Herberto Helder, o poeta e a sua imortalidade

23 NOVEMBRO, 2016 -

No pós-25 de abril, novas prerrogativas surgiram para um povo que vinha sendo oprimido. Novos horizontes foram traçados, novas perspetivas acendidas. Pelo meio, e dando às asas da ilha da Madeira até ao continente, chegou Herberto Helder. Poeta que negou amiúde a fama que apontavam ao seu talento e à sua obra, agarrou-se à literatura como a humanidade ao oxigénio. Consumiu-a, absorveu-a e fez dela parte de si. O resultado foi uma união que confunde a identidade de cada um, sendo Herberto alguém que permanece uma das figuras mais emblemáticas de um mistério sempre ávido de alguém que o desvende.

Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira nasceu em Funchal no dia 23 de novembro de 1930. Filho de um casal puramente madeirense, contou também com duas irmãs, de nome Maria Regina e Maria Elora. Ainda no plano familiar, viria a casar-se por duas ocasiões, primeiro com Maria Ludovina Dourado Pimentel e depois com Olga da Conceição Ferreira Lima. Ainda fruto de outra relação com Isabel Figueiredo, nasceu o jornalista Daniel Oliveira e Gisela Oliveira.

Migrado para Lisboa com somente 16 anos, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra dois anos depois, obtendo experiência em Filologia Românica que lhe permitiu exercer jornalismo, tradução e ser bibliotecário itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian (levou-o a conhecer toda a extensão do país) e apresentador de programas radiofónicos (inclusive da RTP). Isto após desistir de Direito também em Coimbra, no rescaldo de um ano letivo pouco proveitoso. Em 1954, retorna à sua ilha natal para desempenhar as funções de meteorologista e, em 1958, após trabalhar no ramo da publicidade, publica o seu primeiro livro de título “O Amor em Visita”. A partir destas experiências como escritor, persistiu em funções de literato, se bem que canalizadas para fins mais práticos e aplicados.  Por exemplo, em 1963, torna-se redator de noticiário internacional para a Emissora Nacional. Um dos casos caricatos da sua vida profissional tratou-se de um envolvimento num processo relativo à publicação de um livro do extravagente autor francês Marquês de Sade, do qual saiu condenado.

Para além desta experiência profissional,  viajou pela Europa nos anos 50, 60 e 70, visitando França, Espanha, Bélgica, Dinamarca e Holanda, sustentando-se com trabalhos bastante simples e instrumentais, conhecendo os recantos mais recônditos da sociedade destes países. O seu périplo não terminou, tendo também conhecido o continente africano e lá colaborado na revista angolana “Notícia” (1971), aproveitando a curta experiência que obteve na revista Pirâmide (1959-60), esta de cariz surrealista. Esta participação era a consequência natural das tertúlias que tinha no Café Gelo, em plena baixa lisboeta. Ainda em Angola, foi vítima de um desastre por via do qual esteve hospitalizado durante três meses. Sem nunca descartar a imensa produção lírica, partiu para os Estados Unidos da América, tentando angariar um novo público no lançamento das coletâneas “Poesia Toda”e “Prosa Toda” (1973). Após continuar a deambular por países mais ocidentais, tais como Inglaterra, retorna a Portugal num período delicado e marcado pelas convulsões sociais de cariz revolucionário. No pós-25 de abril, foi um dos principais organizadores da revista “Nova”, que procurava reconhecer uma empatia maior da literatura portuguesa às demais internacionais, tais como as outras latinas, a africana e a americana. A instabilidade vivida não permitia um pendor mais revolucionário aos escritos de Herberto, trazendo a frieza envolvida num surrealismo que se tornara adaptado à realidade que visava veicular.

“Tudo assalta tudo,e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora
– não posso escrever mais alto
transmitem-se, interiores, as formas.”

Herberto Helder in “Poesia Toda” (1990)

Todo este corpo distinto e variado permitiu a Helder desenvolver um “eu” poético muito particular, estruturando uma originalidade que proveio das vastas vivências. Conforme se foi entregando à expressão lírica, foi-se tornando cada vez mais isolado e desligado dos meios de comunicação e de mediatismo. Tendo recusado quaisquer galardões e homenagens (tal como o Prémio Pessoa de 1994), criou à volta de si uma aura de mistério e de dúvida perante a identidade ciente e concludente deste vivido madeirense. Por sua vez, e na intimidade dos seus contactos, a passagem pela “Pirâmide” fê-lo contactar com diversos autores experimentalistas e surrealistas, tais como Mário Cesariny, Pedro Oom ou António Maria Lisboa. Esse grupo acabou por influenciar de forma inevitável a construção e consolidação do “eu” artístico de Helder.

Mais na vertente do experimentalismo, uniu engenhos com o também madeirense António Aragão e organizou o primeiro caderno antológico de poesia experimental (1964), um marco na viragem de metade do século e que seria determinante para marcar o rumo do que se iria fazer no resto deste período. Antes, e de forma singular e independente, havia redigido “Os Passos em Volta” (1963), uma das poucas obras de ficção que lançou e que deambula em diversos contos. Estes unem-se através da protagonista, que cruza cidades e quotidianos, questionando a identidade individual e coletivo do ser humano. Assim, a sua obra não se prendia a eventuais representações ou metáforas para expor o caráter da poesia. A poesia era a poesia e assim tinha de ser descrita e escrutinada, conforme a sua identidade. Uma incrível e única miscelânea coerente de sentidos, intenções e sensações era dada à luz pelo homem que, num misto de fumo e de arte, declarava a revolução silenciosa da poesia. O acréscimo de idade e sucessiva maturidade veio-lhe trazer olhos para dentro de si, isto é, para as suas necessidades e vicissitudes, embarcando em águas mais autobiográficas de um mar de extensa virtude.

Para além destes marcos, lançou duas coletâneas de obras da sua autoria e que consagram em si vários e determinantes avulsos. Uma delas foi “Photomaton e Vox” (1979), que reúne, para além de poesia, ensaios e textos diversos. Já “Poesia Toda” (1973), que conheceu uma atualização em 2004, colige diferentes livros de poesia pessoal após uma meticulosa e depurada análise de um extenso repertório literário. Toda a sua obra foi extensamente estudada, sendo remodelada em outras antologias de críticos e de investigadores da literatura e da poesia portuguesas. O registo lírico analisado era, assim, profundamente influenciado e tematizado por ideais místicos e até alquímicos, cruzando também a mitologia greco-clássica com referências a Édipo e com o papel desempenhado pela figura maternal. Entretanto, surgiria um hiato relativo à vida e obra de Herberto Helder, beneficiando este da serenidade que a ausência dos holofotes lhe proporcionava, retornando com a louvada obra “A Faca Não Corta o Fogo” (2008). Assim, o último grande fôlego lírico do poeta foi publicado de forma póstuma na forma de “Poemas Canhotos” (2015), tratando-se do último fascículo de originais do luso.

“O ofuscante poder da escrita é que ela possui uma capacidade de persuasão e violentação de que a coisa real se encontra subtraída. O talento de saber tornar verdadeira a verdade.”

Herberto Helder in “Photomaton & Vox” (1979)

Entre outras, destacam-se as presentes obras do seu pecúlio literário:

  • “Poemacto” (1961)
  • “Húmus: poema-montagem” (1967)
  • “Ofício Cantante: 1953-1963 “(1967)
  • “Retrato em Movimento” (1967)
  • “O Bebedor Nocturno” (1968)
  • “Vocação Animal” (1971)
  • “A Faca Não Corta o Fogo” (2008)

Herberto Helder partiu a 23 de março de 2015 com o mesmo secretismo de sempre, sem que as causas da sua morte fossem clarificadas. Todo o mistério que circundou a sua vida conhecia, não um fumo branco, mas sim um fumo cinzento, caraterístico dos cigarros que recorrentemente fumava. Era um elo de ligação entre si e o mundo palpável, tratando a vida com pingos de realismo numa abordagem para além da surreal poesia. Herberto entregou-se a este mito para se camuflar de toda a potencial atenção que pudesse suscitar. Privilegiou o recato do seu mundo para melhor o compreender, sem filtros externos ou subterfúgios fraternos. Foi numa caminhada singular e quase inóspita que Helder decidiu percorrer. Foi assim que nunca se deixou esmorecer, numa realidade que a muitos deixa passar sem reconhecer. Na diferença ditou-se a sentença de que Herberto abriria portas para uma abordagem singular, na qual muitos se refugiaram como um tão necessitado lugar. A necessidade do diferente no imanente que é o mundo, a ansiedade do reverente perante o irreverente que é o instinto.

“O poema é um objecto carregado de poderes magníficos, terríficos: posto no sítio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e começa.”

Herberto Helder, numa entrevista ao Jornal Público (4/dez/1990)

 

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