Guillermo Del Toro: “o bonito e o brutal tem de existir sempre nos meus filmes”

4 SETEMBRO, 2017 -

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Antes ainda do aplauso na sessão de imprensa com a estreia mundial de The Shape of Water, já falávamos com o mexicano Guillermo Del Toro sobre a sua fábula, digamos assim, bestial. Aqui se vive o romance entre uma empregada de limpeza e um monstro saído de uma espécie de lagoa negra da Amazónia. Poucas vezes ocorre esta aproximação e homenagem ao género fantástico, devidamente dominar por monstros, embora sem perder o sentido de homenagem à época. E sem necessitar de referir, por exemplo, o clássico O Monstro da Lagoa Negra, dos anos 50, mas a centrar a ação nos anos 60, em plena Guerra Fria, ainda que a manter bem viva a proximidade ao estilo série B. O projeto de longa gestação recebe agora sinal de vida. Pelo bruá, adivinha-se uma carreira de prémios. No entanto, em Portugal a estreia será lá só para fevereiro. Alguém falou em Óscares?

Porque demorou tanto tempo a fazer este filme? Parece que é mesmo aquilo que gostaria de fazer.

Tem razão. O filme levou seis anos a fazer, mas para mim foi mais, porque queria fazer um filme de monstros puro. Só que a minha ideia inicial era demasiado ousada e não funcionou. Por isso arquivei o filme até 2011. Foi nessa altura em que ao tomar o pequeno almoço com o Daniel Kraus, com quem escrevi Trollhunters, ele me disse que tinha uma ideia sobre uma empregada de limpeza que trabalhava para o governo e que se apaixonada por um monstro. Era isso mesmo o que procurava. O meu único imperativo era que fosse a cores e não a preto e branco como o estúdio desejava inicialmente. Acabei por fazer um filme por 19 milhões mas que parecer ser de 60 milhões.

Parece-me que o sexo é bastante relevante neste filme. Foi algo que também teve de impor ao estúdio?

Existem várias histórias sobre a Bela e o Monstro. O problema é que alguma são demasiado puritanas e não têm sexo, ou então são demasiado kinky e perversas. Mas tem tudo a ver com o sexo. Sé que para mim nenhum desses lados me interessava. Eu queria uma história de amor que tivesse sexo. Só que não pretendia entar por um território de perversão.

Foi por isso que tornou este monstro tão sensual?

Foi! Mas para mim era importante que a mulher não fosse nenhuma princesa imaculada. Esta é uma mulher que se masturba de manhã e coze evos durante três minutos. Portanto três minutos de masturbação e três minutos de cozedura. Ela é assim metódica, mas pode conservar a sua pureza. Às vezes confunde-se pureza com inocência. Para algumas pessoas se entramos no território sexual é porque já perdemos a pureza. Pois eu digo que podemos, que devemos. Este não é um filme kinky, é bastante doce até.

Até que ponto esta não é também uma história que lhe é pessoal, uma vez que gosta tanto de monstros?

Sim, é pessoal. O ato supremo do amor é podemos mostrar-nos como somos. Você vê-me como sou e eu vejo-o como é. Não quero que seja diferente. Isso é o máximo do amor. Os monstros também se apresentam exatamente como são. Mesmo que os verdadeiros monstros usem fato e gravata e bebam cerveja a ver televisão. Para um monstro não há mentira. Por isso são tão importantes para mim – eles representam tolerância. São, por isso, perfeitos elementos para uma fábula. Todos estes elementos giravam na minha cabeça enquanto juntava estas ideias.

Entretanto quando estava na montagem no filme, o Trump entou para a Casa Branca…

Não, o Trump entrou bem mais cedo (risos)…

Achou que esse elemento se tornou ainda mais relevante?

Sim, porque tudo isto esteve sempre presente. Eu sou mexicano! Eu passo pela emigração. Não é nem nunca foi fácil. Mesmo durante a Administração Obama. Este é um país que vem de uma Guerra Civil, entre irmãos do Norte e do Sul. E essas feridas nunca sararam. Essa é a destruição e a decomposição do tecido humano. Isso tornou-se ainda mais evidente antes de Trump, mas eu tive a consciência de dizer que este é um filme sobre o que se passa agora. Não quis fazer um filme sobre 1962, quis fazer um filme sobre o que se passa hoje.

Porque fez então um filme sobre 1962?

O ano de 62 é crucial na América. É o ano em que sonham com o futuro, tudo é futurista, os carros, as cozinhas, os penteados. O Kennedy está na Casa Branca, ainda que vá ser abatido daí a uns meses. Entretanto, a presença militar será reforçada no Vietname. É aí que o sonho acaba. Quando os americanos dizem: “let’s make American great again” estão a pensar em 62. Ao mesmo tempo, os problemas que tivemos em 62, como o racismo e o sexismo, ainda não acabaram.

Como foi articular o equilíbrio entre esta poesia e fantasia, mas também com alguma scenas brutais que aparecem no filme?

Acho que é mais difícil para o público do que para mim. Tentei controlar um pouco para não se tornar demasiado brutal. Por exemplo, o interrogatório do agente russo foi aliviado, pois era muito mais violento (risos). A verdade é que o bonito e o brutal tem de existir nos meus filmes lado a lado, pois foi assim que descobri a beleza e a brutalidade. É algo muito orgânico.

Ficou satisfeito em poder fazer agora o “seu” filme, sobretudo depois do que sucedeu com o Hobbit, em que acabou por não avançar? Como lidou com esse desaire?

Não consegui lidar. Só ma apetecia partir tudo. Não de ligam com este tipo de coisas. Foi horrível. Mas isso faz parte do negócio. No entanto, foi uma decisão minha. Por isso, quando me perguntam porque tenho tantos projetos eu respondo porque a maior parte deles não se concretizam. Escrevi 22 guiões, um por cada ano. E a maior parte desses anos não aconteceram. E se acrescentarmos um nível de design isso acrescenta logo mais dois anos. Por isso, podemos investir no mínimo dois ou três anos em cada filme. A única maneira é poder fazer algo diferente. Quase como terapia.

O seu fascínio pelos monstros e o seu lado de estarem sempre do lado de fora é algo que vem de ser, pelo facto de ser mexicano?

E porque sou doido varrido! Se pensarmos em cinema, faço alguns filmes por um milhão e outros por 96 milhões. Não pertenço a uma categoria. São demasiado género para o lado mais artístico e sou muito artístico para o género (risos). Existo num lugar em que posso respirar. É aqui que posso respirar, porque faço como quero, mas poderia ter feito 20 filmes em vez de dez. Mas sou demasiado teimoso para deixar de fazer as coisas como quero. É claro que não é o mais fácil quando se quer arranjar financiamento.

Sentiu-se sempre como um outsider?

Eu era um garoto no México a pensar no Christopher Lee. No Lon Chaney, Boris Karloff… Conhecia o Terence Fisher, o James Whale. Sabe com quantas pessoas falava eu sobre isso? Nenhuma! Eu estava num outro lugar. Depois essa falta de sincronia que existe nos meus filmes vem do lado de ser mexicano. A vida e a morte não a vejo como um americano, o mesmo digo sobre a bela e o monstro. Sou completamente mexicano.

Onde acha que se encaixa The Shape of Water?

Vinte e cinco anos depois acho que é exatamente um filme meu. É o que posso dizer. Sou uma árvore que dá um certo tipo de fruto. É isso que faço.

Acabei de ver a experiência de realidade virtual aqui em Veneza e gostaria de saber o que acha sobre isso? É algo que o poderia tentar?

Acho que o filme Carne Y Arena, do Alejandro (Iñárritu) foi algo fantástico. Senti-me como o Lumiére mostrou o comboio a chegar á estação. Por isso é o início de uma linguagem nova. E o início de uma novo proposta de sintaxe. Mas não são filmes. É algo diferente. Mas estou curioso. Ao mesmo tempo, estou muito curioso pela vida em si. O cinema tal como o conhecemos vai mudar completamente nos próximos cinco, dez anos. Do meu lado, quero fazer mais dois ou três filmes nesta forma em que vamos ao cinema. Mas isso vai mudar. A forma como consumimos histórias tema ver como se apresenta uma narrativa. Só que hoje nos não sabemos se é verdadeira ou não. O mesmo se passa na arena política. Os downloads também mudaram tudo. Eu lembro-me de ir a San Francisco para ver o filme do Kurosawa num teatro Kabuki. Hoje um filme pode ser descarregado e ser visto onde quer que seja.

Entrevista de Paulo Portugal / Parceria Insider.pt

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