Gulbenkian de Paris faz Festival da Incerteza com biblioteca particular de Fernando Pessoa

26 AGOSTO, 2016 -

A delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, vai organizar, de 04 de outubro a 18 de dezembro, o Festival da Incerteza, no qual vai mostrar, pela primeira vez ao público francês, a biblioteca particular de Fernando Pessoa.

O festival vai contar com um ciclo de conferências, exposições e projeção de filmes, tendo como temas a incerteza, o desconhecido e a utopia, 500 anos após a publicação do livro ‘A Utopia’ de Thomas Moore.

“Somos uma instituição portuguesa em França e queremos refletir, com franceses e portugueses, sobre certas questões que preocupam a sociedade e a incerteza é uma delas, uma vez que se transformou um pouco na palavra de ordem nos dias que correm. A ideia é convocar um conjunto de artistas, pensadores, filósofos, lusitanistas a refletir sobre estas questões”, disse à agência Lusa Miguel Magalhães, adjunto do diretor da Gulbenkian de Paris.

Paulo Pires do Vale, curador do festival, sublinhou à Lusa que “a biblioteca de Fernando Pessoa é tesouro nacional e levá-la até Paris é um acontecimento”, explicando que vai haver “uma sala onde nas paredes vão estar os livros que foram pertença de Pessoa e no centro vai estar uma mesa onde haverá seminários sobre ele”.

Numa parceria com a Casa Fernando Pessoa, a biblioteca particular do escritor vai integrar a primeira exposição do festival intitulada ‘Do Desassossego’, de 04 de outubro a 06 de novembro, e que vai ter obras dos artistas portugueses João Onofre e Fernando Calhau, da espanhola Dora García e do francês Pierre Leguillon.

“O olhar sobre a biblioteca é um olhar não só sobre o passado certo e seguro, mas é também um espaço de inquietude. Por isso, juntei à biblioteca de Pessoa obras de outros artistas que permitem essa leitura, por exemplo, a obra de João Onofre, que coloca um abutre no seu ateliê (…) Esse abutre, aos poucos, com as asas enormes, vai destruindo a quietude naquele ateliê. Os papéis vão caindo, os livros vão saindo do seu lugar, sentimos essa experiência de desassossego naquele espaço”, descreveu.

A exposição vai ter “um segundo momento”, intitulado ‘Do Possível’, de 17 de novembro a 18 de dezembro, com obras dos artistas contemporâneos Douglas Gordon, Corita Kent e Lara Almarcegui, entre outros, em que o objetivo é “pensar a utopia não como um sonho longínquo mas como uma força presente”, ou seja, “pensar que a utopia não é só um lugar qualquer que há-de vir ou que nunca há-de vir e que se espera, mas é qualquer coisa que já está aqui, agora, a alterar a realidade”.

“Num momento em que tanto se atravessam mares para se poder fugir a guerras, em que não sabemos qual é que vai ser o futuro da Europa politicamente, em que tantas incertezas se levantam, pretende-se celebrar a incerteza, não a assentindo apenas como negativa, mas como possibilidade de outra coisa utópica, de utopias realizáveis que já estão aqui a marcar o nosso presente”, continuou Paulo Pires do Vale, à Lusa.

O ciclo de conferências começa a 07 de outubro, com Richard Zenith, “o grande tradutor para inglês da obra de Fernando Pessoa”, com uma conferência intitulada ‘Le Livre de l’Intranquilité: Un guide de survie pour nos jours’ (“O Livro do Desassossego: Um guia de sobrevivência para os nossos dias”), e termina com uma “conferência-passeio” por Paris, “à descoberta da arquitetura e do urbanismo utópicos”, dirigida pelo arquiteto e curador Joaquim Moreno, a 10 de dezembro.

O festival vai também contar com “encontros da lusofonia”, com a apresentação da tradução francesa de ‘O Filho de Mil Homens’, de Valter Hugo Mãe, a 20 de setembro, a participação de Gonçalo M. Tavares na ‘performance’ ‘Conversas Fictícias’, a 22 de setembro, um ‘workshop’ de narração oral, a 08 de outubro, e uma jornada lusófona, a 19 de novembro, entre outros eventos.

Em parceria com o festival, a Maison du Portugal – André de Gouveia vai ser palco de vários concertos, recitais, ‘performances’ e exposições, assim como a Cité Internationale des Arts, onde vão ser exibidos vários filmes, nomeadamente ‘Filme do Desassossego’, de João Botelho, e ‘O Nosso Homem’, de Pedro Costa.

Texto Lusa

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