‘Hidden Figures’, uma história marcante num filme pouco inspirador

13 FEVEREIRO, 2017 -

As histórias verídicas dos heróis “anónimos” são sempre momentos cinematográficos que merecem especial atenção por parte do público devido à vertente inspiradora a si associada. Se a isso juntarmos o contexto histórico, a luta pelos direitos civis de afro-americanos e a emancipação feminina, o filme torna-se obrigatório. Todos estes chavões possivelmente servirão por si só para garantir nomeações aos Óscares. Infelizmente para Hidden Figures, além de não conseguir acrescentar nada a um diálogo importantíssimo, também não lhe basta focar-se numa história inspiradora para que o resultado final resulte nisso mesmo.

Realizado por Theodore Melfi que se baseia aqui na obra literária de Margot Lee Shetterly, Hidden Figures presta-se a relatar-nos a história verídica de Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson, três mulheres negras que tentam subir a pulso na carreira na NASA em plenos anos 60, durante a corrida ao espaço entre os EUA e a antiga URSS para colocar um homem em órbita. O contributo histórico dado por estas três mulheres, matemáticas, chamadas na altura de “computadores”, é, no entanto, simplista demais, apesar das personagens marcantes interpretadas por Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monaé. Ao lado delas, Kevin Costner dá-nos também uma das suas melhores interpretações em anos, ao contrário de Jim Parsons, que infelizmente não se consegue desligar dos seus maneirismos habituais em The Big Bang Theory. Para mal dos seus pecados, nenhum dos aspectos positivos (nem a soma das partes) é suficiente para tornar Hidden Figures num filme minimamente marcante.

Hidden Figures perde-se em vários aspectos. Com a necessidade de tornar o seu conteúdo mais acessível e com uma leveza de espírito que o tornasse comercial o suficiente para chegar ao maior número de espectadores possível, o filme perdeu aquilo pelo qual se deveria destacar: a mensagem e a luta das suas três grandes protagonistas. Esta luta, além de não se fazer sentir no aspecto interior, sendo que qualquer uma das principais personagens tem pouca profundidade psicológica, é também desconsiderada exteriormente, salvo insípidos discursos mais emocionais que têm o pretensiosismo de querer por si só conseguir o desejado momento da “lágrima no canto do olho”.

Além disto, Hidden Figures ao tentar focar-se nas três personagens de igual forma, acaba por desconsiderar as interpretadas por Octavia Spencer e Janelle Monaé, sendo que esta última tem possivelmente o trajecto pessoal mais interessante no filme. Pena o seu pouco momento em ecrã. De resto, Janelle Monaé merece uma especial palavra de destaque ao ter-se estreado na representação em dois dos mais reputados filmes do ano com notáveis interpretações: Moonlight e este Hidden Figures. Curiosamente, dois filmes onde também Mahershala Ali entra. Já Taraji P. Henson, o foco principal do filme, alterna momentos inspiradores com outros demasiado forçados (o tique de ajeitar os óculos é repetitivo por demais) e demasiado automáticos. Theodore Melfi tornou as suas principais actrizes em meros autómatos, sem essência ou identidade.

A “fórmula rápida” adoptada em Hidden Figures infelizmente faz com que fiquemos sempre com a ideia de já ter visto muitas das suas cenas em títulos igualmente convencionais e pouco inovadores do passado. O importante tema que o filme se propõe a tratar merecia uma abordagem mais séria e menos cartonesca em certos momentos (um aspecto onde a “animada” “Runnin’” de Pharrell Williams não ajuda). Se Hidden Figures nos consegue marcar de alguma forma, é para um (re)despertar de consciencializações sobre o assunto que trata e para que fiquemos a desejar o surgimento de um filme que consiga retratar com maior justeza, qualidade e seriedade este importante período histórico.

O filme de Theodore Melfi é bem-intencionado, mas recusa-se a correr os riscos que as personagens que retrata correram, e é isso que o impede de ser tão marcante quanto elas mereciam que Hidden Figures fosse. Não era necessário ser sério, mas pedia-se que se tivesse levado a sério.

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