Herman José: “Um dia estava em Ibiza com um grande barco e pensei: ‘Nada disto faz sentido’”

8 OUTUBRO, 2017 -

Para viver como um milionário, teve de trabalhar como um escravo. E fez coisas na TV que se pudesse apagava do seu passado. Aos 63 anos Herman José diz estar a recuperar a serenidade e o prestígio que a fase da SIC lhe destruiu

Após um período em que perdeu o controlo do monstro que tinha criado, como ele próprio diz, Herman José passou os últimos anos “a arrumar a casa”. Numa conversa a propósito da sua participação no videojogo de Quizz Saber é Poder, para a consola Playstation4, o humorista falou sobre brincadeiras de crianças, preocupações e prazeres da vida. Aos 63 anos diz já não precisar de fingir ser quem não é e que está viciado na sensação de “feel good”. Em deixar atrás de si “um rasto de felicidade”. Ainda que continue a adorar fazer patifarias.

Já que aqui estamos por causa de um videojogo, começo por perguntar-lhe: gosta de tecnologia?

Adoro gadgets. O meu pai era cineasta amador, portanto comecei desde muito pequenino a mexer em maquinarias e filmes de 16 milímetros. Tenho uma grande ligação às tecnologias. Mas curiosamente nunca aderi a estes jogos, até porque sou de uma geração em que não existiam. Havia o Monopoly, depois apareceram aqueles Spectrums muito deprimentes. Uma vez ofereceram-me uma coisa da Lara Croft que nem abri. Não tinha qualquer ligação a este universo, até que um dia passo por um sítio onde estão a fazer uma demonstração e fico espantado com a quantidade de informação que um jogo destes já tem. Depois, como sou muito curioso, fui pesquisar e fiquei espantadíssimo com os budgets envolvidos nas grandes produções de jogos. Mas pronto, fiquei-me por aí.

Então como surgiu o convite para dar voz a este jogo?

Este desafio foi feito da única maneira que para mim se torna irrecusável. Em vez de me chamarem para um casting, com mais cinco ou seis rapazes, fui convidado pessoalmente. Tinha de ser eu. O que me deixa logo entusiasmadíssimo. Isto foi feito em Gaia e é um trabalho longuíssimo: são milhares de frases e de interjeições.

Tem de gravar tudo?

Muitas vezes da mesma coisa – ‘Fantástico!’, ‘Bem’, ‘Mas que BEM’, ‘Muito beeeeem’… sempre com entoações diferentes. E essa vertente era um bocadinho obsessiva, tanto que houve dias em que estava num hotel muito bonito, que tem um restaurante lindo com vista para o Douro e comia sempre no quarto… Já não tinha sequer força para mudar de roupa. Mas chegar aqui e ver a demonstração é muito giro – as entoações e os comentários são tantos que eu próprio me deixei embalar e achei que estava ali um Herman de serviço a comentar, a incentivar, a dar jogo…

Não é estranho ter uma espécie de ‘duplo’ em miniatura metido ali dentro daquela caixa?

É estranho quando paro para pensar que o que estou a ouvir é um conjunto de milhares de coisas soltas, mas como o trabalho foi muito bem feito de todos os lados – também assumo a minha quota-parte de profissionalismo – o resultado final fica verdadeiramente interessante. O jogo já não é só tridimensional, passou a ter quatro dimensões, porque interfere também com os nossos telemóveis. Há um castigo em que a gente lança uma goma, uma espécie de pastilha elástica para cima dos concorrentes, quando ele vai jogar está todo tapado. Só depois de se limpar é que pode escolher a resposta. Ou podemos congelar o adversário, ele tem de partir o gelo e só depois é que responde.

Acha graça a essas patifarias?

Acho maravilhoso. Hoje estive a jogar com duas meninas e tive a felicidade de lhes mandar com gomas, bombas e coisas terríveis para cima para as fazer sofrer.

Este é um jogo de quizz. Gosta ver os concursos tipo Quem Quer Ser Milionário?

Não.

Mas é parecido com isto.

É muito parecido com isto, mas eu não gosto dos timings que em Portugal metem nos concursos. Adoro o timing americano. Dez minutos rápidos, vão para intervalo – a pessoa vai fazer um xixi, vai fazer um café e volta – mais dez minutos rápidos. É sempre a andar. O meu timing de alma é o da televisão americana, não é esta coisa europeia: ‘Diga lá’, ‘veja lá…’, ‘tem a certeza???’, ‘é isso que quer?’… Apetecia-me matá-los a todos! [risos]

Não havendo estes jogos, a que se brincava na sua infância?

No meu tempo fazia filmes giríssimos com Super 8. O meu pai era todo cineasta amador. Insonorizávamos em casa, revelava fotografias, estava muito ligado às maquinarias, às modernidades da altura. O primeiro computador de xadrez que falava vi-o em casa, o meu pai trouxe-o da Alemanha. Ia enlouquecendo a minha mãe, foi a fase em que o casamento esteve mais em perigo, porque às quatro da manhã ouvíamos uma voz a dizer – “Ach eins, nach sie vier”, “swei zu der acht”, que eram as várias jogadas, numa voz monocórdica insuportável que saía da máquina. E tive muito cedo um gravador, um Grundig. Há uma coisa que eu adoro em televisão, que é entrevistar-me a mim próprio, falar comigo próprio. E faço-o melhor do que ninguém, porque é uma brincadeira que faço desde os quatro anos.

E outras brincadeiras mais comuns, como jogar ao pião ou à bola?

Havia uma coisa em que andei viciado muito tempo, que era o prego. Até que um dia espetei o prego na Helena Roseta. Aquilo fazia-se uma volta, duas voltas ou três voltas. Eu quis fazer para aí sete voltas e na última volta foi parar à perna da Helena Roseta.

Queria bater todos os recordes?

E bati de tal maneira que lhe espetei aquilo na perna. Há coisas que com o tempo ficam mitos, mas acho que era mesmo ela, porque ia para aquela praia com a família.

Ser competitivo é um traço do seu caráter? Querer fazer sete voltas quando os outros faziam três?

Sim. O ser humano é sempre um bocado competitivo, mesmo quando finge que não é. Eu tinha um drama terrível: como era péssimo com qualquer jogo de bola – péssimo… A Carol Channing tem uma música em que fala de um compositor chamado Jerry Herman, em que diz: ‘When God handed out talent, Jerry stood in line twice [quando Deus distribuiu os talentos, o Jerry recebeu a dobrar] – e que por isso ficou um compositor maravilhoso de letras e de músicas. E eu digo que quando estivemos na fila para receber esses dons, eu enganei-me e, quando era para ir para a fila do talento para coisas de bola, voltei para a fila artística. Fiquei com excesso de talento artístico.

Talento a duplicar?

Pego num instrumento e toco passada meia hora, sou um intuitivo. Dão-me uma bola para a mão e sou uma desgraça. De tal maneira que o filho de uma amiga minha, de seis anos, pedia por tudo para não jogar comigo na praia às raquetes. De maneira que tive de compensar essa incapacidade com outras coisas, como mandar um prego e fazer sete voltas. Fui um bocado enfant terrible mas para fazer esquecer a desgraça que eu era nos desportos onde toda a gente fazia mais ou menos bem.

Essa falta de jeito era um entrave para se integrar?

Era. Por isso é que eu tentava compensar noutras coisas.

Era bom aluno, não era?

Também era irregular. Era capaz do melhor e do pior.

Estudava muito ou nem por isso?

Também por fases. Quando me enchia de brio fazia brilharetes. Depois pus a minha imaginação ao serviço do bluff. Lembro-me do meu exame final de alemão, andava na música e já não queria saber dos estudos. E não li nada para os exames. A prova escrita foi uma desgraça e na oral saiu-me o Don Carlos do Schiller. Eu sabia lá quem era o Don Carlos, podia até ser um chocolate! E perguntaram-me: ‘Qual é a sua opinião [fala num tom quase declamado] sobre o Don Carlos do Schiller?’ ‘Qual é a minha opinião?! Que opinião se pode ter sobre um homem que escreve desta maneira?’. Abro o livro e começo a declamar Schiller – e não é que vou precisamente ter com um discurso bestial? De repente olho pelo rabo do olho e já tinha três membros do júri em lágrimas. Continuei cada vez mais tonitruante e quando já tinham acabado os vinte minutos fecho o livro. Toda a gente se levantou e deu-me uma salva de palmas. Tive 20 valores, o que com a negativa da prova escrita me deram uma boa média e pude passar. Foi aí que tive pela primeira vez a noção da subjetividade da arte. Como é que de repente há um pintor como o Rothko que faz umas manchas castanhas gigantescas, ou como o Lucio Fontana, que fere uma tela, e são considerados génios e valem 80 milhões de dólares na Sotheby’s? Há um mistério à volta disto tudo que se nós aqui e ali soubermos apanhar pode ser útil. Apanha-se é poucas vezes.

Não tinha lido o Don Carlos porque não gostava de ler?

Aconteceu com a leitura o mesmo que aconteceu com o futebol. O meu pai achou que se me pagasse 25 tostões por cada jogo que eu visse do Sporting eu ia ficar a adorar futebol. E eu, em vez de ter uma juventude normal, passava os fins de semana a ver jogos para ganhar os 25 tostões por jogo. Depois tinha uma fortuna, mas era uma chatice. Já não podia ver jogos, nem estádios, nem Sporting, nem juniores, nem balneários nem nada. Com a literatura aconteceu-me uma coisa parecida. Por uma coincidência estranha todos os professores que apanhei na escola alemã em Lisboa eram bibliófilos inveterados. Um deles, que me adorava, tinha fugido da Alemanha dita democrática, e apaixonou-se por Portugal e pelos alfarrabistas e pelos livros. E a dose que nos dava para ler era tão violenta que há uma altura na minha vida em que os livros passam a ser inimigos. Ter 14 anos ou 15, chegar ao fim de semana e ser obrigado a ler a Morte em Veneza do Thomas Mann, o L’Étranger do Camus, e ainda mais uma porcaria qualquer portuguesa faz com que o livro seja um inimigo. Durante muito tempo nem tinha os livros à mostra. Estavam escondidos, em malas. Hoje em dia, com os novos meios, dou por mim a ler imensas coisas, a entregar-me a coisas interessantes sem forçosamente ter uma estante gigante atrás de mim como tinha a Natália Correia.

Ainda não ultrapassou bem esse trauma?

Apetecia-me dizer-lhe que sim, mas porventura ainda não. Tenho algum orgulho nisso? Nenhum, tenho a maior pena.

Na altura desse exame de que falou já tocava piano?

Tocava tudo o que me aparecesse à frente.

Sem aulas?

Sem aulas. E depois estancava. Quando quis ir aprender piano para o Conservatório já fazia coisas tão complicadas que o exame de admissão demorou 30 segundos. Os júris disseram: ‘Você é inacreditável. Mas já teve aulas?’. ‘Não, não’. ‘Isso é tudo de ouvido?’. ‘É, é’. ‘Você é genial’. ‘Claro que sim’. E deram-me o melhor professor, que era um Jorge Moyano.

E um grande pianista.

Só resisti a três aulas porque ele dizia: ‘Você tem um talento bestial, mas não estuda…. A partir de agora tem de se estudar, não pode ser só fazer habilidades’. E eu desisti. Por isso é que tenho um respeito infinito pelos músicos, porque é preciso uma grande, grande entrega, é como ginástica de alta de competição.

Mas continua a tocar…

Continuo. E acabo por usar imensos instrumentos para servir o espetáculo. Quem não me conhecer acha que eu sou músico.

E não gostava de ser?

Adorava ser, só que agora também já não vale a pena, não é?

A verdade é que temos a sensação de que o Herman se calhar gostava de ter feito carreira como cantor.

Tive um drama terrível. Até à mudança de voz, cantava tão bem, tão bem, tão bem… Era unânime. Era como a Mariza agora. A Mariza desata a cantar e toda a gente ‘Ahhhh’. Esse dom eu tinha. De tal maneira que na Escola Alemã chegaram a considerar mandar-me para os Wiener Sängerknaben, o coro dos cantores de Viena. Só que era filho único e a minha mãe desatou a chorar com a ideia… se não tinha ido. Era absolutamente genial.

Angelical?

Angelical e perfeito. Quando mudei de voz tornei-me um tipo muito musical mas com um aparelho vocal vulgaríssimo. A música serve a minha profissão enquanto humorista, mas, como sou muito crítico, o que ouço não é um cantor, é um ator que canta afinado. O cantor para mim tem de ter um timbre, mesmo que cante mal como o Bob Dylan ou o Leonard Cohen há ali uma característica. Isso acho que tenho enquanto humorista.

O Woody Allen, que é um grande cineasta, dizia numa entrevista que gostava de ter sido um grande músico. Perguntava-lhe isto porque às vezes tendemos a desvalorizar o talento que temos e a desejar um que não temos.

Eu não. Adorava ser um jovem Sinatra, correr o mundo todo e impor-me só pela minha voz e pela minha música, claro que sim. Mas adoro ter o talento que tenho. O Woody Allen dá-me vontade de rir porque cada vez toca pior. Ouvi-o há 20 anos e pareceu-me sofrível, ouvi-o há 15 e pareceu-me fracote, depois ouvi-o há dez e achei deplorável. Da última vez saí da sala, não aguentei. Está a tocar tão mal que assusta, mas ele acha que não.

O que gosta de ouvir?

Depende. Quando estou com insónias a música clássica faz-me bem.

Relaxa-o?

Relaxa-me, dá-me prazer, induz o sono.

Por ser chata?

Não, porque mexe com partes do cérebro que não me fazem rebentar bolhas de adrenalina. A última grande insónia que tive estava no Alentejo, um calor insuportável – o ar condicionado estava avariado – e eu pus a Martha Argerich a tocar o concerto para piano e orquestra número 2 do Rachmaninov. Soube-me tão bem, tão bem, tão bem. Aquilo entrou-me dentro da alma, esqueci-me de que estava com calor, deixei-me levar e quando acabou o concerto induziu-me no sono.

Costuma ter problemas para dormir?

Não. O que acontece é que às vezes há pequenas sementes…

Que deixam a cabeça a trabalhar?

Sim. Que pegam de estaca algures no meu cerebelo e criam ali uma árvore que em vez de me induzir o sono começa a mobilizar-me o cérebro. Podem ser coisas benignas, ótimas, soluções profissionais, a excitação de ir buscar o carro novo, ou coisas desagradáveis.

Preocupações?

Preocupações. Tudo o que meta dinheiro, impostos, finanças, é sempre muito desaustinante. Lidamos muito mal com isso porque não é a nossa especialidade.

Não tem quem lhe trate dessas coisas?

Tenho, mas há sempre coisas que não correm bem, independentemente de termos pessoas competentes, e eu tive uma fase em cresci muito em muitas direções, restaurantes e porcarias, estúdios, Tivolis, e perdi o controlo. Tenho estado estes anos todos a arrumar a casa, a fazer um downsizing à minha vida para voltar a ser feliz como quando vivia só do meu trabalho e tinha poucos ordenados para pagar. Não me dá prazer nenhum ser patrão, nenhum prazer ter reuniões, nenhum prazer falar com bancos… é uma coisa anti-natura para mim. E estupidamente algures nos anos 90 achei que ia ser também empresário, um erro desmedido.

E o que lhe dá prazer agora? Ainda sente aquela excitação quase infantil quando vai buscar um carro novo, como disse há pouco?

É impossível não sentir. O cheiro a carro novo, o brinquedo novo. Ou descobrir uma coisa que adoro no Ebay e ficar ansioso que ela chegue. Coisas tão fúteis, tão fúteis, que o pudor me impede de explicar quais são. Gadgets ou uma porcaria de um cachecol que se descobre de um padrão que a gente queria ter porque liga com não sei o quê. Ou uma calçadeira de 55 centímetros para eu usar no espetáculo. Vibro imenso com essas pequenas porcarias. Se eu tiver um porta-moedas da Vuitton que uso para pôr os auscultadores, como é da Vuitton e vale 200 euros já não o perco. Se for barato deixo num sítio qualquer. Sou muito infantil nesse aspeto.

Além dessas compras qual é o tipo de coisa que lhe dá prazer? Viajar, comer uma boa refeição?

A viagem ancorada nos restaurantes certos. Com bons hotéis – tem de ser. Não raras vezes o dinheiro que vou ganhar quando vou fazer espetáculos fora derreto-o no hotel e nas refeições. Mas paciência. É essencial para mim ficar bem instalado. E ir a sítios comer coisas interessantes, frescas, não precisam de ser super-requintadas. Em Paris há uns restaurantes maravilhosos sem fama nenhuma que servem as melhores ostras do mundo. A gente escolhe entre seis variedades, faz uma refeição de ostras e no final come um pequenino steak tartare e bebe um champanhe e teve uma explosão de felicidade. Se me perguntarem como é que se chama o restaurante, não sei. É onde? Não sei. Tenho enfiado grandes barretes também em restaurantes duas e três estrelas Michelin. E tenho um desgosto enorme: não gosto de vinho. O vinho não me dá prazer.

Costuma beber o quê, champanhe?

Sim, desde que seja francês e bom. Pode ser o normalíssimo Moët et Chandon, ou um Blanc des blancs Ruinart melhorzinho, ou por aí acima. E se houver alguma coisa para comemorar abre-se uma grande garrafa.

Tudo o que está a falar são coisas muito caras. Bons hotéis, bons restaurantes, champanhe…

É para isso que vou trabalhar. Mas o meu dia-a-dia é até bastante simplório. As minhas grandes despesas são os ordenados das pessoas que trabalham comigo. Isso é importante – ter pessoas felizes a trabalhar para mim, e preciso muito delas. Depois os luxos são sempre fogos-fátuos para compensar momentos em que vou fazer um espetáculo bestial, aproveita-se e vai-se ali.

Como quem diz: ‘já que trabalho também mereço’?

Nunca são coisas desgovernadas só porque sim.

E carros? Ainda tem vários?

Hoje em dia tenho um carro de trabalho magnífico, que é um jipe ótimo, no qual vou para os espetáculos e que é a minha segunda casa, e tenho um descapotável que adoro, para dar umas voltinhas. A minha frota está reduzida a esses dois.

Já não tem o Rolls Royce, portanto…

Tive uma fase completamente louca de carros. Percebo – é o síndrome do futebolista. Fui um rapaz de classe média rodeado de ultra-ricos na Escola Alemã de Lisboa. E enquanto não cumpri certos objetivos para ver como era não descansei. Cumpridos os objetivos, está feito, segue-se em frente. Fiz isso com os carros, fiz isso com os barcos, com as festas, grandes jantares e tal. Depois, a pessoa diz: ‘Já vi como é, agora vamos lá voltar à normalidade porque eu não sou essa pessoa’. Não sou o Valentino, não sou o Elton John, sou um comediante que vive em Portugal, que ganha bem, mas moderadamente. A vida para ser gira e interessante tem de se ajustar, e não estar-se a fingir que se é outra coisa e tornar-se escravo do monstro que se criou.

Quando tinha esse Rolls Royce nunca se sentiu desconfortável por Portugal ser um país onde apesar de tudo sempre houve pobreza?

Hoje em dia era incapaz. Mas na altura a adrenalina era tanta… Houve uma fase em Portugal em que dava a sensação de que se estava a viver numa espécie de Suíça e era tudo permitido. A minha fase do disparate acompanha esse tsunami dos anos 90. Depois quando as coisas normalizaram tive necessidade de voltar a ser um ser humano aparentemente normal.

Sentia que fazia parte desse mundo da alta sociedade?

Era um bocado como o Cristiano Ronaldo agora: ‘Ah, que giro, comprou um Bugatti’. Foi uma fase um bocado assim. Acabou quando teve de acabar e depois normalizei. Hoje em dia era incapaz de ter um Rolls Royce porque é um carro anacrónico, não tem nada a ver com Portugal, com as nossas ruas, com nada.

E tinha de trabalhar muito para manter esse nível de vida?

Um dia estava em Ibiza de férias com um grande barco e pensei: ‘Mas espera aí, nada disto faz sentido. Estou a trabalhar como um doido para sustentar uma realidade que não é a minha’. Os meus vizinhos de marina eram advogados de divórcios de Barcelona riquíssimos, do outro lado era um gajo que tinha estacionamentos em Londres e era riquíssimo também. E eu fingia que era aquilo e não era nada: era um tipo que andava a fazer espetáculos e a apresentar concursos para depois derreter tudo em gasóleo, taxas, seguros. Portanto chegou uma altura em que disse: ‘Já brinquei aos ricos, agora vou sair do meu princípio de Peter onde nada faz sentido e fazer o meu downsizing para aquilo que eu sou realmente’ e é isso que faço hoje em dia.

Descer à terra.

Descer à terra, mas sempre aproveitando o dia-a-dia muito bem. Há maior privilégio do que comprar peixe fresco e grelhar? Por menos de 40 euros compra-se uma Moët et Chandon no Intermarché, mete-se num balde de gelo e serve-se ao almoço. São 40 euros, não são 400. Há luxos que é perfeitamente possível ter-se.

Parece-me evidente que a carreira de uma pessoa, ainda para mais no mundo do espetáculo, não é uma linha direita, tem pontos altos e pontos baixos. Na rua, pela forma como o abordam, acaba por ter essa pulsação?

Na rua as pessoas são sempre generosas. Pelo público ou pelo povo nunca chegamos lá. Se vou com uma velha glória do teatro a um centro comercial, dizem sempre ‘Que saudades! Vi todas as suas peças’ – mentira, não viram nada. Onde se sente esses altos e baixos é nas solicitações profissionais. Deixa de se ser um produto solicitado. Nesta fase já sei que as coisas são assim e portanto há que ter serenidade. E lá está: só voltei a tomar conta do meu destino há pouco tempo. Na fase do Herman SIC, a máquina que nós tínhamos, de ordenados e de produtora, era tão grande que acabava por estar a fazer coisas para ter audiências a todo o custo. Se calhar não apetecia ter a Linda Reis a mostrar a celulite e a dançar o kuduro, nem ter uma última parte do programa hardcore para conseguir ganhar audiências. Agora na RTP não preciso de fazer nada que vá contra aquilo que sinto. Por isso também recuperei uma certa serenidade e um certo prestígio que a fase da SIC me destruiu. Porque já não era a coisa artística que me preocupava mas sim como é que a gente arranja maneira disto se manter na crista da onda porque temos 70 ordenados para pagar.

Isso é uma fase que, se pudesse, apagava da sua carreira?

[muito baixinho] Sim. A saída da RTP para a SIC foi também motivada pela paixão do Rangel. Eu estava a fazer muito bem uma coisa que era o Herman 99 e antes o Herman 98, tinha convidados ótimos. Toda a gente lá ia. Depois de receber o prémio Nobel o primeiro programa a que o Ramos Horta foi foi o meu. Tínhamos ali um prestígio, uma alma, que o Rangel quis trazer para a SIC. E eu fui atrás do entusiasmo, não fui ganhar mais – fui ganhar precisamente o que estava a ganhar na RTP. Um ano depois começa uma virose chamada Big Brother e dá cabo dos planos do Rangel. E ele próprio que tinha sonhado fazer uma televisão mais elevada, mais culta e menos feirante, começa a fazer erros atrás de erros e a baixar o nível para combater o Big Brother. Se eu pudesse prescindir dessa fase da minha vida tinha sido interessante. Mas será que, se não tivesse sido essa inquietação da travessia do deserto do final da SIC, eu hoje em dia estava tão apto? Estava em condições de pegar em qualquer plateia – seja de aldeia, seja de intelectuais, seja de médicos, seja do que for – e fazer duas horas de extraordinário entretenimento? Ou será que essa minha grande forma hoje em dia não é reação a um buraco donde tive de sair muito lentamente, esgravatando, esgravatando…

Tendo sido sempre uma estrela nunca viu como uma despromoção ter de atuar para uma plateia no Portugal rural?

Aí faço minha a palavra do Pedro Homem de Mello, que quando a Amália cantou o ‘povo que lavas no rio’ ele ficou encantado porque pôde finalmente ‘subir ao povo’. É muito difícil cativar uma população numa festa de aldeia durante duas horas, que teve na véspera o Quim Barreiros e foi bestial.

Acha que essa fase mais “negra” se deveu à sua mudança para a SIC?

Parece que a culpa é só da SIC, mas a culpa é de muitas coisas ao mesmo tempo, foi a fase em que achei que me devia meter em negócios, foi tudo péssimo, os restaurantes, correu tudo mal… E é engraçado, nunca contei isso por esta perspetiva: a busca de audiências fez-me polemizar o processo Casa Pia de tal maneira que acabou por me arrastar para o próprio processo. Falava tanto, dizia tanto e defendia tanto, porque sempre que falava naquilo o share subia para os 70%.

E fazia isso intencionalmente?

Acho que sim. Acreditava naquilo que dizia. Mas que estupidez, num programa de entretenimento, estar constantemente a confrontar uma coisa do foro judicial. Jamais faria isso hoje em dia.

Nunca teve alguém que lhe apontasse os erros ou o aconselhasse?

Só nós é que sabemos o que fazemos e porque o fazemos. Havia uma quantidade de pessoas que me diziam: ‘Eram tão giros os programas da RTP, porque é que agora estás a fazer esta feira estranhíssima?’. Não dava para dizer a verdade: porque se não sucumbimos, não nos renovam o contrato e a gente desaparece. O critério era só o do share, é muito difícil vender a coisa artística. Mas se em 1999 tivesse aceitado a proposta do administrador Brandão de Brito de não me ir embora e ficar na RTP, se calhar hoje era um senhor enfadado, algures a fumar charutos e a dar cabo das coronárias numa marina do Sul de França.

Nunca lhe passou pela cabeça deixar de trabalhar e ir gozar a vida?

Não, não, não. Antes pelo contrário. Há alturas em que se percebe perfeitamente em que sou a vaca que encheu as vasilhas de leite e dá um pontapé para ter o prazer de voltar a encher. Para mim, a verdadeira riqueza é fazer, ganhar dinheiro por isso, ter perspetiva de futuro profissional, saber que tenho o fim de ano marcado num sítio e em fevereiro já vou estar não sei aonde. Isso é que me dá verdadeiro prazer.

Gosta desse movimento?

Gosto, gosto imenso. É isso que me faz sentir vivo.

Acha que o humor em Portugal mudou muito desde o Tal Canal e o Hermanias?

Mudou muito. Hoje em dia temos um humor que vende muito que é aquele humor acéfalo dos youtubers.

Nem me fale nisso que os meus filhos adoram ver esses vídeos.

Agora vou pôr tinta em cima da minha namorada, agora vou partir isto…

Mas lembro-me que uma vez o Herman pegou numa caçadeira e começou a disparar contra os eletrodomésticos!

Sim, sim, mas como complemento de outras coisas, não como fim em si mesmo. Tivemos para mim uma fase muito gira, gloriosa, que foi os Gato Fedorento, a cultura e a inteligência ligadas ao humor. Foi uma fase muito gira, que não tem seguidores hoje em dia. O humor que se faz hoje é muito simplório, há muitos jovens humoristas que fazem o dito stand up que mais não é que um desfiar de banalidades: ‘Hoje acordei e a minha mãe não sei o quê, depois fui almoçar e o autoclismo estragou-se’. Também são baseados em alguns modelos internacionais considerados geniais que a mim não me movem nada. O humor construído, elaborado, aquele que faz cócegas na inteligência, há muito pouco.

Parece que fala do humor atual de uma forma um pouco desgostosa…

Não é desgostosa. Uma pessoa que tem 63 anos de vida e tem o cérebro cheio de informação, ri-se de duas maneiras: ou com uma coisa completamente infantil como a mulher que tropeçou e ficou a ver-se o rabo; ou então alguma coisa que estimule a carga informativa que temos na cabeça. Uma coisa gira do Woody Allen, um Ricky Gervais nos Extras. Um humor que tem como ponto de partida uma microcultura de pessoas que sabem 50 coisas e têm um vocabulário de 80 palavras não consegue fazer cócegas. Já tentei ver algumas coisas de alguns colegas e nalguns casos é aquele enfado do ‘Been there, done that’, já sei como é que acaba. Se tivesse menos 40 anos se calhar estava-me a rir desalmadamente.

Para fazer humor é bom a pessoa estar bem disposta e bem com a vida?

Não. Pode ser uma reação a uma desgraça profunda. Havia grupos de teatro de judeus refugiados que faziam coisas maravilhosas de comédia a gozarem com o seu próprio extermínio, se fosse preciso. O humor pode ser usado como objeto de catarse. Claro que se for fazer umas festas de uma empresa em que sei que a administração é da Opus Dei e está um bispo presente ou um cardeal não me vou meter com a Igreja nem fazer picardias. Para quê, para criar mal-estar? Vou tentar fazer uma coisa elegante, gira, para toda a gente ficar bem disposta.

E não tem um lado mais provocador?

Às vezes. Mas hoje em dia estou muito mais moderado. Estou viciado numa coisa chamada feel good. Saí e deixei um rasto de felicidade.

O que o faz rir?

Havia um homem que me fazia chorar a rir, que morreu há pouco tempo, chamado Don Rickles. A Joan Rivers. Adoro o humor do Woody Allen nalguns filmes. E eu próprio digo disparates que me divertem imenso.

Entrevista de José Cabrita Saraiva / Parceria jornal i
Fotografia de João Girão

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