Henry Miller, o escritor da libertação

12 FEVEREIRO, 2017 -

Impetuosidade, fulgurância e um constante deslumbramento são conceitos que marcam a obra de Henry Miller (1891-1980). O autor norte-americano apelou à autenticidade e à genuinidade da produção literária e criticou quem falhou a estes princípios, atribuindo-lhes um outro estatuto na estirpe dos escritores.

Miller, que tentou apoderar-se do encanto do mundo – um espaço que, na sua perspetiva, alberga as energias e se apresenta como a fonte da criação – desejou libertar-se e libertar o leitor, criando um vínculo com este. Contudo, tal não se afigurou uma tarefa simples. Consideramos, na verdade, que o público temeu este escritor subversivo, não por evidenciar um viés erótico na sua obra literária, mas por constatar que os tabus podem morrer, que os medos podem findar e que nos podemos abraçar de forma autêntica. Apesar da crítica julgadora – que Miller reduziu a zero – a sua voz impôs-se, alterando a mundividência de muitos leitores.

Através da produção literária, que Miller considerava o único domínio merecedor do seu poder, o autor estabeleceu uma luta contra a estagnação, favorecendo o império da liberdade de expressão. Não obstante, no texto A turning point in my life, Miller lamentou a dificuldade em estabelecer comunicação com o mundo, pois as suas obras estavam banidas nos países de língua inglesa. Apesar da perturbação, o autor norte-americano acreditava no desaparecimento da censura literária através da força de palavras explosivas: Everything I write is loaded with dynamite which will one day destroy the barriers erected about me. If I fail it will be because I did not put enough dynamite into my words [1]. Com este confronto, compreendeu que um escritor tem de comunicar, mas deve abolir a ilusão de que o público aceitará a linguagem subversiva sem tentar combatê-la.

Perante a obra literária de Henry Miller, destacam-se os leitores que se comprazem com a linguagem arrojada e os nauseados com a abundante presença de teor erótico. Os últimos, que o tentaram criminalizar, falharam na tentativa de expatriar as obras do escritor das prateleiras do mundo. Segundo o autor norte-americano, na correspondência com o norueguês Trygve Hirsch, a censura logra geralmente um efeito reverso, pois, ao invés de afastar as obras do público, torna-as mais cobiçadas. Ademais, o autor lamenta tamanha tacanhez, visto que a sua criação literária deixaria de ser considerada obscena se o público abraçasse os desejos de forma autêntica. A repressão impede que o ser humano absorva a vida na sua plenitude. Portanto, na sua carta ao admirador norueguês, Miller realça a importância da liberdade de educação, que deve ser perspetivada como liberdade política ou económica: de modo crucial.

Henry Miller – que abordou constantemente a sua bagagem literária -, no fragmento The supreme subject, apresentou os temas literários que sempre o fascinaram: a emancipação do ser humano e a aceitação duma liberdade soberana. Por conseguinte, Miller, na entrevista concedida à Paris Review, em 1962, discute a premissa surrealista da sua obra. Contudo, o autor norte-americano não se referia à corrente surrealista, mas a uma conceção pessoal que defendia o inconsciente, a ausência de limites, a liberdade ao expoente e a supremacia do instinto.

Acima de todos os valores, no acervo milleriano encontra-se o ideal de auto-libertação. O autor norte-americano buscava um mundo sem limites e palavras sem freios e, indubitavelmente, o sexo afigurava-se como um dos meios para esta libertação.  Devemos atentar, contudo, no livro mais catártico da obra milleriana, The Colossus of Maroussi, no qual escasseiam os vestígios eróticos. Assim, o erotismo não é o traço fulcral de Miller, mas sim uma das suas peculiaridades.

Para Miller, a presença do mundo do sexo na sua arte apresentava-se como uma necessidade. Como referimos anteriormente, o autor era um amante do mundo, da simplicidade, da beleza e de todos os elementos que fluíam. A sua natureza compelia-o a redigir sobre todas as dimensões da vida sem qualquer restrição. Portanto, se a dimensão sexual apresentava um papel fulcral na vida do autor, seria impossível renegá-la na sua escrita. Sendo Miller um escritor que valorizava o conceito de verdade na produção, a Paris libidinosa e sexual também se tornou tema das obras do autor norte-americano: Este insidioso encanto de Montmartre é devido, em larga parte, suspeito eu, ao tráfico descarado do sexo. O sexo (…) cria um aroma, pungente e nostálgico, que é muitíssimo mais fascinante e sedutor do que o mais brilhantemente iluminado Gay White Way [2].

Ademais, no ensaio Obscenity and the Law of Reflection, Miller criticou a bifurcação entre a moralidade e a imoralidade, isto no que concerne à esfera literária. Segundo o escritor, não haverá uma entidade digna que possa perfazer este julgamento, porque I know only too well that the appanage of a priest’s frock, a judicial robe, a teacher’s uniform provides no guarantee of immunity to the temptations of the flesh [3].

Na correspondência entre Henry Miller e Anaïs Nin, a escritora relaciona a componente sexual da obra de Miller com a sua mundividência e com o amor, rejeitando a conotação devassa. A obscenidade surgiu, portanto, como uma ferramenta literária que não está associada à libido, opondo-se à pornografia. Henry Miller lamentou que o público pudico se concentrasse nesta questão: It is my belief that we are now passing through (…) a period when God seems more than ever absent from the world and man doomed to come face to face with the fate which he has created for himself. At such a moment (…) whether a man be guilty of using obscene language in printed books seems to me thoroughly inconsequential [4].

Os artistas e, de modo mais restrito, os escritores não podem interpretar o seu poder de expressão como condicional. Estes não devem ajustar-se à corrente e criar sem causar distúrbios. O objetivo da arte, como defendeu Henry Miller, é fazer explodir a vida nas entranhas. Sem qualquer prudência.

Notas de referência:

[1] Miller, Henry (1964) Henry Miller on Writing, New York, New Directions Books: 100
[2] Miller, Henry (1992) Dias Tranquilos em Clichy, Edição Livros do Brasil, Lisboa: 9
[3] Miller, Henry (1964) Henry Miller on Writing, New York, New Directions Books: 214
[4] Idem: 203

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