História recente do Azerbaijão

8 SETEMBRO, 2017 -

O Azerbaijão gastou em dois anos um fundo com quase 2500 milhões de euros sobretudo destinados a comprar influência e favores entre ocidentais. A descoberta é volumosa, mas não muito surpreendente 

O Azerbaijão é um regime autoritário num constante contorcionismo para o não parecer. O diagnóstico, todavia, é claro. O seu presidente, Ilham Aliyev, sucedeu ao seu pai no poder, depois de este ter governado desde 1969, ainda no tempo soviético, até ao ano em que morreu, em 2003 – pelo meio executou um golpe de Estado e sobreviveu a outro. A oposição praticamente não existe, os jornalistas críticos são detidos sob acusações de tráfico de droga, traição ou lavagem de dinheiro. Mais bizarramente, são condenados por tentarem levar um antigo amante ao suicídio, como aconteceu com Khadjia Ismayilova, que investigou a fortuna da família presidencial e foi entretanto libertada.

Os redatores leais, esses, recebem apartamentos do Estado no “Dia Nacional da Imprensa”. No fim do último ano contavam-se pelo menos 14 prisioneiros de consciência, segundo a Amnistia Internacional, mas o número tende a oscilar ao longo do tempo e recentemente era muito mais elevado. A corrupção é endémica: o pequeno e próspero país de cerca de oito milhões de habitantes está no 123.º lugar de um total de 176 país do índice de corrupção da Transperency International – na lista dos Repórteres Sem Fronteiras, está no 162.º lugar, abaixo do Egito. Em fevereiro, o presidente apontou a mulher, Mehriban, como sua vice e sucessora.

Apesar de todos estes indicadores, o Azerbaijão não tem escassez de aliados entre congressistas norte-americanos e responsáveis europeus, fruto, acima de tudo, da torneira de dinheiro que abre para organizações de lobby um pouco por todo o mundo. Legal e ilegalmente. Esta semana, uma investigação realizada por órgãos de transparência e publicações europeias revelou que o governo azeri geriu entre 2012 e 2014 um fundo com quase 2500 milhões de euros para enviar a responsáveis europeus e jornalistas internacionais dispostos a travar críticas a abusos de direitos humanos, a validar eleições duvidosas, disseminar opiniões favoráveis ao regime de Aliyev ou a preparar campanhas para melhorar a fama do seu governo.

A investigação reforça suspeitas antigas de que o governo de Aliyev comprou o favor do Conselho da Europa, a mais antiga organização para a proteção dos direitos humanos no continente. A análise do Projeto para a Divulgação do Crime Organizado e Corrupção (OCCRP) e jornais como o “Guardian” revela que três antigos responsáveis da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa receberam dinheiro azeri, canalizado através de bancos escoceses e fundos offshore. Um deles, o italiano Luca Volonte, está já a ser investigado por acusações de corrupção no seu país.

Os outros são Eduard Lintner, do irmão bávaro do partido de Angela Merkel, a CSU; e Zmago Jelincic Plemeniti, esloveno do Partido Nacional. Volonte recebeu cerca de 1,5 milhões de euros, entre outras coisas, para fazer campanha contra um relatório no Conselho da Europa que censurava o Azerbaijão pelos seus prisioneiros políticos. Lintner e Plemeniti, por sua vez, que receberam dezenas de milhares de euros e foram observadores nas eleições de 2013, afirmaram que a consulta foi livre e que a vitória com 85% de Aliyev foi justa – contra o que afirmaram a OSCE e os Estados Unidos, por exemplo.

Relações públicas

A notícia de que o regime azeri usou um fundo milionário para infulenciar políticos estrangeiros não é inteiramente surpreendente. Aliyev tenta há muito moldar a opinião do mundo ocidental a seu favor. O seu governo patrocinou a camisola do clube espanhol Atlético de Madrid, candidatou-se a sós à organização dos primeiros Jogos Europeus – antes do seu começo deteve jornalistas nacionais e impediu a entrada de outros vindos de fora. Um ano depois acolheu um Grande Prémio do campeonato de Fórmula 1, na tentativa, como escreve o jornalista Ilya Lozovsky na “Foreign Policy”, de parecer um “membro da comunidade internacional moderno e desenvolvido”. Em muitos sentidos, campanhas deste tipo não são diferentes das que foram organizadas pela Rússia, por exemplo, no acolhimento dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, em 2014, ou do Qatar, que vai organizar o Campeonato do Mundo de Futebol em 2022.

O principal motor de influência, no entanto, continua a ser o dinheiro canalizado para think-tanks internacionais, políticos europeus e norte-americanos. Só em 2014, por exemplo, o Azerbaijão pagou 4 milhões de dólares em operações de influência nos Estados Unidos. No ano seguinte, uma investigação de ética norte-americana demonstrou que dez congressistas receberam viagens a Baku. Quem as fez elogiou depois o regime de Aliyev no que diz respeito à sua tolerância polícia, à prática de um islão moderado e o seu apoio (raro, no Cáucaso) a Israel. Como explica Lozovskyk, “para além de querer melhorar geralmente a sua imagem, há duas razões específicas para o governo de Baku querer alimentar apoios no Congresso”. “A primeira é a tentativa de fazer contrapeso aos seus inimigos históricos, os arménios, que manobram o seu próprio esquema poderoso de lobby. A outra é a de travarem os esforços crescentes na comunidade da defesa dos Direitos Humanos de tentar impor sanções contra indivíduos-chave do regime.

A descoberta de um fundo com 2500 milhões de euros para apenas dois anos de operações de influência, no entanto, é território novo. Ontem, o Conselho da Europa aprovou à última hora um pedido ao presidente Aliyev para que investigue as divulgações desta semana. Outros deputados insistiam também em fazer aprovar críticas ao regime azeri. O órgão, de resto, está pela primeira vez a realizar uma investigação interna aos presentes recebidos pelos seus membros. Os acusados na investigação desta semana, em todo o caso, negam ter recebido fundos ilegais do regime.

O mesmo acontece com um outro visado, Kalin Mitrev, marido da atual diretora da UNESCOe recipiente de dezenas de milhares de euros vindos do fundo azeri – que diz terem sido por serviços de consultadoria na resposta às inundações no país de 2010. A diretora do órgão de conservação patrimonial das Nações Unidas nega qualquer conhecimento das finanças do marido, mas há muito parece cultivar uma relação próxima com o regime. Em 2010, Irina Bokova atribuiu a medalha Mozart à mulher de Aliyev e, em 2013, a UNESCO realizou uma exposição fotográfica em Paris nomeada “Azerbaijão, Terra da Tolerância”. “Como diretora-geral de uma agência das Nações Unidas, o meu dever é cultivar relações saudáveis de trabalho com todos os membros da organização”, justificou-se esta semana.

Artigo escrito por Félix Ribeiro / Parceria Jornal i

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