In Media Res #5 – Louis CK, um génio que se testemunha

22 MAIO, 2017 -

In media res é um espaço de ensaio a partir de elementos culturais. Reflexões desprovidas da lógica cronológica. O privilégio da ordem das nossas coisas. Sem pretensão avaliativa ou necessidade de aferição científica. Comprometida, somente, com a turva impressão pessoal do mundo das coisas. In media res porque todos surgimos no meio da História.

Tudo na vida é incrível mas todos parecem aborrecidos. Esta é uma das mais conhecidas piadas de Louis CK. Na verdade, quase um lema. Notar que na mais sofisticada e multifacetada era da existência humana os humanos parecem mais aborrecidos do que nunca trata-se de uma constatação pessimista. Esta visão do absurdo da existência pauta a obra do comediante americano.

A comédia, apesar da sua eficácia na penetração junto do grande público, continua arredada da discussão artística. Ao comediante pede-se a legitimidade clássica do livro ou do cinema mas talvez seja tempo de trazer a stand-up e outros conteúdos cómicos para o plano da análise e interpretação estética.

Não há nada menor na construção de um texto cómico nem na consequente performatização. A ontologia do texto cómico vive de uma intenção primordial: provocar o riso. O que, desde logo, demonstra a necessidade do outro para a eficácia desse mesmo texto. O texto cómico acalenta camadas de simbologia social que são ativadas, explicitamente ou por via irónica, nesta formulação discursal.

A comédia dialoga com arquétipos, convenções e expectativas. Se analisarmos, por exemplo, a forma dos programas de humor político, como The Daily Show ou Last Week Tonight, constatamos, desde a génese, uma inversão da expectativa social. A apropriação da estética formal dos sóbrios programas de informação redunda num discurso nada jornalístico.

A inversão é somente um dos inúmeros mecanismos possíveis na linguagem humorística. Aliás, a multiplicidade de abordagens contribui para que se possa arrojar na proposta de comédia como uma arte per si, e não um simples meio. Gostos à parte, a cacofonia linguística que permite o trocadilho é tão válida como a rigorosa utilização dos silêncios.

O texto cómico tem a virtude de se jogar, sobretudo, no campo do implícito. O mecanismo cómico é quase sempre tácito. A dimensão significativa é mais profunda do que o explicitado porque, além da constatação do visível, dialogamos intensivamente com os mecanismos de construção que se mostram no texto cómico. A comédia faz questão de dizer que está mascarada e é como se nessa pessoal denúncia nos ríssemos não só da máscara mas também da consciência plena do gesto levado a cabo pelo mascarado.

A comédia é uma arte camaleónica. Uma falsa preguiçosa que se apropria de mecanismos e meios e que vive intencionada somente com a desconstrução e subversão das normas convencionais.

A ampla discussão sobre a consequência do humor, nomeadamente no campo político, não comprova só a acutilância do ato do riso mas, sobretudo, a implicitude presente na orgânica do texto cómico. A exposição de eventuais absurdos que conduzem a uma mudança de visão política é uma consequência da piada e não o seu intuito principal.

Veja-se, por exemplo, a atual discussão acerca do humor negro e dos limites da liberdade de expressão. Se, por um lado, é verificável um policiamento do discurso mais castrador do que construtivo, por outro, nota-se uma intenção de choque, longe da intenção cómica, que se defende num termo cada vez mais perigosamente esticado: a censura.

Por isso, num mundo que se polariza em torno de discussões mais viscerais, a beleza seja menos descortinada. Numa época em que a comédia caminha meteoricamente para um estabelecimento artístico, há um nome que se destaca: Louis CK. Recentemente, num artigo da revista GQ, intitulado “O Indiscutível Rei da Comédia”, CK é celebrado como o mais influente dos cómicos contemporâneos. Prestam-lhe homenagem comediantes tão variados como Kevin Hart ou John Oliver.

Louis CK caminha para ser, ao lado de George Carlin e Woody Allen, um dos mais importantes comediantes de sempre. O universo da sua obra é vasto e densamente pertinente. CK, tal como Carlin, colocou os assuntos mais sensíveis sob a lupa cómica mas, ao contrário do seu predecessor, dedicado à desconstrução das implicações sociais e políticas, a sua intenção cómica constrói-se a partir da moralidade individual. O exercício genial de CK é quase ético na medida em que, a partir da obscuridade dos pensamentos, se lança numa desconstrução precisa de comportamentos.

A barreira entre o que pensamos e o que, na verdade, fazemos é onde vive a obra do autor. Pensamento e ação, sendo partidários da obra de Hannah Arendt, são gestos fundamentais da condição humana. Entre o primitivismo e egoísmo de alguns pensamentos até à revelação factual de uma ação, pautada por um código ético e moral, operam anos e anos de evolução de espécie. CK é exímio a trabalhar sobre essa ação. O seu cunho é, sobretudo, existencialista e de uma natureza pessimista para qual a vida se regista como o derradeiro absurdo. Há angústia existencial em toda a obra e, perante o abismo do nada, ou como diria CK, a consciência de que seremos sempre menos do que o tempo em que nada seremos, sobra o riso.

Com CK, a piada não vive à necessidade de um ritmo imaginário ou de uma construção simplista, o seu domínio de timings prende-se com a devoção precisa que entrega à concepção da orgânica das piadas. Sem nunca se afastar do primordial objetivo do riso, há uma expressão nada pretensiosa de verdade no que afirma. Não é por ser riso, um ato de prazer confundível com leviandade, que impede de procurar caminhos de afirmação relevantes e densos. O seu grande mérito será, porventura, a exclamação da intenção cómica, denunciando um interesse na composição firme e cada vez mais apurada que, mais do que o mecanismo técnico, vive numa incessante procura e composição artística.

Não se estranha, por isso, que Louie seja obcecado com a forma como esculpe as palavras porque percebe que é na sua articulação que se intensificam os diálogos sociais de natureza implícita e explícita. A palavra, em si, representa a dimensão da existência. Seguramente universal para estabelecer uma comunicação mas, ao mesmo tempo, referencialmente pessoal e representativa de uma solidão existencial e não partilhada. Andamos para aqui sozinhos uns com os outros à espera do inevitável fim mas, como consolo, vamos adiando tal pensamento rindo com CK.

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