História da Catalunha. Relato de uma submissão indesejada

1 OUTUBRO, 2017 -

Decisão de união com Aragão e Castela agrilhoou um povo singular a uma existência incómoda e constantemente posta em causa durante séculos a fio. Repressão franquista ajudou a consolidar o movimento nacionalista catalão e montou o palco para o sentimento independentista que Madrid faz por estancar

Uma é cidade e a outra é região, mas não é raro misturar-se a História de Barcelona com a da Catalunha. Na verdade ainda antes de se começar a ouvir no continente europeu o termo ‘Catalunha’ já o condado de Barcelona existia há mais de três séculos, sob dependência do império franco, e correspondia à região nordeste da Península Ibérica, encaixada entre os Pirenéus e o Mar Mediterrâneo.

A aquisição de um estatuto dominante na região ao longo dos séculos XI e XII permitiu-lhe então gozar de mais de 150 anos de verdadeira independência, com plenos poderes para decidir o seu próprio destino. Foi essa mesma emancipação que levou a liderança catalã a afiliar-se à coroa de Aragão, por via do casamento entre o conde Ramon Berenguer IV e a rainha Petronila,  em 1131. A conquista dos reinos de Nápoles, da Sicília e da Sardenha, pelo reino de Aragão, resultou num desenvolvimento económico e demográfico bastante acelerado na região da Catalunha – principalmente no posto comercial de Barcelona – que, mesmo submissa à autoridade aragonesa, conseguiu manter uma posição de relativa autonomia, com leis e instituições parlamentares próprias.

O ano de 1469 marca a entrada definitiva da Catalunha no grande jogo dos tronos da futura Espanha, com a união das casas reais de Aragão e Castela, através do matrimónio entre Fernando I e Isabel. A incorporação num território mais vasto – cujo centro político estava longe de Barcelona – resultou numa natural perda de relevância catalã, que acabou por ser agravada a partir de 1492, fruto das aventuras de Cristóvão Colombo nas Américas. Outrora o centro de um império mediterrânico, monopolizador do comércio na região, a Catalunha e a cidade condal sofreram na pele o deslocamento da atividade económica para o Atlântico  e entraram em declínio económico e político.

Cansados de quase dois séculos de subjugação aos apetites económicos do império colonial espanhol e à taxação real excessiva, os catalães aproveitaram a presença dos exércitos de Felipe IV na Catalunha, destinados a combater a França de Luís XIII, para se rebelarem contra a coroa.

A revolta durou 12 anos (1640-1652) e incluiu um período em que a Catalunha foi mesmo uma república autónoma sob proteção francesa.

A reocupação espanhola do território marcou o fim da revolução, mas foi incapaz de cortar pela raiz o sentimento de desdém catalão pelo poder central.

Terá sido esse sentimento – aliado às vantagens comerciais que lhe oferecia o cenário oposto – que levou a Catalunha a apoiar a Casa dos Habsburgos, ao invés dos Bourbons de Felipe V, na lendária Guerra da Sucessão espanhola. A afronta catalã teve como ponto alto o mortífero cerco de Barcelona – que fez perto de 20 mil mortos -, entre 1713 e 1714, numa altura em que os apoiantes do pretendente austríaco já estavam praticamente alijados da guerra. Com a implantação da linhagem dinástica da Casa de Bourbon veio um castigo severo para os rebeldes da Catalunha. O Parlamento foi suprimido, o uso do catalão pelos funcionários do Estado na região foi abolido, e o sistema legal autónomo do resto do reino foi desmantelado.

A recuperação económica da Catalunha durante o século XIX abriu caminho à revitalização da identidade cultural histórica catalã e encorajou o florescimento de um nacionalismo verdadeiramente catalão, que foi ganhando adeptos ao longo de todo o século seguinte. A criação de um governo regional – a Generalitat -, no seguimento da instauração da segunda república em Espanha, em 1931, ofereceu à Catalunha uma pequena janela de autonomia, mas o espoletar da Guerra Civil, cinco anos mais tarde, marcou o passo para nova opressão do Estado à autodeterminação catalã.

A Catalunha aliou-se às forças republicanas contra o General Francisco Franco e foi um dos principais palcos da resistência antifascista, tão bem retratada na Homenagem à Catalunha, de George Orwell (1938), que retrata a experiência do autor no conflito, entre as fileiras do POUM (Partido Operário da Unificação Marxista).

A vitória do regime franquista em 1939 deu lugar a mais de três décadas de ditadura militar e a uma nova supressão da autonomia, cultura e língua catalãs. Milhares de opositores foram executados e outros milhares foram presos e torturados durante o ‘reinado’ autocrático de Franco, na Catalunha.

O escritor, jornalista, ensaísta, resistente político  e criador do famoso detetive Pepe Carvalho,Manuel Vázquez Montalbán – um dos que sofreu duramente às mãos da polícia franquista, devido à sua militância comunista – recriou nos livros, de forma sublime, o ambiente vivido na Catalunha naquela época e uma vez colapsada a ditadura, em 1975, ganhou mesmo protagonismo no debate sobre os nacionalismos em Espanha, encafuados por Franco. «Se o franquismo conseguiu reprimir e ocultar as reivindicações nacionalistas e propor um único nacionalismo espanhol, a democracia do futuro terá a sua saúde e natureza pendentes enquanto não resolver os litígios relativos aos nacionalismos internos e as suas duas opções de fundo: separatismo ou confederação», refletiu, num artigo de opinião publicado no El País, em 2000.

Restaurado o seu estatuto autonómico e reconhecido o catalão como língua oficial do território, em 1979 – reforçado em 2006 – a Catalunha partiu para a consolidação da sua identidade, tradição e culturas únicas, beneficiando da transição democrática, do turismo, dos Jogos Olímpicos de Barcelona (1992) e do próprio clube futebol da cidade condal – FC Barcelona – para assumir com orgulho a singularidade da existência catalã e o seu desejo de autodeterminação, assente nas reivindicações referidas por Montalbán.

Com a crise económica trazida com a primeira década do novo século veio o renascimento dos movimentos independentistas catalães e uma série de braços-de-ferro entre a Generalitat e o Governo de Madrid, motivados, por um lado, pela declaração de soberania do Parlamento regional (2013), pela consulta popular à independência (2014) ou pela adoção de uma resolução preparatória para o projeto secessionista catalão (2015) e, por outro, pelos repetidos chumbos constitucionais e pela firmeza de Mariano Rajoy às movimentações da Catalunha. O próximo capítulo de uma História de resistência é já no próximo domingo. Com ou sem referendo.

Artigo escrito por António Saraiva Lima / Parceria jornal i

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