Hugh Hefner, mudar os costumes do mundo em pijama de seda

29 SETEMBRO, 2017 -

Criou uma das mais icónicas revistas do século xx, a “Playboy”. Ajudou a mudar costumes, contribuiu para a libertação sexual do pós- -guerra, afirmou direitos numa publicação com mulheres nuas que era muito mais do que isso. Tinha literatura e grandes entrevistas. Hefner viveu uma vida longa da qual se despediu agora, aos 91 anos

“Faleceu pacificamente” aos 91 anos, “de causas naturais, na sua casa, a Mansão Playboy, rodeado pelos seus entes queridos.” O comunicado da Playboy Enterprises é omisso quanto ao que Hugh Hefner, o criador do império da “Playboy”, tinha vestido na altura da morte, embora não seja difícil de calcular que tenha optado por um dos célebres pijamas de seda que foram a sua imagem de marca durante mais de 60 anos.

O homem que fez progredir mentalidades e ajudou a mudar a visão dos americanos sobre o sexo criou uma revista que se tornou um marco na cultura popular do mundo no séc. xx. E tudo começou por causa de cinco dólares, os cinco dólares que a revista “Esquire” não lhe quis dar de aumento para ele continuar a escrever para lá.

Por causa desses cinco dólares em falta e com os mil dólares que a mãe lhe emprestou criou Hefner um império, um império de sonhos, de fantasia, despindo mulheres mais terra a terra (não queria mulheres inalcançáveis, mas a vizinha do lado) com sofisticação – bons fotógrafos, bons cenários. Nos Estados Unidos do pós-guerra, do começo da Guerra Fria, das perseguições do senador Joseph McCarthy, a “Playboy” fez mais pela liberalização dos costumes, pela libertação da mulher, pela naturalidade do sexo e da sexualidade do que muitos programas governamentais.

A revista chegou antes do tempo em muitas questões, de raça, de religião, de sexo e sexualidade. Na primeira grande entrevista, publicada em 1962, teve o génio do jazz Miles Davis a falar de racismo e preconceito. Joyce Carol Oates, Gabriel García Márquez, Norman Mailer, uma miríade de escritores e jornalistas escreveram nas suas páginas textos influentes, referências jornalísticas. Gore Vidal escreveu um ensaio sobre “Sex is Politics”, isto é, o sexo é política. Arthur C. Clarke admitiu na entrevista de 1986 ter tido uma “experiência bissexual”.

A revista libertou mentalidades ao mesmo tempo que Hefner se dedicava a viver uma vida de sonho kitsch que incluía mansões sempre em festa, uma enormidade de playmates pelo braço e uma eterna imagem de marca – um roupão sobre um pijama, tudo de seda, como se a sua vida fosse um eterno jogo sexual no motel de espelhos que se tornou a sua casa.

Vivia como se tudo fosse uma eterna festa ou, pelo menos, vendia essa ideia. Sempre com um cachimbo pendurado dos lábios que lhe dava um ar de Arthur Miller ao lado de Marilyn Monroe – o intelectual de braço dado com as pin- -ups. (À medida que os anos foram avançando, perdeu o cachimbo e a sua trupe de coelhinhas meio despidas começaram a dar-lhe mais uma aura de avozinho a passear as netas.) O seu mundo era o da fantasia dos homens jovens da América, que depois exportou para todo o mundo. A revista vende hoje mais exemplares fora dos EUA – nas várias versões em diferentes línguas.

Tal como a célebre desculpa dos leitores apanhados com um exemplar – “eu só leio por causa das entrevistas” –, a “Playboy” sempre foi uma publicação de quem os americanos adoraram dizer mal sem nunca deixar de se sentirem fascinados pelo conteúdo das suas páginas. Nelas, o sexo merecia atenção como parte imprescindível da natureza humana, mas não era o único tema.

Hefner costumava atribuir parte do sucesso da revista ao facto de Marilyn Monroe figurar no primeiro número. Os dois ficaram amigos próximos e, em 1992, o magnata comprou a cripta ao lado do túmulo da atriz no cemitério de Los Angeles por 75 mil dólares. Vai agora descansar os ossos ao lado de Marilyn Monroe, o que não deve ser um mau lugar para se ficar por toda a eternidade.

Artigo escrito por António Rodrigues / Parceria jornal i

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