‘Half-Light’, de Rostam, é morno mas tem bonitos pormenores de produção

27 SETEMBRO, 2017 -

2016 foi um ano doloroso para todos os fãs de música. Perdemos grandes ídolos desta arte como Leonard Cohen, David Bowie ou Prince. Face à partida destes grandes músicos, uma outra triste notícia passou algo despercebida: a 26 de Janeiro de 2016, Rostam Batmanglij anunciou a sua saída da banda Vampire Weekend, grupo de indie pop e indie rock norte-americano que encantou o mundo com o seu som jovial e progressivamente mais complexo ao longo da sua curta mas frutuosa carreira. Além de ser o teclista de serviço, o músico produziu os dois primeiros álbuns da banda e co-produziu o terceiro e mais aclamado, Modern Vampires of the City. Rostam era uma peça importante na definição da sonoridade da banda e a sua saída certamente será sentida. Soou a fim de uma era para Vampire Weekend e agora a curiosidade está aguçada para ver o que se segue na carreira do (agora) trio.

Mas a saída de Rostam simboliza o nascer de outro projecto, o abraçar da sua individualidade e o explorar dos seus limites enquanto artista. Isto é algo que não é estranho ao produtor, sendo que já mostrou provas de que a sua habilidade musical se estende para além da banda que o consagrou como o fantástico músico que é: acrescentou a sua abordagem de produção à discografia de artistas como Charlie XCX, Carly Rae Jepsen, Frank Ocean (produzindo a leve “Ivy” do magnífico blond) e Solange (em que Rostam produziu a faixa “F.U.B.U” do aclamado A Seat at the Table). O seu trabalho a solo foi sendo apresentado em intervalos espaçados, pela mão de temas como a fresca “Wood” ou a dançável “Don’t Let It Get to You”, lançadas em 2011. Mas a marcha definitiva de Batmanglij pelas suas próprias mãos e sem a segurança de uma banda que ajudou a construir chega agora em 2017; Half-Light é um conjunto de músicas produzidas ao longo de vários anos, ideias que foram sendo aprimoradas com o ganho de experiência pela parte do produtor.

Para quem sente saudades da presença avassaladora e notável de Rostam nos Vampire Weekend há boas notícias: consegue mostrar essa sonoridade de um ponto de vista mais pessoal, há sem dúvida pontos em comum e áreas onde Half-Light vai mais longe que qualquer um dos projectos da banda. Isto é algo natural tendo em conta o papel preponderante de Rostam no processo criativo do grupo nova-iorquino. As letras apelam aos sentidos, ao ver, ao tactear, ao fundamentar das percepções sensoriais em palavras, ao compilar os impulsos elétricos que guiam a nossa visão do mundo sob letras que se fundem com os instrumentais. No entanto, o seu timbre é pouco flexível e as melodias vocais acabam por soar parecidas umas com as outras graças a isso. Há uma tentativa talvez inconsciente de emular Ezra Koenig, o vocalista de Vampire Weekend, na maneira de cantar, apesar de não ter a mesma destreza vocal que o principal (e agora único) letrista da banda. No entanto, onde Rostam brilha é na produção instrumental.

Rostam funde influências fruto da sua história e do seu percurso pelo mundo da música. A já referida “Wood” remete para as suas origens iranianas e demonstra qualquer coisa de oriental e tropical ao mesmo tempo, uma dualidade interessante. “Don’t Let It Get to You” começa abrasiva com uma batida efervescente em que se ouve a percussão a ressoar com potência, e tem um final de teclado a tilintar semelhante a “salpicos sonoros”, “pintalgadas” de sintetizador à “Jackson Pollock” e tímidos sopros, um bom contraste de atmosfera em relação ao que o antecedeu. Em “Never Going to Catch Me”, ouvimos uma miríade de instrumentos ao longo da música, consegue sentir-se a atenção ao detalhe e a experimentação sonora de Rostam. “Rudy” é jovial, descontraída, lembra quase reggae, com motivos de saxofone bastante agradáveis e que suscitam uma confusão bem-vinda ao tema, complementado a entrega gritada e “de saltar a tampa” de Rostam no segundo verso da música. “Hold You” impõe-se como uma das melhores músicas do álbum, com uma produção arrojada que divaga pelo R&B e experimentações vocais que lembram Bon Iver, enfatizadas por um coro discreto.

Os arranjos corais são algo prevalente ao longo de Half-Light, belos pormenores que elevam as músicas que tão suavemente adornam, algo fielmente demonstrado em “EOS”. A música soa a comunhão do mundo, a uma união que transpõe todas as barreiras auxiliada pelas vozes angelicais que introduzem Rostam e o ajudam a terminar o tema com potência. Outro excelente pormenor são as belíssimas composições de cordas que se fazem ouvir um pouco por todo o álbum. Em “Thatch Snow” as cordas intermitentes tornam a música mais formal e magnânima, acompanhado o canto semelhante a um yodel de Rostam com qualidade e em “Gwan” criam uma atmosfera verdadeiramente tocante. Os vários temas de Half-Light estão carregados de sentimentos e emoções mas muitas vezes soam demasiado esqueléticos, “subnutridos”, parece que se atropelam para acabar. “When” começa de forma agradável mas definha num caos de vozes alteradas sem grande sentido. “I Will See You Again” é tão, tão curta, quase um crime, é frustrante ouvir uma ideia mal explorada que podia ser mais do que é mas que nunca chegar a despertar qualquer tipo de sentimento.

Half-Light é um álbum morno, contido. É um projecto que apresenta vários bons pormenores de produção mas cuja execução é por vezes faltosa. A jovialidade que é demonstrada ao longo do primeiro longa-duração de Rostam mostra que Vampire Weekend ainda é e certamente sempre será uma parte importante da identidade musical do artista. Mas onde se destaca é no fugir a essa sonoridade, em partir à descoberta de novas maneiras de fazer música, sempre deixando a sua marca pessoal. Quando saiu dos Vampire Weekend, Rostam referiu que sentia que a sua identidade enquanto produtor e compositor tinha de ser autónoma. Talvez a banda já não chegasse para as suas ambições, talvez sentisse que só conseguia ser fiel à sua visão criativa estando sozinho. Seja o que for, Half-Light é o início de uma nova fase para Rostam, que não esquece o seu passado brilhante para inventar o seu futuro musical que se espera igualmente deslumbrante mas que ainda não chegou a esse ponto.

Músicas preferidas: “Wood”, “Don’t Let It Get to You”, “Hold You”, “Rudy” e “EOS”
Músicas menos apelativas: “I Will See You Again”, “When” e “Don’t Let It Get to You (Reprise)”

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