usamo-las sem lembrarmos, logo, a sua origem.

Claro que quando alguém solta o “Falam, falam mas não os vejo a fazer nada” ou lança, sobre Ermesinde, o eterno epíteto das gajas boas, temos presente o referencial. Contudo, o impacto é severamente mais profundo. O matarruano, por exemplo, tornou-se um recurso figurativo muito utilizado. Forma, hoje, quase um arquétipo. Usa-se, apropriando a construção dos Gato: engrossa-se a voz, define-se um tom bruto e finge-se uma ingenuidade. Ou, então, veja-se as repentinas mudanças de estado. Uma falsa apoteose ou um crescendo anticlimático que desaguam numa expressão das ideias de aborrecimento ou de banalidade. O normalzinho ou a medianazinha (aqui o diminutivo a acrescentar uma ideia de banal ao já banal).

O ponto importante, aqui, não é a boa ou má utilização destes mecanismos, não é sequer a acutilância desta observação sobre a obra dos Gato. O ponto vital é, precisamente, a apropriação. Suspeito que a rápida absorção destes mecanismos e personagens reside na forma como o trabalho dos Gato incidia, sobretudo, na linguagem, isto é, na palavra.

Há quem os defina como non sense pelas qualidades de aleatoriedade. Recuso solenemente essa ideia. O aleatório pressupõe uma certa ideia de se dizer o que não é suposto. Mas, se assim fosse, num instante tudo se tornaria demasiado previsível. O mecanismo é demasiado denunciado. Nos Gato sempre houve uma sofisticada maneira de construir comédia. Esculpir em redor da palavra: a sua literalidade e os seus infinitos referentes circunstanciais. As palavras são uma coisa e tudo o que se quer que elas sejam.

O grande referencial da obra dos Gato, principalmente a destes tempos primários onde viviam desprendidos da lógica de atualidade, sempre foi a vida quotidiana. Repare-se nos cenários mais comuns ao longo das primeiras séries: escritório, consultórios e respetivas salas de espera ou repartições de serviços públicos. Os locais onde a condição humana se reveste de uma especial estupidez: as conversas de circunstância, os tiques de profissão ou as relações sociais. A subversão dos Gato era, precisamente, a destruição da convenção social, esse manto ridículo que todos, na espécie humana, somos obrigados a envergar.

A seriedade que transferimos para a vida em sociedade é quebrada pelo riso, uma espécie de correção ética que nos lembra que somos somente uns jagunços aqui a fazer nada. O riso é análogo ao movimento incessante da Vida, essa com v grande, e naturalmente se opõe, no sentido de expor o seu ridículo, às burocracias do corpo pessoal e social.

Não é estranho, por isso, que o grande trabalho dos Gato tenha sido em redor da linguagem. A palavra reúne as condições fundamentais da existência. É prova de vida. As palavras são matéria que permitem que pensemos partilhar, como espécie, um património comum. Não deixando, contudo, de ser também elas uma convenção e, por isso, dotadas de uma rigidez capaz de ser observada comicamente.

Quando se brinca com as palavras, brinca-se com a Vida. E, como únicos seres capazes de formular palavras, brincamos com a vida humana e a sua miserável condição. Quando os Gato trouxeram para o centro da sua criação a utilização de termos sofisticados em contextos desajustados, e o contrário, a repetição louca que esvazia o sentido e afirma o modo burocrata de ser – mas qual papel? – ou quando criam, num ato rocambolesco, novos termos, eles estão, na verdade, a dizer que nada merece uma seriedade desmesurada porque nada finta o destino inevitável. Sobra o riso para a viagem ser mais aconchegante.

Devemos aos Gato uma quebra com o cinzentismo da existência. Uma iconoclastia da sisudez. Devemos também, em termos de estilo, uma afirmação da importância do pensamento sobre a palavra e sobre a intenção cómica que redundaram, obviamente, numa sofisticação do humor apresentado. Num certo sentido, Gato Fedorento são uma porta de abertura para a existência de objetos como Bruno Aleixo ou Beatriz Gosta – não necessariamente em termos de estilo mas na demonstração da possibilidade de subversão e de libertação de convenções na própria criação.

Há um conjunto enorme de comediantes que se descobriu por causa da sua obra. Eu incluo-me, humildemente, no meio desses. Os DVD’s pirata dos Gato são o objeto cómico que mais vezes revisito. E, ainda hoje, me parto todo. Ser culturalmente relevante é produzir um objeto que seguirá, durante anos, como uma influência para produção artística. Estou em crer que assistiremos, nos próximos anos, à demonstração mais heterogénea da história da comédia. Aparecerão comediantes com estilos absolutamente díspares e grande parte deles virá com as séries Fonseca, Meireles, Barbosa e Lopes da Silva como elemento fundamental para a perceção das possibilidades criativas da arte cómica.

Fotografia em destaque: Daniel Rocha 

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