Herberto Helder. Quando se apagam as velas fica o negro

23 NOVEMBRO, 2016 -

Já sou crescido o suficiente para ter perdido algumas pessoas que não imaginava perder. Os meus avós. Um amigo de infância que escolheu o suicídio. E, claro, o Herberto Helder. Como parece óbvio, nenhum deles está cá agora. Mas lembro-me deles com regularidade. Lembro-me também que há qualquer coisa de muito humano nesta sensação de permanência.

De todos eles, Herberto Helder é o mais fácil de matar saudades. Desde que li Os Passos Em Volta, ainda não houve ano em que não o voltasse a ler. É uma das minhas obras favoritas em Português e continuo à espera de perceber qual é o truque, qual é a fórmula matemática para a literatura. Acredito que nunca vá descobrir, sempre dá para matar saudades.

É que há uma beleza que nos tira o fôlego na forma como escreve.

O seu tom é único, é surreal (literalmente) e Herberto é um caso raro no panorama da literatura portuguesa. Um poeta famoso em vida, embalado por um hype extraordinário na fase final da sua carreira. Um membro do grupo do Café Gelo (sempre digno de referir), editado pelo Luiz Pacheco, contemporâneo do Cesariny – um dos poucos poetas recentes com um impacto comparável ao dele. A obra de Herberto é um verdadeiro depoimento, extensa e complexa. Ainda é difícil encontrar uma série de títulos de Herberto Helder sem pagar uma autêntica fortuna por eles.

Mas Portugal tem um universo literário muito peculiar. Não é raro um escritor aclamado cair no esquecimento a grande velocidade. É por isso que a escrita de Herberto Helder importa tanto. Porque até quando se apagaram as velas e entramos no obscuro que tanto profetizava, sabemos que há uma luz única no seu trabalho. Mesmo quando é negro. Talvez fosse por isso que actualizava os seus trabalhos a cada edição que fazia. É perfeitamente possível encontrar títulos do autor com alterações feitas à mão antes de os oferecer a alguém.

Agora somos nós que temos de deixar a luz acesa. É que esta figura deve ser uma inspiração para esta geração. E a forma como levou a sua vida pode não falar tão alto como a sua obra, mas é definitivamente relevante para quem é deste tempo. Um viajante em permanente descoberta, um homem com daddy issues, um college-dropout. A sua produção é extensiva e percorre uma série de temáticas fortes, sempre com um ponto de vista único, com um tom incomparável.

Agora somos nós a acender a luz, sempre que abrimos um livro dele, sempre que o citamos, sempre que contamos aquele episódio de pancada com o Pacheco. Agora somos nós a fazer justiça à sua obra.

“Como se poderia desfazer em mim tua nobre cabeça, essa torre deslumbrada pelo mudo calor dos dias, pelo brilhante gelo nocturno? É pela cabeça que os mortos maravilhosamente pesam no nosso coração. Essas flores intangíveis para as quais temos medo de sorrir, as armas lavradas, as liras que estremecem e pendem sobre os rios agitados das coisas. Só o amor as abre e vê sua confusa e grave geografia, as fontes livres de onde os pensamentos crescem como a folhagem iluminada das antigas idades do ouro.”

Herberto Helder, Elegia Múltipla.

Fotografia de Rui Soares / CCA

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