Herman Enciclopédia e o Portugal dos três L’s: lascivo, livre e louco

28 ABRIL, 2017 -

Ouse-se na metáfora: se o Portugal dos três F’s se vitrificasse, Herman Enciclopédia seria a marreta impiedosa, mais amiga do caos dos cacos do que da ordem falsamente imperturbável. Não houve, na história da televisão portuguesa, um exercício tão iconoclasta como a afamada série cómica por fascículos.

A cultura popular tende, como consequência da sua larga adesão, a ser desconsiderada no plano estético. Paira, nos circuitos intelectuais, a ideia de contaminação da significação e consequente perda de validade existencial de um objeto artístico quando este é acedido por uma vasta massa de pessoas. A título de exemplo, veja-se a desconsideração intelectual da obra de Bob Dylan aquando da sua escolha para Nobel da Literatura. Ou como um argumentista dificilmente se torna elegível para estes tipos de premiações.

A comédia goza de um semelhante desprezo. Raras vezes um comediante é tido como um artista maior. É-lhe cobrada a imediatez do riso e a apreciação global. Um comediante vive da resposta imediata, logo brevemente finita, e da apreciação de uma sólida plateia. Há um implícito jogo social no cómico. O cómico é sempre um reflexo de uma relação com símbolos sociais. Ou seja, há um diálogo social no ato cómico que permite distinguir, à partida, dois tipos de riso: o riso normal, causa natural do quotidiano, e o riso despoletado pelo comediante. Este último constitui-se como uma construção artística, de implicitude social, cujo derradeiro objetivo é provocar o riso.

Mas, talvez por ser tão descarado na sua intenção, coloca-se uma aura de leviandade no ato cómico. O ato cómico, por si, é tão sério como qualquer outro ato artístico. Aliás, é, em si, um ato artístico.

Este parêntesis ontológico serve, na verdade, como argumentação para um elogio. Herman Enciclopédia é um objeto cómico de grande relevância estética, por ser uma irrepreensível sátira de costumes, mas também um formato com um grande impacto cultural. Os bordões inundaram o vocabulário dos portugueses. E nada relevará tanto o impacto no pensamento de então como a completa penetração na linguagem.

Acima de tudo, Herman Enciclopédia deve ser entendido à luz da sua época. Havia contas para a ajustar ali, a meio caminho entre os resquícios conservadores do cavaquismo e coletiva euforia pela integração europeia. Portugal vivia um extasiante período de crescimento. Havia dinheiro, tempo e, acima de tudo, desejo de modernidade.

O alargamento do espectro audiovisual português às estações privadas respondia a esse anseio social. Portugal era ele mesmo um episódio do Big Show SIC: alucinante, impensado e inconsequente. Havia vontade de movimento, sem destino previsto. A dourada época da publicidade. O consumismo hiper incentivado e a coletiva vontade de fazer algo, sem se saber bem o quê.

Portugal iludia-se num crescimento proto-ruinoso. Era a despesa infundada cuja fatura viria depois. O ruralismo conservador tipicamente português desaguava numa histeria kistch de modernidade. Vivia-se numa hipérbole de país.

Pense-se no retrato social da época e atente-se no escalonamento das rábulas. Herman Enciclopédia era uma sátira em tempo real de um país em coletivo estado de alucinação. Nunca a televisão se terá rido tanto dela própria. Múltiplos programas e figuras da televisão foram alvo de atenção.

Desde a Melgashop, uma paródia aos mirabolantes produtos das Televendas, conduzida por dois excitados personagens, Melga e Mike, que frequentemente quebravam a encenação, passando pela mescla entre a sobreintelectualização e frontalidade de Baptista Bastos e a sua imensa curiosidade com o 25 de abril de 1974.

A liberdade era tal que uma das mais emblemáticas lembranças da série é a incapacidade de Herman José em proferir, como Lauro Dérmio, a expressão “Não prilamparás a mulher do próximo”.

O programa desafiava, até pelo seu formato, as normas convencionais e formais de fazer televisão. Era moderno no ritmo mas, sobretudo, na linguagem. Era sátira explícita com laivos de non sense extasiantes. Erguia, de forma muito arrojada, um espelho para o país. Herman Enciclopédia era Portugal sem todos os Diácono Remédios. Não era o Portugal reprimido, pese embora o pensamento excitado, mas o país livre e louco que queria partir para uma nova era.

Pede a efeméride que se finte a História: afinal, havia necessidade. Na verdade, a necessidade impôs-se inevitável. Herman Enciclopédia não foi a mais desejada das séries, verdade seja dita. Primeiro, Herman José, no alto único do seu (super) estrelato, caminhava feliz no show de variedades ambulante Parabéns, feito à sua medida, e hesitava em voltar à sketch comedy. Depois, as audiências matemáticas nem sempre foram as melhores.

Mesmo com um humor refinado, muito bem escrito e interpretado, conseguiu-se uma popularidade tremenda com bordões de diferentes personagens. O elenco de atores revelaria algumas das mais importantes caras do teatro e cinema português das décadas seguintes. O jovem grupo de escritores, sedento pela exploração de diferentes caminhos e fascinado pela possibilidade de escrever para a maior estrela portuguesa, ensaiava textos de uma grande ousadia e crítica.

E, claro, Herman, a brilhar intensamente no ponto alto da sua criação e interpretação cómica. Ninguém terá contribuído tanto para a cultura popular das décadas anteriores como o comediante luso-alemão. Nem sempre a História pertence aos justos. Mas não nos enganemos: devemos um universo a Herman José.

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