In Media Res #4 – A depressão é medo e o medo combate-se, tem de se combater

7 MAIO, 2017 -

In media res é um espaço de ensaio a partir de elementos culturais. Reflexões desprovidas da lógica cronológica. O privilégio da ordem das nossas coisas. Sem pretensão avaliativa ou necessidade de aferição científica. Comprometida, somente, com a turva impressão pessoal do mundo das coisas. In media res porque todos surgimos no meio da História.

De quando em vez, ela vem. Não que seja convidada, ou sequer bem-vinda, mas insiste em vir. E quando vem, assim tão sagaz quanto despercebida, sinto o corpo distender além da norma física. Carrego um peso maior e, pese embora não se ver tal carga, a gravidade entende-se comigo e trata de enterrar os meus olhos. O olhar vicia-se no chão, salvando-se a angústia em cada repetição mecânica de passos. Prefiro as pontas e solas dos sapatos dos outros aos seus olhos que tudo parecem saber sobre mim.

Não me sinto hábil a viver num mundo que parece de todos, menos meu. Calo a latejante vontade de agir, antecipando a inconsequência e inutilidade de qualquer ato. Nenhuma palavra foi inventada por mim. Não me sinto precursor de nada. Sinto a vida como um repetido algoritmo que ora me aborrece, ora se resolve em me magoar.

Vivo com depressão e há anos que, volta e meia, é assim. O meu corpo não cede em nada e, ainda assim, não consigo ser sempre o mesmo. Naturalmente me iniciei por achar que era mais fraco do que os outros, impondo a mim mesmo um rótulo de impotência e silenciando a expressão da dor que, afinal, não é de natureza finita como a dor física. O estranho esquema deste bicho que vive abaixo da pele é que inquieta mas mostra resiliência para persistir.

Quase que me culpo pela metáfora mas esta dor é tão parecida com o mar. Insiste, vívida, tal qual o movimento contínuo das vagas que invadem, sem dó, o areal. Num ápice desfaz-se a unidade aparente e, apesar do conhecimento das implicações gerais do processo de erosão, permanecem indefinidas as múltiplas ações singulares dos seus ínfimos componentes. Com o espírito também é assim. Desconhecemos a totalidade das minudências que nos compõe mas somos capazes de identificar os movimentos gerais do nosso singular sentir.

A perigosa virtude da dor emocional é o rito contínuo e insistente que, disfarçando-se de hábito, estabelece uma verdade que, afinal, não o é. A dor vicia porque convence. Vive-se no silêncio íntimo da falência da própria estima e no silêncio social das pressuposições dos outros. Nenhum deste silêncio é real. É a incerteza que a dor nos convence como matéria firme.

É por demais lancinante esta vertigem de viver assente na especulação. A mente faz-nos sofrer por coisas que nem sequer existem. No dia em que achei que não era normal querer mais cama do que amor, a desconsideração pela dor emocional bateu-me à porta. Uma despersonalizada receita de vitaminas e comprimidos para arrebitar como se a humanidade pudesse renascer com um placebo.

Por sorte, a minha insistência, outra expressão da raiva que não se liberta, conduziu-me a outras ajudas. Falei, sentado no divã, e soube do meu diagnóstico. Transtorno de ansiedade. Expressão generalizada de angústias que, de quando em vez, me vão entregar a fases depressivas. Porém, hoje já vivo por antecipação. Sei ler para onde vou e preparo-me. Tenho de me vigiar.

Ainda assim, não cesso de me deslumbrar com a potência da perceção emocional. Estamos vulneráveis a uma condição que nos pode impelir a deixar de querer a única forma de experienciar vida. Jaz, na nossa mente, a possibilidade de nos encerrarmos. Findarmo-nos. Ultimar a experiência de tudo por uma perceção afetada da realidade.

Causa-me um agonia horrível saber desta irreversibilidade. Saber que não se desfaz um ato que pode ser tomado em tal estado débil. Daí que não entenda a desconsideração social acerca das doenças emocionais. Não entendo que perante flagelos, como a recente Baleia Azul, se insista na culpabilização e não se perceba que há, altamente disseminada, uma necessidade de apoio especializado a doenças emocionais.

Uma das heranças da minha condição é saber identificar, nos outros, os mesmos sintomas. Ao longo dos últimos anos conheci várias pessoas que, padecendo de sintomas problemáticos, não procuravam ajuda por desconhecimento de procedimento ou por ter medo. O combate ao medo tem de ser feito pela normalização da condição e por estender a mão a todos aqueles que, seja por razão que for, se sentem desamparadamente sós.

Para alguns, como eu, chega um dia em que nos sentimos nus. Despidos de uma condição qualquer que nos convence que o mundo não nos pertence. Mas ele é, também, nosso. Mal ou bem, ninguém repete a nossa vida. Ninguém olha o mundo com os nossos olhos. A riqueza de estar vivo é poder injetar uma qualquer singularidade na realidade. Porventura, e como nos diz a canção, ninguém é quem queria ser. Certo é que todos devem ter o direito a querer ser alguma coisa.

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