In Media Res #8 – a ode do terror

19 JUNHO, 2017 -

In media res é um espaço de ensaio a partir de elementos culturais. Reflexões desprovidas da lógica cronológica. O privilégio da ordem das nossas coisas. Sem pretensão avaliativa ou necessidade de aferição científica. Comprometida, somente, com a turva impressão pessoal do mundo das coisas. In media res porque todos surgimos no meio da História.

irrompem, no televisor,
os berrantes oráculos
pintados de vermelho e amarelo,
novas cores da desgraça.

o jornalista pivô aperalta-se,
vinca as pausas e soletra-nos,
a nós que ouvimos a repetição diária, já banal,
do vocabulário do terror,
que, desta vez, é que é.

o fogo, este que arde vendo-se,
é consumidor, sôfrega e impiedoso.
não se tivesse banalizado a palavra tragédia
e agora podíamos vê-la, clara, diante de nós.

o horror é o vazio dos outros.
é o testemunho evidente de quem grita uma angústia irreversível.
a dor,
que da poltrona momentânea do conforto,
não se partilha.

a empatia não é a substituição do outro pelo eu.
é, sim, erguer uma ponte,
por mais frágil que seja,
sobre a torrente brusca que levou tudo.

ao invés, instaura-se a abjeta espiral da merda.
querer ver-se, do alto do egoísmo, como parte do horror.

o horror, ali, é de quem berra inconsequente.
de quem, ignorando a realidade, clama pela suspensão
da injustiça.

o horror não é do jornalista testemunhador,
relevado na fronte do cenário de dante,
não é do raivoso opinador circunstancial,
ávido de culpa e sangue,
não é do gracejador virtuoso,
imune à dor do outro,
não é do rafeiro humorista,
a transformar a dor em prerrogativa pessoal.

hoje em dia é assim:
aponta-se o dedo para se ver a própria falangeta.
a selfie não é mais fotografia.
é modo de ser.

nesta era, o horror é buzz.
é competição histérica do ego.
no quadro triste do real,
somos uma humanidade que derrete
e se confunde com os próprios dejetos.
Há-de alguém, ainda assim, querer ser
rei desta merda toda.

o quadro abatido
da espiral difusa da verborreia
suga-nos a salvação.
o horror não é fim derradeiro do amor pelo outro.
é um pré-eu.

a orquestra dos ridículos assume
e abafa-se, sem dó,
a única coisa que importa:
o silêncio ínfimo do outro.

a única maiúscula é a da Senhora que,
em pleno caos,
sobrevive e quer esquecer tudo,
agarrando-se,
somente,
a isto de estar vivo.

o que o terror nos devolve,
de forma busca,
é a forma finita de tudo.
o nosso dever único é saber,
perante o outro,
que algo lhe morreu
e, por isso,
respeitar-lhe o silêncio.

Fotografia de artigo Paulo Cunha / EPA

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