Haim exploram o seu som em ‘Something To Tell You’

25 JULHO, 2017 -

As Haim quase parecem demasiado cool para serem reais: três irmãs californianas que emanam estilo e confiança, e fazem música consideravelmente boa. Já para não falar das performances ao vivo: Danielle, Este e Alana deram em 2014 talvez o melhor concerto do Nos Primavera Sound. E ainda nem era de noite; e o Kendrick atuou nesse mesmo dia.

Days are Gone”, o primeiro da carreira do trio, é um álbum definidor da sonoridade do indie pop da primeira metade desta década: o groove do baixo, as harmonias e a precipitação vocal de Danielle Haim são contagiantes; fazem do álbum um espaço a que, durante estes anos de espera, voltámos incessantemente. A estreia constituiu uma passada larga de originalidade, e uma lufada de ar fresco, na mesma medida em que o foram os contemporâneos “Pure Heroine” de Lorde ou “Night Time, My Time” de Sky Ferreira.

Sabe-se que o segundo álbum é sempre um peso para o artista cuja primeira obra é bastante aclamada. Manter o nível nem sempre é fácil e, talvez por isso mesmo, as Haim tenham demorado quatro anos para lançar o seu sophomore, 

Ora, em “Something to Tell You” tentaram desenvolver – no fundo, tornar mais elaborado – o som que haviam apresentado antes, com mais instrumentação, mais efeitos, e com isso perderam um pouco o ambiente – de certa forma, minimalista – que haviam criado em “Days are Gone”. Olhemos para duas músicas, uma de cada álbum: “My Song 5” e “Kept me Crying”, do primeiro e do segundo, respetivamente. Ainda que o tom das duas seja diferente, partilham um início, com Danielle acompanhada só de batida, e um final com um potente riff; na primeira, ainda que com algum overdub, a voz, à frente e ao centro, cria a melodia que é posteriormente sustentada na perfeição pela guitarra. Já na segunda canção isso não acontece, e isso em muito se deve à excessiva acumulação de distorção e reverberação no som, que impedem, em parte, a musica de ser tão memorável como a primeira. O que não implica que seja uma faixá má – que não o é. Aliás, todo o álbum é bom, com uma tonalidade pop calorosa e com refrões que se entranham, e continuam a deixar o ouvinte curioso pelo futuro da banda.

Want you Back” faz bem a transição entre os dois álbuns; o single e primeira música do segundo LP, é upbeat e esperançoso nas palavras, revolvendo em torno do amor, como o fazem todos os temas do álbum; A aliteração e a rapidez em “I’ll take the fall and the fault in us / I’ll give you all the love I never gave before I left you” fazem presente o estilo da banda no single, como tanto se ouve no antecessor.

Little of Your Love” e “Ready for You” são dois fortes temas, com o primeiro a articular na perfeição o vasto leque instrumental e consonâncias vocais da banda, e o segundo a destacar-se por, para além da magnífica linha de baixo de Este, ir buscar a percussão e a guitarra à “Faith”, de George Michael, transportando-nos de imeditado para o final dos anos 80.

Dev Hynes (aka Blood Orange) coescreveu “You Never Knew”; e curiosamente, ainda que não a tenha produzido, os sintetizadores, baixo e percussões fazem desta uma música que poderia ter feito parte tanto de “Freetown Sound” como de “Cupid Deluxe”; as harmonias contribuem aqui para complementar o sonho que a melodia cria, e, ainda que sendo a música mais distinta de tudo o que já ouvimos de Haim, é a melhor do álbum. Uma abordagem que seria interessante ver a banda tomar no futuro.

Right Now”, por sua vez, dentro das faixas menos memoráveis em que ouvimos Danielle a ponderar acerca de uma má relação que ora está ora não está, destaca-se pelos dois momentos de clímax que comporta, e para os quais a música tende a crescer, incorporando progressivamente um vasto leque de instrumentos.

Nota-se que “Something to Tell You” é um álbum de exploração; as Haim não querem entrar no ciclo vicioso que é fazer cópias incessantes de “Days are Gone”, e procuram novas formas de se expressar. Contudo, ainda que já haja neste álbum excelentes exemplos por onde se guiarem (“Ready for You”, “You Never Knew”), há também momentos de menos foco (“Nothing’s Wrong”, “Found It In Silence”), com a repetição nos refrões a tornar-se excessiva e cansativa. É um bom esforço; só esperamos por melhores frutos num futuro próximo.

 

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