Henry Marsh: ‘Um cérebro vivo é bastante bonito. Tem brilho e vasos sanguíneos que parecem rios’

5 OUTUBRO, 2017 -

No início da carreira, chegou a trabalhar 120 horas por semana, o que lhe arruinou o primeiro casamento. Mas não se arrepende. Aos 67 anos, reformado, Henry Marsh viaja muito, continua a operar, faz carpintaria e escreve livros, como Hoje Deu Entrada no Hospital (ed.Pergaminho), que apresentou, recentemente no Festival Internacional de Cultura de Cascais 

Henry Marsh já salvou um sem-número de vidas. Foi, por exemplo, um dos primeiros médicos a fazer craniotomias (procedimento em que se serra o crânio, como uma tampa, e se deixa o interior à vista) e a operar o cérebro com o paciente acordado. Mas prefere sempre falar dos seus defeitos, fraquezas e falhanços. O seu último livro, Hoje Deu Entrada No Hospital (ed. Pergaminho) e conta episódios arrepiantes passados no hospital e na sala de operações. Aos 67 anos, o neurocirurgião faz exercício todas as manhãs, trabalha em part time, dá palestras em todo o mundo, escreve artigos para a imprensa, pratica carpintaria e cuida das suas abelhas em Londres. Continua a operar em regime de pro bono em países como o Nepal, a Ucrânia e a Albânia, onde se desloca com frequência. Mas diz que sente falta de ir todos os dias de bicicleta para o emprego em Londres, do qual se reformou por causa de um conflito administrativo. O SOL conversou com Marsh na sua vinda recente a Portugal, onde participou no FIC – Festival Internacional de Cultura de Cascais, que termina hoje.

Tem ideia de quantas operações já fez?

Há grandes e pequenas operações. Tive uma prática muito intensa em Londres ao longo de trinta anos. Provavelmente fiz uma média – com a minha equipa – de 500 operações por ano.

As suas mãos têm alguma coisa especial ou está tudo na cabeça?

Está tudo aqui em cima [aponta para a cabeça]. Como tento explicar nos meus livros, as dificuldades têm sempre que ver com a tomada de decisões. Há esse mito, fora do mundo médico, de que a cirurgia se resume a umas mãos fantásticas e firmes. Não é assim. Nas operações o que temos de fazer é relativamente fácil. Não é como o pianista profissional, que tem de treinar horas e horas por dia durante toda a vida.

Penso que entre os seus pares tem alguma fama de ter mau feitio…

Bom… Os meus livros podem dar essa ideia, mas é porque me parece que para o leitor é muito mais interessante eu falar dos meus defeitos, das minhas fraquezas, do que das virtudes – também faz parte da arte inglesa da falsa modéstia. [risos] Quando eu era mais novo, e mais ansioso, talvez perdesse a calma de vez em quando. Muitos cirurgiões tornam-se pessoas bastante difíceis por estarem ansiosos. Mas nos últimos dez anos isso só deve ter acontecido duas ou três vezes. E essa falta de controlo não é uma coisa de que me orgulhe.

Qual é o tipo de coisa que o faz perder a paciência.

Por exemplo quando estou já preparado para operar, com aquela tensão, e descubro que por alguma razão há atrasos. Ineficiências, burocracia… coisas desse género. E o Sistema Nacional de Saúde (SNS) na Grã-Bretanha está a tornar-se cada vez mais burocrático. O Governo introduz cada vez mais gestão e a via da gestão é cortar custos. Eles dizem que tem a ver com eficiência, mas na verdade é para poupar dinheiro, porque o SNS é financiado pelos impostos e os políticos não os querem aumentar para não perderem eleições. Tentam fazer a quadratura do círculo.

Embora esteja reformado, continua a fazer cirurgias pro bono, não é?

Há 25 anos que nas férias vou à Ucrânia. Na próxima semana vou para lá e depois vou estar no Nepal, nos Himalaias.

Nesses países não se confronta com o tipo de ineficiência que ainda há pouco me dizia que o irritava?

Menos. Em países como o Nepal e a Ucrânia os meus colegas têm, em certa medida, mais liberdade, embora também tenham menos dinheiro e menos instrumentos. Há muitos problemas de ordem prática.

Pode dar-me exemplos desses problemas?

A Ucrânia está envolvida numa guerra neste momento. No Nepal, em Katmandu, há cortes de eletricidade, o trânsito é caótico, a poluição é horrível, os pacientes são pessoas sem escolaridade, muito pobres, com muito pouca compreensão da medicina. No hospital em que trabalho, se as coisas correm mal, muitas vezes a família fica revoltada. A última vez que lá estive, um paciente morreu e a família dele partiu todos os vidros do hospital. Não há o hábito de pôr um processo ao médico. É uma cultura muito diferente. No Paquistão quando estive a dar palestras em Karachi, os meus colegas diziam às vezes que tinham de operar com a família do doente lá fora à espera com kalashnikovs, a dizer ‘Se acontece alguma coisa ao meu irmão, mato-te’ [risos]. São problemas diferentes.

Qual é para si a recompensa de trabalhar nesses sítios?

O ensino. Gosto de ensinar jovens médicos, gosto de tentar inspirá-los com uma abordagem moderna, crítica, científica à medicina. Em muitos destes países a medicina ainda é muito autoritária, a opinião do professor ou do médico é a lei, não há discussão ou crítica, e eu gosto de encorajar isso, mas pode tornar-se ligeiramente subversivo, pelo que nem sempre me torno popular entre os médicos mais experientes.

E vê os frutos desse trabalho?

Sim e não. Parte da ironia é que, no Nepal, os médicos bem-sucedidos vão trabalhar para os Estados Unidos ou para o Médio Oriente porque ganham lá muito mais dinheiro, enquanto no Nepal passam dificuldades. Por isso às vezes penso que não alcancei nada, tirando o facto de ter tido uma vida interessante. Mas se deixar alguma semente, se alguém achar útil aquilo que faço, já fico satisfeito. É tentar tornar o mundo melhor através de pequenos passos, mais do que através de revoluções dramáticas.

Nesses países as pessoas olham para si com reverência?

Na Ucrânia um pouco, porque sou bastante famoso por lá. Sou um bocado assediado pelos estudantes de medicina, mas tento evitar isso. Claro que é agradável, mas também é embaraçoso.

Em Portugal há a tradição de os pacientes oferecerem presentes ao médico. Isso também lhe acontece?

Sim. Mas já notei que em Inglaterra as ofertas vêm de pacientes não ingleses. Isso reflete o facto de, enquanto pacientes, termos medo dos médicos – como aos deuses, temos de lhes fazer ofertas e orações para os manter satisfeitos. Isto é mau para o ego dos médicos.

Já recebeu presentes estranhos?

Recebi muitos presentes ao longo dos anos. Na Ucrânia, de cada vez que opero, recebo garrafas de vodca, caixas de chocolates, coisas desse género.

E o contrário?

Ser criticado? É muito raro. Em Inglaterra detestamos a confrontação. A cultura inglesa evita a crítica aberta. Queixamo-nos a toda a hora, mas atrás das costas dos outros.

Parece-me que um médico não pode ser demasiado sensível – pois vai sofrer com os dramas dos pacientes – mas tem de saber lidar com as pessoas.

Esse é o grande desafio: encontrar o equilíbrio entre a compaixão e o distanciamento profissional. Se estivermos demasiado envolvidos emocionalmente com os pacientes vamos tomar más decisões e o trabalho vai tornar-se muito doloroso. Mas se nos tornarmos demasiado frios também vamos tomar más decisões. Há quem use a palavra ‘empatia’, mas em sentido estrito empatia é sentir o que o outro está a sentir – e isso é uma coisa que, como médicos, não podemos fazer. Temos de imaginar de forma desprendida o que os pacientes sentem, não sentirmos nós próprios. Na cirurgia cerebral muitas das decisões são sobre a qualidade de vida, não sobre a vida ou a morte. É muito importante ver as coisas da perspetiva do paciente, mas de uma forma racional.

Comunicar com o paciente também é uma parte importante do trabalho?

Muito importante. Só que quase não temos reações, o que torna muito difícil avaliar o que fizemos. Quando damos uma má notícia a um doente, ele não nos telefona no dia seguinte a dizer que falámos muito bem ou que falámos muito mal.

Tem rituais que cumpre antes de iniciar uma operação?

Não. Há cirurgiões muito rígidos, que querem tudo no sítio exato e se não está como querem ficam furiosos. Eu sou bastante mais relaxado. Claro que gosto que as coisas corram conforme o planeado, fico um bocadinho tenso se não correrem, mas como também trabalho em países onde é tudo mais duro e imperfeito, aprendi a ser mais flexível.

Não acha que os médicos são cada vez mais técnicos e tendem a achar que tudo se resolve com análises e operações?

É um risco. Como médicos, e em particular como cirurgiões, temos um grande poder sobre o paciente e é fácil ficar corrompido por isso, em particular na medicina privada. Cada vez que fazemos uma operação há uma certa probabilidade de fazer mais mal do que bem. Não existem operações 100% seguras. Ao mesmo tempo, há a possibilidade de o paciente ficar perfeitamente bem sem a operação. Muitos problemas resolvem-se sozinhos. Em países como a América, mas também na Alemanha, que tem um grande setor privado – os cirurgiões exageram os riscos de não operar. Temos alguns preconceitos que distorcem os nossos julgamentos e a que é impossível escapar. Por isso costumo dizer nas minhas palestras que ter bons colegas que me criticam – assim como eu os critico – é uma parte muito importante da boa medicina, fazer boa cirurgia não está só nas mãos do bom cirurgião. Essa é a minha mensagem para a medicina moderna: a era heróica dos dos ‘Miguel Ângelos’ e dos ‘Beethovens’ da cirurgia do cérebro acabou.

Em Inglaterra os médicos ainda fazem o juramento de Hipócrates?

Não! Se ler o Juramento de Hipócrates verá que é ridículo… Não tem nada a ver com medicina moderna.

No seu livro diz que em muitos casos é preferível deixar a pessoa morrer…

Mais cedo ou mais tarde todos temos de morrer. Em países como a América, onde acham muito difícil deixar de ter esperança, pode gastar-se rios de dinheiro e obter muito poucos resultados. É fácil desperdiçar dinheiro na medicina. E se gastarmos todo o dinheiro a tentar manter pessoas muito velhas com vida não teremos para coisas igualmente importantes, como educar as crianças.

Nunca testemunhou algum milagre?

Sou um cientista, não sou uma pessoa supersticiosa. Houve momentos em que tive muita sorte. Já me aconteceu cometer um erro que em circunstâncias normais teria consequências catastróficas e, por alguma razão, não houve qualquer problema. Mas a experiência diz-me que é mais frequente ter más surpresas do que boas surpresas. Não acredito em milagres, não acredito em nada sobrenatural. Mas acredito na sorte – boa ou má sorte.

Neste seu livro colocou em epígrafe uma frase de La Rochefoucauld: ‘Nem o sol nem a morte podem ser olhados fixamente’. Deve ter visto muitos pacientes condenados…

Como médico vejo a morte a toda a hora. Mas é algo que acontece aos pacientes, não a mim. À medida que envelheço e depois de me reformar, comecei a aperceber-me de que eu próprio um dia me tornarei um desses pacientes e vou morrer. E é muito difícil pensar na morte. A morte em si, para mim, não é nada. Mas a forma como morremos pode tornar-se um grande problema. O meu pai teve a doença de Alzheimer durante dez anos. Era um advogado ilustre, um dos fundadores da Amnistia Internacional. Quando morreu, aos 96 anos, era um corpo oco. Foi muito triste ver isso. Alguns têm sorte, são fulminados por um ataque cardíaco e caem mortos, outras pessoas morrem em circunstâncias horríveis. No final deste livro discuto a questão da morte assistida. Penso que em Inglaterra devíamos ter as mesmas leis que na Holanda, Bélgica, Suíça e alguns estados americanos. Não se trata de autorizar os médicos a matar pessoas – mas se os pacientes quiserem pôr um fim rápido à vida, os médicos devem poder administrar-lhes o comprimido necessário. Ao que parece funciona bem nesses países.

Acha que prolongamos a vida artificialmente demasiadas vezes?

Constantemente. Na América o excesso de tratamento é um grande problema. Há muitas razões para isso: uma delas é o paciente não ser realista, muitas vezes a família também não é realista, e frequentemente os médicos evitam conversas difíceis. Se uma pessoa está num lar, tem demência e apanha uma pneumonia, é mais fácil dar-lhe antibióticos do que chamar a família e dizer: ‘Talvez seja altura de deixar o seu pai, mãe ou avó morrer’.

O facto de as vidas dos seus pacientes dependerem de si é um fardo muito pesado?

Quando as coisas correm mal ou sentimos que cometemos um erro é muito, muito difícil. Vivo num estado de ansiedade permanente, ainda que moderada. Nunca consigo fugir completamente a isso. Mas quando as coisas correm bem é muito gratificante. Tem-se muito poder, muita autoridade – apesar dos crescentes conflitos com a administração e as frustrações de trabalhar em Inglaterra.

Nunca lhe apeteceu deitar toda essa responsabilidade para trás das costas?

Nunca.

No livro ‘Ser Mortal’ Atul Gawande conta que no início da carreira tinha pesadelos em que os pacientes que não tinha conseguido salvar estavam com ele na cama.

Eu nunca tive. Na formação tradicional passamos um ano na Escola de Medicina a dissecar cadáveres. Em teoria é para aprender anatomia – o que se poderia fazer através de um livro ou de imagens – na prática é mais um rito de iniciação.

É uma forma de destreinar a sensibilidade?

Precisamente. É assim que superamos a nossa repulsa pelos cadáveres. Eu continuo a detestar autópsias – não assisto a nenhuma há muitos anos! Sempre detestei, enquanto alguns colegas meus estão muito contentes a trabalhar como patologistas e fazem autópsias todos os dias.

Acha arrepiante?

Enjoa-me, não gosto.

Diz no seu livro que chegou a trabalhar 120 horas por semana!

No início da carreira sim. Naquela época em Inglaterra trabalhava-se estas horas loucas. Claro que parte desse tempo estava a dormir, mas podia ser chamado a qualquer momento. Isso mudou por causa da diretiva europeia dos horários de trabalho. Os meus médicos estagiários em Londres agora só trabalham 48-50 horas por semana. Dormem mais, mas têm menos experiência. A semana de trabalho curta tem muitos problemas, como aquilo a que chamamos a continuidade dos cuidados: um paciente agora é visto por três médicos em 24 horas, enquanto quando eu era novo era só eu e o médico sénior.

Nessa altura não tinha outros interesses pessoais?

O meu primeiro casamento acabou, em parte, porque eu passava mais tempo a trabalhar do que em casa. Os pacientes querem uma dedicação total do médico, e isso é mau para a vida familiar. Como encontrar um ponto de equilíbrio? Pode ser difícil.

Nunca se arrependeu de trabalhar tantas horas?

Nem por isso. [risos] Sinto-me com muita sorte por ter um trabalho que adoro. Nem parece trabalho. Quando vou ao centro de Londres e vejo todas aquelas pessoas nos autocarros e no comboio que passam o dia inteiro à frente de um ecrã de computador num escritório, penso que não conseguia fazer isso. É tão chato! A medicina, e a cirurgia em particular, é emocionante. Não consigo imaginar nada mais interessante do que trabalhar com o cérebro.

Conheço um médico que tem uma casa de férias maravilhosa perto de Lisboa mas nunca tem tempo…

Não tem tempo de a gozar?

Exato. E uma das poucas vezes que lá estava descansado foi chamado ao hospital. Acontece-lhe isso, ter coisas fantásticas de que não pode usufruir?

Sempre pus o trabalho à frente. Nunca alimentei grandes expectativas de ter uma vida fora do trabalho. O que significa que deixei de trabalhar a tempo inteiro para o Serviço Nacional de Saúde há dois anos – e estou a achar difícil. Reformei-me aos 65, porque fiquei furioso com a administração do hospital, que me tratou como um menino mal comportado, e reformei-me mais cedo do que tinha previsto. E embora tenha muitas coisas para fazer – escrevo críticas de livros, escrevi o meu segundo livro, faço mobiliário, trabalho no estrangeiro – mesmo assim acho psicologicamente muito difícil não ir para o emprego todos os dias como ia antigamente. O trabalho era a minha paixão.

Alguma vez notou, noutros cirurgiões, que perdiam qualidades à medida que iam envelhecendo?

[hesita]

… E que apesar disso não queriam reformar-se?

Não. Quer dizer… Penso que só houve uma pessoa a quem aconteceu isso. O problema surge se os cirurgiões trabalharem sozinhos. Em Inglaterra todos trabalhamos num grupo. Só me lembro de uma pessoa que começou a piorar, tornou-se rígida e antiquada. Isso é um risco numa prática solitária.

No seu caso alguma vez sentiu que estava a perder qualidades?

Espero que não! Acho que ainda sou bom a operar. Espero que as pessoas nunca digam ‘O Marsh está a perder a mão’. Seja num jantar, no emprego ou na própria vida é preferível sair cedo demais do que tarde demais.

Quando apareceu o seu primeiro livro não houve médicos que torceram o nariz?

Acho que os médicos gostaram e os estudantes de medicina também. Ouvir um médico, que parece sempre alguém muito calmo e tranquilo, a reconhecer que tem medo é muito reconfortante. Os meus colegas americanos – sou professor em Seattle e tenho muitas ligações com colegas americanos – acharam o livro horrível, mas adoraram. Não acho que tenha feito algum mal a esta profissão. Limito-me a fazer uma descrição realista do que sentimos.

Nunca lhe disseram qualquer coisa do género ‘o que acontece em Vegas fica em Vegas’?

Não. Também acho que o livro saiu na altura certa, o mundo já está preparado para este tipo de livro, mais aberto. Em Inglaterra há mais crítica aos médicos e quando cometemos erros os jornais fazem grandes parangonas. Se deixamos de tratar os médicos como deuses e começarmos a criticá-los pelos seus erros, também temos de os compreender enquanto seres humanos.

O cérebro humano pesa um pouco menos de 1,5 kg. Precisamos de cada grama, de cada bocadinho?

Penso que sim. Há aquela história de só usarmos uma pequena parcela do cérebro, mas não me parece que seja verdade. Há provas recentes de que o usamos o tempo todo. Foram feitos estudos em que se dizia às pessoas para relaxarem e não pensarem em nada. E o cérebro mantém-se igualmente ativo. Uma das teorias acerca dos sonhos é que sonhamos porque o cérebro nunca se desliga e tem de continuar a trabalhar. Segundo pesquisas recentes com ratos, dormir e sonhar é muito importante para a formação de memórias.

Diz no seu livro que costuma acordar antes do nascer do sol. Não dorme pouco?

Não, durmo sete horas e meia por noite, em média. Uma boa noite de sono é muito importante. As demências e a doença de Alzheimer estão muito associadas a um mau sono. Assim como a doença de Parkinson. Não compreendemos ainda bem porquê, mas o sono é muito importante. Todos os animais dormem.

Sabia que o Presidente português é conhecido por dormir muito pouco?

Isso não é nada saudável. A minha mulher também é um bocadinho assim e diziam o mesmo de Margaret Thatcher. Mas normalmente essas pessoas fazem pequenas sestas durante o dia.

Como é um cérebro saudável? Suponho que já tenha visto muitos.

Se for à internet, e pesquisar no Google, a maior parte das imagens que lhe aparecem é de cérebros mortos em frascos de formaldeído. São muito feios. Mas um cérebro vivo é bastante bonito. É brilhante, tem vasos sanguíneos. Se vir ao microscópio é parecido com a Terra vista de cima, com padrões de rios, porque os princípios são os mesmos: neste caso, distribuir sangue e oxigénio.

Qual é a cor?

É entre o castanho muito claro e o branco – brilhante porque tem fluido na superfície, com toda esta rede de vasos sanguíneos azuis e vermelhos. Um quarto do sangue do nosso corpo vai para o cérebro. Pensar é um processo que consome muita energia. Não sentimos, mas os nossos pensamentos são feitos – tudo o que estou a pensar e a sentir neste momento, tudo o que você está a pensar e a sentir – de impulsos eletroquímicos. É um pouco estranho, não é?

Acha mesmo que não há nada além desses processos?

Acho que não. É muito difícil não acreditar nisso quando vê pessoas cuja parte frontal do cérebro foi danificada. A personalidade da pessoa muda, quase sempre para pior. Se o comportamento social e moral é alterado pelos danos físicos ao cérebro é difícil pensar que quando morremos fica alguma coisa para trás. Há pessoas que acham que eu dizer que o pensamento resulta de matéria física de alguma forma diminui o pensamento. Não diminui. Na verdade eleva é a matéria. Ainda não percebemos como é que a matéria dá origem à experiência consciente. É um enorme mistério científico.

Os cérebros das pessoas são todos iguais?

A resposta é não. Nascemos com cérebros semelhantes, mas desenvolvem-se de formas diferentes consoante o ambiente em que crescemos. É uma relação complexa entre a nossa genética e o meio ambiente. Se tiver crescido num orfanato romeno, terá um cérebro mais pequeno e uma amígdala maior – a amígdala é uma parte do cérebro relacionada com o medo e as agressões. A forma como o cérebro se desenvolve é radicalmente influenciada – em particular no primeiro ano ou dois de vida – pelo ambiente.

Mas não é como um músculo, ou é? Por exemplo, se eu gostar muito de ler, vou desenvolver uma parte específica do cérebro?

Sim. Mesmo em adultos. Houve um teste em que as pessoas foram ensinadas a fazer malabarismos e depois fizeram scans cerebrais. Em seis semanas a matéria branca do cérebro era mais espessa. Nos pianistas profissionais, a área ligada às mãos é maior do que noutras pessoas. Usar o cérebro não diria que o torna maior, mas aumenta o número de ligações neuronais.

Acha que devo aprender a fazer malabarismos?

Tenho dúvidas de que aprender isso vai melhorar o desempenho geral do seu cérebro… O que sabemos é que 30% do risco de Alzheimer tem a ver com ambiente e 70% é genético e da idade. E que quanto mais tarde se deixa de estudar menor é o risco de Alzheimer. As pessoas que andaram na universidade têm um risco mais baixo do que as que não andaram. O mesmo em relação a hóbis, exercício físico e uma vida social preenchida. Como dizem os americanos, ‘Use it or lose it’.

Entrevista de José Cabrita Saraiva / Parceria jornal i

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