Harper Lee, ‘To Kill a Mockingbird’ e a actualidade

16 FEVEREIRO, 2017 -

“You never really understand a person until you consider things from his point of view…
Until you climb inside of his skin and walk around in it.”

Harper Lee, To Kill a Mockingbird

Há precisamente um ano, o Mundo perdeu a escritora de To Kill a Mockingbird, um dos mais famosos clássicos da literatura americana moderna. O sucesso da obra garantiu a Harper Lee o Prémio Pulitzer em 1961, um mérito consagrado apenas um ano após a sua publicação. No ano seguinte, o livro foi adaptado ao grande ecrã pelas mãos do roteirista Horton Foote, tendo a versão cinematográfica arrecadado também diversos prémios.

Scout, a narradora da história, transporta-nos para o quotidiano de uma menina de seis anos que vive numa pacata cidade do Alabama, Maycomb, no início dos anos 30. Filha de um respeitado advogado da cidade, Atticus Finch, Scout descreve-nos de uma forma maravilhosa a realidade do seu mundo, cheio de aventuras vividas ao lado do irmão mais velho Jem e do amigo Dill.

O momento central da ação foca-se no julgamento de Tom Robinson, um negro acusado de violar uma mulher branca. Atticus é nomeado pelo juiz para defender Tom e, ao aceitar o caso, motiva a reprovação da cidade e uma série de tumultos, o que se repercute nas vidas de Scout e Jem.

De uma forma muito genuína, Harper Lee imerge-nos numa sociedade racista, preconceituosa e violenta, e coloca-a em contraste com a integridade, ética e valores morais de Atticus e com a coragem e bondade de Scout. A narração dos eventos revela-nos a candura, rebeldia e doce inocência de Scout, provocando-nos um sentimento de nostalgia da infância, como se também nós tivéssemos passado as tardes de verão a brincar com Jem e Dill. Da sua relação com o pai, surgem as mais inesquecíveis lições de vida, eternizadas em passagens que nos impactam de uma forma profunda e nos fazem analisar as nossas próprias ações morais.

A atualidade dos temas retratados nesta obra é inegável, especialmente quando considerada a vigente conjuntura política dos Estados Unidos. Desde 1963 que To Kill a Mockingbird é parte integrante do programa das escolas norte-americanas, enaltecendo mensagens de tolerância e de esperança. Apesar disso, desde a sua publicação que esta obra gera discórdia e críticas devido aos temas abordados e à utilização de epítetos raciais.

Em dezembro do ano passado, as escolas da Virgínia decidiram banir esta obra, a par do clássico The Adventures of Huckleberry Finn de Mark Twain, justificando esta decisão pelo emprego da palavra nigger por parte de ambos os autores. Ao invés de motivar o estudo destas obras como uma arma educativa contra o racismo, a América de hoje perpetua a violência e o preconceito, construindo muros e dissipando a liberdade de expressão.

Não poderíamos deixar de aconselhar a leitura da versão original da obra, que preserva a genuinidade do diálogo e  das expressões, e que foi eleita como uma das 100 obras para ler antes de morrer.

Texto de Adriana Botelho

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