Hunter S. Thompson: quando o medo e o delírio geram literatura

18 JULHO, 2017 -

Celebraria, hoje, 80 anos um dos maiores escritores da contracultura americana, célebre por ser o pai de um movimento literário chamado “Jornalismo Gonzo”, dono de um espírito de aventura alucinante, do mais puro que pode correr nas veias do ser humano. Hunter S. Thompson foi um dos escritores mais extravagantes da literatura contemporânea por ter produzido uma série de narrativas que descrevem a acção de uma maneira quase sensacionista, colocando-se a si mesmo como personagem em grande parte dos seus livros. No dia em que se celebra o seu aniversário, seria importante recordar a vida e a obra do escritor que fez com que o jornalismo deixasse de ser objectivo, criando um estilo próprio onde narrador se funde com a acção tornando-se assim numa só identidade.

A 18 de Julho de 1937 nascia Hunter Stockton Thompson no estado de Kentucky nos Estados Unidos da América, filho de um ex-combatente da I Guerra Mundial e de uma bibliotecária, o primeiro de 3 filhos. O seu pai morrera quando Hunter tinha 14 anos, e é nesta fase que vê a sua mãe presa no alcoolismo, tornando-se também um adolescente problemático, acabando por ingressar num grupo de vândalos, cometendo crimes de furto, e sendo mesmo preso e levado a julgamento. Aos 21 anos, foi levado a tribunal, e foi ditada a sentença que o levou a listar-se na força aérea americana, onde trabalhou como jornalista da base para onde fora recrutado, no Texas. É aqui que Hunter S. Thompson tem um maior contacto com a escrita e começa a desenvolver com maior minuciosidade a suas qualidades enquanto repórter e jornalista.

Em 1960 embarca numa aventura para San Juan, em Porto Rico, para trabalhar numa revista de desporto chamada El Sportivo. A revista durou pouco tempo e Hunter S. Thompson viajou por vários países da América Central e da América do Sul, trabalhando como freelancer em diversos jornais. Foi graças a esta aventura que se inspirou no seu primeiro romance que começou a ser escrito quando tinha 24 anos mas só terminado anos mais tarde, após ser rejeitado inúmeras vezes, ao qual foi intitulado por “Diário a Rum” (The Rum Diary). A história faz uma alusão aos métodos de trabalho da imprensa de Porto Rico, com base em algumas das vivências do próprio Hunter S. Thompson enquanto jornalista nos locais onde trabalhou. Tal história foi adaptada em 2011 no grande ecrã, num filme que contou com Johnny Depp no papel principal como Paul Kemp, e Amber Heard no papel de Hal Sanderson, noiva de um colega de Paul, que o leva a cometer as maiores loucuras e desavenças. O livro não deixa de estar imerso no rum ingerido ao longo da história, que alimenta desacatos e aventuras numa obra fascinante, repleta de loucura estimulada pelo álcool e outras tantas substâncias.

Em meados dos anos 60, regressa aos Estados Unidos, e aventurou-se na chamada “Geração Beat”, um movimento que consistiu em artistas de diversas vertentes seguirem uma vida nómada, repleta de aventura, criando uma série de ideais independentes nunca antes adaptados. Foram, deste modo, os precursores do movimento hippie que tende muitas vezes se confunde com a “Geração Beat”, e que mais tarde gerou a chamada contracultura americana. É nesta época que acompanha de perto as aventuras de um grupo motard selvagem, descrevendo com o máximo pormenor as suas aventuras, crimes, rusgas e o modo grosseiro e violento como agiam perante a sociedade. O grupo, chamado Hell’s Angels, daria material suficiente para que Hunter S. Thompson conseguisse produzir um livro que seria intitulado com o nome do mesmo grupo, sendo esta a primeira obra relevante publicada pelo próprio. A história demonstra o modo bárbaro como os Angels provocavam os seus desacatos, colocando-se a si mesmo como uma personagem que acompanhava toda a acção. Hunter S. Thompson teve o apoio de alguns colegas ao longo da viagem, relembrando logo no início da obra aqueles que contribuíram para que tal aventura fosse exequível. Hell’s Angels trata-se de uma peça jornalística com traços embrionários daquele que viria a ser o Jornalismo Gonzo, mas que, ainda assim, mostra o estilo único do autor enquanto jornalista e escritor.

Depois da aventura enquanto repórter no meio de um grupo motard selvagem, é contratado como cronista da revista Rolling Stone, revista que na altura era considerada um dos grandes porta-vozes da contracultura americana e onde começa a pôr em prática o estilo literário que fundara. É também nesta altura que embarca numa aventura até Las Vegas com o seu advogado, numa viagem que prometeria medo e delírio suscitado pelo álcool e drogas que ambos consumiriam. Tudo pela busca do chamado “American Dream”, um ideal dos Estados Unidos da América que, tradicionalmente, procura a vida, a liberdade, a propriedade e até a busca pela felicidade mas que se veio a degradar tornando-se até mesmo num ideal enfadonho e hipócrita. Esta aventura inspirou a famosa obra Fear and Loathing in Las Vegas (Medo e Delírio em Las Vegas na tradução portuguesa), que também fora adaptada ao cinema em 1998, com Johnny Depp no papel principal interpretando a personagem inspirada no próprio Hunter S. Thompson, Raoul Duke, e Benicio del Toro como o suposto advogado, Dr. Gonzo.

O livro em si está submerso numa sinfonia que é tanto alucinogénica como musical, típico dos movimentos que surgiram final dos anos 60 e início dos anos 70 nos Estados Unidos. Publicado em 1971, o livro descreve uma viagem onde o medo e o delírio simulado pelas drogas e intensificado pelo consumo extravagante que a cidade de Las Vegas oferece aos seus visitantes criam uma história única. Fear And Loathing in Las Vegas é a obra que mais se identifica com o Jornalismo Gonzo, sendo composta por passagens e expressões que dão vida à escrita de Hunter S. Thompson e com críticas bem pertinentes feitas pelo próprio enquanto narrador e personagem. Curiosamente, o livro conta com uma personagem portuguesa, um fotógrafo chamado Lacerda, no meio de uma descrição exímia dos efeitos do álcool e da mescalina em cada um dos intervenientes, com passagens hilariantes e com uma banda sonora de fundo que nos leva ao auge de uma América em pleno ano de 1970. Esta é a obra mais pura do Jornalismo Gonzo, sendo também uma peça sonante da literatura inspirada na contracultura americana.

Hunter S. Thompson sempre foi uma figura que tendeu a gerar controvérsia nos Estados Unidos devido ao modo desconcertante e louco como encarava a vida e também aos seus ideais de esquerda, mostrando-se um crítico aberto às políticas exercidas por Richard Nixon e mais tarde por George W.Bush. Durante a sua vida continuou a escrever para outras revistas, essencialmente a Rolling Stone, e lançou mais alguns livros de crónicas e fragmentos que desenvolvera ao longo do seu percurso como jornalista entre os quais Gonzo Papers (Vol 1-4), Screw-Jack, Kingdom of Fear. Isto para além de outros tantos Fear and Loathing diferentes, que consistem em cartas e artigos sempre inspirados no medo e no delírio que assim geravam a sua escrita. Na vida pessoal, casou-se com Sandra Dawn Conklin, da qual teve um filho dessa relação, Juan. Mais tarde, casaria-se com Anita Bejmuk, em 2003, uma relação que, por ironia do destino, seria efémera.

A 20 de Fevereiro de 2005, poucos dias após uma cirurgia a que fora submetido, Hunter S. Thompson suicidou-se com um tiro de caçadeira enquanto falava com a sua esposa, Anita, ao telefone. Deixou um bilhete de que sofria há já algum tempo de dores insuportáveis, encontrando-se num estado depressivo profundo. As suas cinzas foram disparadas numa cerimónia privada, ao som da célebre canção de Bob Dylan Mr. Tambourine Man, canção que encerra Fear and Loathing in Las Vegas, obra também ela dedicada ao próprio Dylan, pela música que se tornou um hino à droga durante os anos 60.

Uma vida cheia de loucura, álcool, drogas e um espírito crítico à sociedade americana, fizeram do percurso de Hunter S. Thompson algo único e extravagante, mostrando as vertentes mais excêntricas no ser humano. Hoje, se estivesse entre nós, teria material mais que suficiente para se inspirar nos seus contos, crónicas e até mesmo em novas obras literárias. Apesar de tudo deixou-nos um legado realista e ficcional com um substancial único, um estilo desconcertante que crítica uma sociedade dos Estados Unidos da América obcecada pela busca do sonho americano que no fundo não passa nem passará de um mito, ao contrário do espírito e do sonho aventureiro de Hunter S. Thompson.

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