Henrique Neto: ‘Os partidos políticos em Portugal enfraqueceram o pensamento’

29 MAIO, 2017 -

Ex-deputado socialista defende que a classe política é “cada vez menos qualificada” e culpa os partidos

Henrique Neto, ex-deputado e dirigente do PS, foi um dos poucos socialistas que criticaram duramente os governos de José Sócrates e afirma não ter dúvidas de que o ex-líder socialista não está inocente. Confessa que já pensou muitas vezes em sair do PS, mas vai ficando na esperança de que as coisas mudem. Não participa, porém, nas iniciativas do partido, porque deixou de haver debate e só o convidam para “ir a festas”. Faz alguns elogios a António Costa, mas considera que a aliança com o Bloco de Esquerda e o PCP conduz a “alguma imobilização”.

Teve dúvidas de que este governo com o apoio dos partidos de esquerda pudesse durar muito tempo. Ficou surpreendido com os indicadores económicos conseguidos nos primeiros meses do ano?

Se me dissesse há um ano que os números seriam estes, provavelmente acharia que não, mas, nos últimos meses, era visível esta situação, principalmente por causa das exportações e por causa do crescimento do turismo. São fatores que mostram um dinamismo da economia superior àquilo que seria expetável. Isto revela que, apesar de tudo, algumas coisas melhoraram no país nos últimos cinco ou seis anos, depois do descalabro do governo de José Sócrates e dos erros que foram cometidos. Passou a haver alguma adesão à realidade. Era previsível que, mais tarde ou mais cedo, a economia crescesse.

O que aconteceu de diferente daquilo que imaginava para o país ter conseguido estes resultados?

Há vários fatores. As exportações, o turismo ou o dinamismo económico não têm nada a ver com os partidos nem com os governos. O país tinha caído no fundo e só poderia crescer. Mas há fatores que estão relacionados com a política deste governo. É evidente que o fim dos cortes aos funcionários públicos e aos reformados teve efeitos positivos. Teve efeitos na psicologia geral do país.

Concordou com a decisão do governo de acabar com esses cortes?

Claro que sim. Como concordei com o aumento do salário mínimo. Defendo que os 600 euros deviam ser aceites de imediato ou num futuro próximo.

Há condições para isso?

Há. Um dos fatores que levam a que o crescimento económico seja fraco é o facto de os rendimentos das pessoas serem muito baixos em relação aos outros países. Quanto mais baixos são os rendimentos do trabalho, mais deficiente é a economia. Claro que algumas pessoas dizem que as empresas não resistem a isso. Serão poucas as que não resistem. Não estamos a falar de um crescimento para mil euros. Estamos a falar para 600 euros. Acho que este governo, nesse domínio, até tem sido conservador, mas já não concordo com outros aspetos como a redução das horas de trabalho.

Das 40 para as 35 horas na função pública? 

Sim. Um país pobre não pode resolver os seus problemas de pobreza trabalhando menos. É uma coisa um bocado óbvia. Mas o ambiente, nomeadamente o ambiente social, é melhor, e isso é bom. Os sindicatos não têm feito muitas greves e isso são fatores positivos. A mim, o que me preocupa é que não há uma estratégia. Fala-se do crescimento económico…O Presidente da República tem dinamizado vários debates sobre o crescimento, e é um tema essencial, mas não se pode falar do crescimento sem sabermos qual é o modelo e a estratégia que vamos aplicar. O que vamos privilegiar? Como?

Isso não existe?

Não, e sem estratégia fazemos tudo ao mesmo tempo e atabalhoadamente. Eu considero que a grande oportunidade para o crescimento da economia portuguesa depende do crescimento do Porto de Sines. Nós precisamos de um grande argumento para atrair investimento estrangeiro, aquilo a que eu chamo empresas integradoras. Hoje, a Autoeuropa, por exemplo, faz um automóvel com componentes e sistemas do mundo inteiro. Uma empresa com estas características tem de estar num sítio favorável para receber componentes de todo o mundo. Sines é o melhor local para isso. Portugal está no centro do Ocidente e com comunicações marítimas para todo o mundo. Isto é uma vantagem que tem de ser aproveitada. E, portanto, estamos a crescer, mas não há um grande salto em frente.

Esse é o preço a pagar por esta solução política encontrada por António Costa? 

António Costa está a tentar gerir as condições da geringonça. Não fui favorável à geringonça, apesar de reconhecer que era um salto político importante porque metia dentro do sistema dois partidos que estavam fora dele. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que haveria alguma imobilização. Como é evidente, o Bloco de Esquerda e o PCP consideram que a União Europeia é o problema. Eu não concordo e o PS não pensa assim, mas a gestão destas diferenças para que o governo sobreviva só permite pequenos passos, e o país precisava de um grande salto.
Não concorda com aquela ideia de que António Costa conseguiu meter o PCP e o Bloco de Esquerda no bolso?
Não. Só quem não conhece o PCP é que pode pensar que alguém consegue metê-lo no bolso. É um partido com uma experiência muito longa. Tem uma estrutura muito disciplinada. Para o bem e para o mal, não é passível de ser domesticado.

Preferia que o próximo governo tivesse outro modelo?

É difícil responder a isso porque as relações entre o PS e o PSD são tão absurdas, para não dizer estúpidas, que inviabilizam qualquer solução. O que digo é que qualquer estratégia de futuro para o país passa pelas empresas. Quem faz o crescimento económico são as empresas, quem faz as exportações são as empresas, e sabemos qual é a posição do PCP e do Bloco de Esquerda em relação à generalidade das empresas e à atividade privada em geral. Temos uma parte do poder que mantém o governo a funcionar com uma filosofia que é impeditiva de grandes mudanças e de uma aposta muito forte no crescimento e nas exportações. O ideal era que o PCP e o Bloco tivessem uma atitude realista em relação à Europa. Eles podem falar num futuro risonho e no socialismo para conseguir votos, mas os exemplos que temos à nossa volta são exatamente o contrário. A questão da Venezuela…

O socialismo faliu?

O socialismo do século xix faliu. Eu acredito no socialismo do futuro, que é completamente diferente.

Esse socialismo de que fala não é muito parecido com a direita? 

Não. Não é a exploração que muita gente na direita continua a defender, mas também não é o Estado-patrão nem o Estado omnipotente. Já se viu que o Estado só faz asneiras quando tem excesso de poder.

O PS é hoje um partido mais à esquerda ou um partido de centro-esquerda?

Não há aqui uma questão ideológica. O primeiro-ministro tem a qualidade de saber gerir as expetativas e as condições políticas para governar e, portanto, vai-se adaptando. Tentou criar uma imagem de se preocupar com os mais pobres mas, de facto, aquilo que fez foi favorecer muito a sua base de apoio eleitoral, e uma parte muito substancial está nos funcionários públicos. O que já tinha sido feito pelo Sócrates. O Sócrates reconhecia que não podia tocar nos funcionários públicos porque isso seria fatal para o PS eleitoralmente. O que António Costa faz é gerir as circunstâncias para manter o poder.

Apesar de ser crítico de quase todos os governos do PS nos últimos anos, continua no partido. Porquê?

Continuo a ser militante na esperança de que um dia as coisas mudem.

Já pensou alguma vez que a melhor solução era sair do PS?

Penso quase todos os meses. Quando vejo decisões absurdas, penso em ir-me embora, mas depois penso também que o país não vai ganhar nada com isso e fico a aguardar.

Não participa em iniciativas do partido?

Não tenho participação nenhuma. Eles não me convidam, ou melhor, convidam–me para algumas festas, mas eu não estou disposto a ir a festas.

Não há debate?

Não há nenhum debate. Há aquelas missas que não têm debate nenhum.

Tem sido um crítico da forma como funcionam os partidos políticos… 

Os partidos políticos em Portugal enfraqueceram o pensamento. A classe política no poder é cada vez menos qualificada. Enquanto o país tem cada vez mais gente qualificada que vai para o mundo inteiro. Há portugueses nos sítios mais esquisitos do mundo como presidentes de grandes empresas, cientistas, cantores, futebolistas, treinadores de futebol… Não há sítio nenhum onde não exista um português com grande qualidade, ou seja, a qualidade dos portugueses melhorou muito através da formação e da educação. Melhorámos muito como povo desde o 25 de Abril. A classe política, apesar disso, é cada vez pior.

Qual é a explicação que encontra?

A explicação é que a classe política tem limitado cada vez mais o acesso à política.

Os partidos só querem os fiéis?

Exatamente. Os partidos não querem que ninguém coloque em causa as suas ideias e quem coloca alguma coisa em causa passa a ser malvisto e marginalizado dentro do partido.

Sentiu isso dentro do PS?

Senti, mas não sou o único. Tenho muitos amigos que têm essa sensação. Uns saíram do partido, outros ficaram. Não é só no Partido Socialista que isso acontece. Se eu for hoje a uma reunião do PS e estiverem 50 pessoas na sala, são cem olhos que se levantam de repente e essas pessoas dizem assim: “O que é que este gajo está cá a fazer?” Os olhos dizem tudo. Isto não é uma coisa abstrata. Mas o problema não sou eu. O grande drama é que a exclusão são setores da sociedade. Este livrinho [”O Sistema Político Português”, da autoria de Manuel Braga da Cruz] revela que o número de jovens portugueses que consideram que a democracia portuguesa funciona bem desceu de 2007 para 2015 de 36% para 17,2%. O número de jovens que participam em partidos desceu de 13,6% para 3,5%. Ninguém tem dúvidas de que os jovens não querem falar em partidos. Nós vimos que o Francisco Assis – para citar um caso muito conhecido –, a partir do momento em que foi contra esta solução, ficou marginalizado no partido. Eu, se fosse secretário-geral do PS, queria o Assis junto a mim. Se uma pessoa está a levar uma determinada estratégia à prática, só existem vantagens em ouvir os inconvenientes dessa estratégia. Não quer dizer que fosse fazer o que ele quer, mas é essencial estarmos rodeados por pessoas que não nos digam que sim a tudo. Sabemos o que aconteceu ao Sócrates e ao Guterres.

Acha que pode acontecer em Portugal o que aconteceu em França? Os partidos tradicionais quase desapareceram e deram origem a novos fenómenos. 

A existência do PCP e do Bloco de Esquerda travaram o aparecimento destes fenómenos em Portugal.

Continua a afirmar-se como uma pessoa de esquerda?

Sim. Acho que devem manter-se todos os ideais sociais da esquerda, como a solidariedade social ou a melhoria do nível de vida mas, ao mesmo tempo, reconheço que os sistemas coletivistas de gestão da economia falharam em todo o mundo. E, portanto, não há alternativa àquilo a que se convencionou chamar uma economia de mercado e, dentro da economia de mercado, aos empresários. Devem ser incentivados, as empresas devem ser cada vez mais competitivas e mais modernas. Um país pequeno como Portugal precisa de exportações como de pão para a boca. A nossa cultura é uma cultura global e devíamos estar como peixe na água na globalização. O problema é que os partidos foram excluindo as suas bases de apoio das decisões e concentraram o poder de decisão em cada vez menos gente.

Isso tem consequências?

Isso faz com que os interesses estejam cada vez mais presentes nessas decisões. É aquilo a que eu chamo o domínio dos que estão no castelo. Quem está dentro do castelo domina a política do partido. Cada partido é um castelo e tem as muralhas para se defender dos infiéis, que são todos os outros que podem pôr em causa esses interesses. Dou-lhe só um exemplo: as empresas do regime continuam a receber milhares de milhões de euros de apoios do Estado sem nenhuma necessidade. Isso acontece por causa destes interesses. Na direção da EDP estão 12 a 15 pessoas que foram diretamente do PSD para lá. Este governo não fez nada para mudar isso e, se fizesse, era para pôr lá os do PS.

O poder económico domina o poder político?

O poder económico domina o poder político ou domina os políticos no poder. O que é a mesma coisa. Temos o exemplo do Durão Barroso. O que digo é que os políticos no poder muitas vezes não servem a democracia e deixam que a democracia seja dominada. Não pode haver globalização sem governação global. Temos o caso das offshores. Toda gente sabe que as offshores retiram milhares de milhões de euros todos os anos aos países. Porque não se acaba com as offshores?

Como enquadra a situação dos partidos e as cedências dos políticos ao poder económico nos casos de corrupção de que temos tido conhecimento?

Isso prova que, durante pelo menos 30 anos, nós fechámos os olhos à realidade. Inicialmente, as coisas passavam-se em pequena dimensão mas, como havia impunidade, as coisas foram crescendo até dar no Sócrates e no Ricardo Salgado. Quando foi a OPA da Sonae à PT, não havia ninguém que não soubesse o que estava a acontecer. Vinha nos jornais. O problema é que ninguém fez nada. Espero que ninguém agora pare isto ao nível da justiça. Vejo muita gente dos partidos a dizer mal da justiça, mas há dez anos, quando a justiça estava quieta, não ouvia essas críticas. Agora que a justiça se está a mexer, já dizem mal. Espero sinceramente que a justiça não seja parada e que hoje [a entrevista foi feita umas horas antes de ser conhecida a decisão em relação ao caso BPN], por exemplo, haja uma decisão que coloque na cadeia o gajo do BPN. Ele vai recorrer e provavelmente vai morrer sem ir para a prisão…

Existe a sensação de que os poderosos acabam por nunca pagar pelos crimes que cometem. É verdadeira essa perceção?
É verdadeira mas, apesar de tudo, o que está a acontecer nos últimos anos nunca tinha acontecido, e por isso é que muita gente dos partidos andou a caminhar para Évora para visitar o Sócrates e anda a dizer mal da justiça.

Como viu a reação do PS à prisão preventiva de José Sócrates?

Julgo que aquilo que disse António Costa é um pouco irresponsável. Ele disse: “À justiça o que é da justiça, à política o que é da política.” Eu acho que um partido político não pode ter o seu ex-secretário-geral preso e não ter uma palavra de distanciamento. Já não digo de repúdio, mas de distanciamento. Eu tinha e tenho uma boa relação com o António José Seguro e, na altura, insisti com ele várias vezes para se distanciar do José Sócrates de uma maneira clara, para que se distanciasse do Sócrates e das pessoas que o rodeavam. Nunca o fez. Ele poderia dizer: “Errámos, temos de corrigir esse erro e definir uma nova linha para o PS.” Não o fez, mas avisei-o: “V. está a hesitar e vai ser comido por eles.” E foi. Eu e outras pessoas defendemos que o Seguro não se podia distanciar aos bocadinhos, mas ele dizia que queria unir o partido. Tinha essa boa intenção e só nos debates com o Costa é que disse metade da verdade, mas abriu o jogo.

Não é natural que o PS não tenha uma posição sobre o processo que envolve José Sócrates enquanto não houver um desfecho deste processo?

Alguém tem dúvidas neste país de que o Sócrates é culpado daquilo de que é acusado? Isso é uma hipocrisia. O PS não podia dizer que o Sócrates devia ir preso 20 anos, mas devia dizer que a governação do Sócrates foi má para o país. Não precisava de falar do processo. Andar a acusar o Passos Coelho das coisas que o Sócrates fez é uma total hipocrisia. O Passos Coelho não é nenhum génio mas, para o bem e para o mal, não é o Sócrates. Não podemos acusá-lo de todas as desgraças do país, limpando aqueles seis anos. Os comunistas é que limpam a história.

Como viu os quatro anos em que a direita governou com Passos Coelho?

Tenho até pena que o homem esteja a ser tão mal julgado. Acho que é uma pessoa séria, mas não é intelectualmente uma pessoa muito elaborada. Estar contra o Tribunal Constitucional é uma estupidez. Ele fez uma péssima gestão da austeridade. Geriu mal a austeridade e deixou que se criassem algumas ideias absurdas como aquela de que incentivou os jovens a emigrar.

Julga que a questão de ser otimista ou pessimista na política tem influência nos resultados? Costa é visto como otimista e Passos como pessimista. 

É uma falsa questão. O problema de Passos Coelho não é ter um discurso pessimista. Às vezes apetece-me ir falar com o Passos Coelho e só não vou porque não tenho nada a ver com o PSD. Mas se ele chegasse à Assembleia da República e apresentasse três ou quatro ideias para o crescimento da economia, era isso que marcava. É quase doentio vê-lo a falar sempre na mesma coisa. O que ele pode fazer é mostrar que tem ideias. Ele usou o medo de que isto desse para o torto, mas o que devia fazer era propor que isto acelerasse.

Foi candidato à Presidência da República. O Presidente da República tem ajudado o governo. Como vê a forma como Marcelo Rebelo de Sousa exerce a função?

É bom que haja colaboração. O meu problema é que eu tinha a expetativa e tenho a expetativa de que ainda possa existir um Presidente da República que introduza na vida política uma estratégia e uma visão.

Isso não cabe ao governo?

Não é governar, quem governa são os governos. É defender, junto dos portugueses, que sem uma estratégia clara nós damos um passo à frente, damos um passo atrás e estamos sempre no mesmo sítio. Precisamos de uma nova visão, uma visão de estadista e, infelizmente, este Presidente da República não deu nenhum passo nesse sentido. Tem uma relação excelente com os portugueses, mas temos um Presidente que é mais do mesmo com uma nota humana mais simpática. Não vi uma ideia. Posso simpatizar com que ele vá jantar com os sem-abrigo ou que visite as instituições de solidariedade social, e isso são coisas úteis, mas não fazem o país dar o grande salto em frente.

O que falta para dar esse salto de que fala? Falta fazer algumas reformas estruturais?

Não lhe chamaria reformas estruturais. Diria que é preciso definir um modelo para a economia. Portugal exporta 40% do produto interno bruto (PIB). Nenhum país da nossa dimensão exporta menos do que 60%. As empresas que trabalham para um mercado de dez milhões de pessoas ou são artesanais ou estão feitas e, por isso, Portugal tem de exportar mais. Mas não é possível tratar de tudo ao mesmo tempo. Nós mudamos as leis todos os dias. Uma das coisas boas deste governo é o esforço que está a fazer para não mudar muitas leis, mas o Bloco e o PCP estão sempre a querer mudar. Deixem estar o que está durante cinco ou dez anos. O que acho é que o mundo e a Europa estão numa grande mudança e numa grande indefinição. Considero isso uma oportunidade para um país como Portugal. Se o governo definisse uma estratégia clara e a defendesse na Europa, isso dava a Portugal uma visibilidade no plano internacional muito maior.

Entrevista de Luís Claro, publicada no nosso parceiro Jornal i
Fotografia de João Biscaia

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