Há 20 anos, a magia passou a fazer parte de nós

26 JUNHO, 2017 -

Faz neste dia, 26 de junho de 2017, vinte anos desde que o primeiro fascículo da intensa e imensa saga de Harry Potter saltou para as bancas. Mas, muito mais do que isso, saltou um mundo. Numa era em que já J.R.R. Tolkien e George Lucas tinham conferido à nossa modesta e mudana dimensão com retrospetivas e vanguardas, faltava-nos algo. Um poço memorial, inestimável, onde a magia ebulisse de forma mais acessível e próxima aos olhos e aos sentidos de quem contactasse com uma galáxia que, de origens britânicas, nos saltou bem para dentro dos nossos corações.

Salazar Slytherin, a escadaria de Hogwarts, os uniformes dos alunos dessa escola de magia e feitiçaria. Tudo isto não é assim tão longínquo da nossa tangibilidade. Foi cá na cidade do Porto que a autora, J.K. Rowling, deu aulas e colheu grandes influências para o desenrolar de uma obra que se multiplicaria em volumes, em adaptações cinematográficas, mas, e muito acima da soma destas unidades, de apaixonados. De inveterados devotos por um mundo que nos proporcionava a magia que o mundo nos fazia esquecer, por mais literatura, música e cinema que nos chegasse aos olhos. Não era o ilusionismo de Houdini ou o surrealismo de Dalí que nos poderiam conferir um mundo diferente, paralelo, onde tudo se vinha explicando pelo mais belo dos padrões de valores humanos, numa textura humana e metafísica que perduraria, decerto, dos 8 aos 80 anos.

O bem e o mal estavam bem destrinçados. As quatro equipas definiam tipos de personalidade bem vincados, bem expressos, e aos quais nos associávamos no decorrer das leituras e dos visionamentos. Os vastos prados circundantes da escola que, por mais que desdenhássemos o ensino, nos motivava a aprender, a estudar. A devorar com os sentidos toda a energia e harmonia que os pátios e átrios conferiam àquele que desenhasse o mapa da escola na sua mente. Conhecer os professores ao máximo, descobrindo o seu passado no núcleo da aura daquele espaço, protegido por uma série de encantamentos que poderiam e deviam cair nos nossos corações. Era a mesma atmosfera que nos protege dos nossos sonhos, das nossas mais rocambolescas paixões.

Tudo à distância de uma plataforma codificada, que encaminhava para um comboio encantado com uma rota dirigida a uma aldeia confortante e mirabolante, de seu nome Hogsmeade. A tal aldeia que desejávamos que nos acolhesse no final de uma epopeia mirabolante, após enfrentar gigantes e dragões com o auge da nossa força, com o auge da nossa virtude. Era a tal que viria a acolher as consoadas mais confortantes da imaginação. Era aquilo que precisávamos para, na rebeldia e na problematização da realidade, encaminharmos a nossa vida com a crença inabalável na força do nosso caráter, na intrepidez dos nossos sonhos. Se toda esta aurora de um mundo que nos convidava e nos levava para uma nova dimensão nascia, era tempo de a aproveitar. E assim foi, até aos dias de hoje.

Ainda no presente, numa fase em que a saga se vai estendendo com teorias e com novas narrativas, somos inspirados por figuras desta majestosa e copiosa manifestação juvenil, protagonizada por um trio de jovens irreverentes, curiosos, e conhecedores das iniquidades que o mal poderia gerar. Conviveram com ele de perto, mas nunca ponderaram desistir de o reconhecer e de, acima de tudo, o combater. A verdadeira magia não se encontra, assim, na ponta das suas varinhas, mas na base das suas intenções, no sentido das suas motivações. É a tal magia que nos motiva a sermos, também, feitceiros, e a assumir uma personalidade própria nesse mundo. Um desejo que se configura como exequível para o mundo das papeladas, onde a vontade era a de dissipá-las com a ajuda de um brioso elfo, ou com uma transfiguração repentina mas sentida.

Gryffindor, Ravenclaw, Slytherin, Hufflepuff. O que nos une é bem mais daquilo que nos separa. A nós, rotulados e sentidos potterheads, o mundo torna-se bem mais íntimo e colorido com o disparar imaginado de uma enchente de cores, divulgando o sentido e o sentimento das nossas ambições. No fundo, bem lá na nossa eterna mocidade, prevalece o desejo de ser um feiticeiro, devidamente trajado, e confiante para enfrentar as vicissitudes do mal. A idade, que se professa como só um número, não nos impede de, nas tarefas domésticas, decidir voar com a vassoura, e de explorar meio mundo. Desvendar todas as criaturas imaginadas e acarinhadas pelos nossos heróis, incluindo aqueles que caminham no limbo da polaridade do bem e do mal. Ir para além dos limites que a realidade impõe, extrapolando e conhecendo as aldeias onde tudo se proporcionou, onde o sacrifício de uns pôde ser devidamente reconhecido e enternecido.

Este mundo de magia não é mais nem menos do que aquele que sempre ansiamos viver, do que aquele que nos inspirou e nos continua a inspirar a não esquecer que há algo de encantador e de enfeitiçado no planeta em que vivemos. Pelo meio, subsistem os valores, os mesmos que nos permitiram distinguir o vampirismo dos Dementors, e a malvadez dos Devoradores da Morte. Por mais hermético que seja Tom Marvolo Riddle, nada consegue desvinculá-lo de um mal cego e sedento pelo poder, mesmo que este se centrasse na ombridade e na bondade das ações. Foi isso que nos fez ser tão íntimos de Albus Dumbledore, e do bravo Severus Snape. Foi isso que nos transpôs para o mundo que sempre estimamos com tanto carinho na nossa memória, na esperança de que, um dia, consagre a sua história nesta nossa energizada e polarizada realidade.

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