Hélder Pedro: “Tem de haver critérios de restrição objetivos para limitar a circulação dos carros a gasóleo”

15 SETEMBRO, 2017 -

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O i falou com o secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP) no dia em que começa o salão automóvel de Frankfurt e o responsável diz que o fim dos carros a gasóleo “ainda vai demorar umas décadas

O salão automóvel de Frankfurt arranca hoje com uma forte vertente para carros elétricos. Vai ao encontro da tendência do setor?

O salão automóvel de Frankfurt é um dos grandes eventos do setor da Europa e, mais uma vez, está em força este ano com a apresentação dos carros elétricos. Estes são de facto uma tónica dominante porque, cada vez mais, as marcas têm apostado neste tipo de veículos que se adequam ao dia-a-dia e, acima de tudo, assentam noutro tipo de emissões. Além disso, a procura de carros elétricos tem vindo a aumentar muito de ano para ano.

Estamos a assistir a uma reinvenção das marcas?

As marcas de ano para ano têm vindo a apostar mais neste segmento, mas agora tudo depende da procura por parte dos clientes, tanto a nível particular como das empresas.

Isso significa que vai ser o fim dos carros tal como conhecemos?

Ainda vai haver um ciclo de evolução natural e que será acompanhado pelo aumento dos carros elétricos e dos veículos híbridos plug-in. Mas ainda não vamos assistir ao fim dos carros tal como conhecemos. Isso ainda vai demorar umas décadas.

Mas vários países têm anunciado metas para fim dos carros a gasolina e gasóleo. Acha que é exequível cumprir esses timings?

Tudo leva o seu tempo. O que a industria automóvel pensa é que gradualmente os veículos elétricos e os híbridos plug-in terão o seu espaço, agora até lá é preciso ainda percorrer um longo caminho. Não podemos dizer que vão acabar os veículos a gasóleo ou os veículos a gasolina porque tudo isso terá o seu ciclo próprio. E o que a indústria automóvel europeia pensa é que terá de haver critérios de restrição objetivos e sobretudo deve-se começar por atacar aquilo que é a circulação do parque automóvel antigo e motivar a sua renovação.

Mas há mais restrições. Até 2020 apenas será permitida a circulação dos modelos pós-2014 em algumas cidades, mas em Portugal, há quase milhão e meio de veículos, vendidos entre 2006 e 2014, que poderão ser proibidos de circular nessas cidades europeias se não forem trocados ou reparados…

O problema é que antes da crise Portugal tinha um parque automóvel de ligeiros de passageiros com uma média de idade a rondar os oito anos ou os nove anos, agora já estamos nos 12,5 anos.

E Portugal estará preparado para responder a estas metas?

Essas metas não são comunitárias. São metas que estão a ser anunciadas por vários países, mas Portugal tem é de respeitar as normas europeias. Agora se uma cidade A ou B implementa este tipo de medidas mais restritivas não significa que Portugal o tenha de fazer. Ou seja, aquilo que é obrigatório é aquilo que resulta de uma norma europeia ou de uma diretiva europeia, caso contrário não somos obrigados a cumprir.

Mas será esse o caminho?

Vamos aguardar. Bruxelas tem metas para reduzir as emissões, mas ao mesmo tempo, os carros que estão a ser colocados no mercado são cada vez menos poluentes.

Perante essa tendência é natural que a indústria automóvel enfrente alguma resistência por parte das indústrias petrolíferas…

Isso já não nos compete a nós. A indústria automóvel adapta-se e por isso tem havido esta aposta na oferta de carros elétricos com uma maior variedade de modelos.

Também em Portugal assistimos a um recorde de vendas de carros elétricos nestes setes meses do ano… 

Houve um crescimento de 100%. Ainda não é um número significativo em termos de peso, mas um aumento destes já é importante.

Ainda tem um peso muito residual?

Exato, não chega a atingir 1% do total de vendas. Mas em termos de comercialização foi um aumento significativo, vendemos até agora o dobro do que tínhamos vendido no ano passado. E isso é um dado importante para a evolução futura.

E a tendência é para aumentar?

A nossa perspetiva é que a tendência vai aumentar, acredito que os elétricos vão ter um peso cada vez maior no parque automóvel e nas vendas automóvel.

O preço continua a ser um entrave para a compra?

Sem dúvida, o preço continua a ser muito alto, mas em Portugal existem incentivos à compra de veículos elétricos e aos híbridos plug-in e é importante que o governo português, tal como acontece em outros países, perceba a importância de incentivar a procura deste tipo de veículos e, desta forma, manter este tipo de incentivos. É claro que há países com maiores incentivos do que outros.

O atual incentivo é de 2250 euros para a compra mas só para os primeiros mil pedidos. Se já foram vendidos mais de 750 significa que está quase a esgotar…

É verdade, mas ainda não esgotou. Além disso, é preciso esperar pelo Orçamento do Estado do próximo ano para ver o que é que o governo vai incluir nesta matéria.

O que seria desejável?

Pelo menos manter este incentivo. Claro que se fosse de maior valor seria mais favorável, mas já manter o que existe é positivo. Mas tudo depende da verba que o governo terá disponível.

A ACAP já esteve reunida com o governo?

Ainda não, mas esperamos reunir em breve e, sem dúvida, que este é um dos assuntos que estará em cima da mesa. Mas haverão mais.

O outro será regresso do incentivo ao abate?

Sim, porque apesar do incentivo ao abate ter sido descontinuado é uma medida que achamos muito importante principalmente numa altura em que tanto se fala da poluição nas cidades. Achamos que se deve começar primeiro por tentar incentivar que carros com mais de 10, 12 ou 15 anos sejam substituídos por outros menos poluentes e com menores emissões. O governo anterior descontinuou esta medida, mas achamos que faz cada vez mais sentido voltar a implementá-la porque o parque automóvel está a envelhecer. Como já disse, em Portugal a idade média do parque automóvel é de 12,5 anos.

Acha que há sensibilidade e verba por parte do governo?

Por um lado, achamos que só por si a medida compensa nem que seja pelos impostos que o governo recebe na renovação do parque automóvel. Tudo aquilo que recebe de imposto sobre veículos (ISV) e de IVA dos carros novos mais do que compensa a redução fiscal ou o incentivo que é dado. Por outro lado, também há verbas do fundo ambiental que tem como objetivo reduzir emissões de CO2 e aqui trata-se claramente de substituir veículos com 20, 18 ou 15 anos que têm níveis de emissão muito altos por veículos que emitem muito menos. Ou seja, como estamos a reduzir as emissões de CO2 é uma medida que pode ser incluída no fundo ambiental que existe.

Os problemas da autonomia têm de ser ultrapassados…

Ainda há alguns, mas são problemas que se vão ultrapassando e há cada vez mais postos de abastecimento rápido em Portugal. Por exemplo, neste momento já é possível fazer o percurso numa autoestrada de norte a sul do país e ir parando para abastecer nesses postos de abastecimento rápido. E isso dá uma maior segurança aos utilizadores.

Mas ainda é preciso ir mais longe…

É, mas há um plano que está ser implementado, como é o caso do Mobi-e. Há um plano para alargar essa rede de abastecimento a todo o país. A ideia é conforme for aumentando a procura mais pontos de carregamento serão instalados.

É um trabalho que tem de ser feito gradualmente…

Exatamente, mas é um trabalho que está a ser feito com bases sólidas.

Considera que os portugueses estão recetivos a estas mudanças?

Estão muito recetivos e muito curiosos.

As vendas do setor também têm vindo a recuperar. Como prevê terminar o ano?

Estamos a assistir a uma estabilização do setor. Estamos a crescer, mas estamos abaixo dos 10%. Nos últimos três anos houve crescimentos de 20, 25 e 30%, mas que representou a recuperação da crise de 2012 e principio de 2013. Neste momento e, até ao final do ano, esperamos uma recuperação sustentada do mercado, mas certamente vamos ficar abaixo dos 10% em termos de crescimento. No fundo é a confirmação daquilo que já tínhamos apontado.

E para o próximo ano?

Acredito que vá ao encontro desta linha de estabilização porque o mercado está a atingir níveis de maturidade.

Entrevista de Sónia Peres Pinto / Parceria jornal i

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