George Bernard Shaw, o dramaturgo da crítica

3 AGOSTO, 2016 -

George Bernard Shaw foi um homem à frente do seu tempo. A visão que cultivou assentou em premissas sociais que se opunham ao conservadorismo vigente então e foi tanto na literatura como na política que conseguiu imprimir a sua metodologia. Nascido a 26 de julho de 1856 em Dublin, capital irlandesa, no seio de uma família pouco abastada mas tradicional e protestante. Após descobrir a sua vocação para a escrita e após algumas experiências artísticas que lhe consolidaram essa ambição, o irlandês embarcou a solo com 20 anos para Londres, cidade na qual desenvolveu um regime educacional autónomo. Nesse regime, estavam as propostas políticas mais recentes de então, tais como as de Karl Marx e de Friedrich Engels, e travou conhecimento com as perspetivas mais arrojadas perante uma sociedade cujos pergaminhos não eram coniventes com visões vanguardistas. No entanto, Shaw não se deteve por esta circunstância e moldou a sua personalidade dentro do que acreditava ser mais justo e adequado para o bem-estar e prosperidade de todos. Vegetariano, socialista e crítico da arte que se produzia então, conquistou um lugar prestigiado no que toca à construção de críticas da produção musical e dramática então. Foi com este sustento que Shaw deu continuidade à luta pelo grande sonho da sua vida e obra: escrever e difundir o que pensava e o que lhe apoquentava. A escrita como extensão do seu ser em palco, no tão seu teatro.

Imaginar é o princípio da criação. Nós imaginamos o que desejamos, queremos o que imaginamos e, finalmente, criamos aquilo que queremos.

Shaw e a criação imaginada

Neste trilho de sátira sócio-política e de alegorias históricas, deu um novo impulso à atividade dramática como interveniente e crítica da sociedade, inspirando-se essencialmente no dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Três das suas maiores produções escritas foram “Man and Superman” (1902), “Pigmalião” (1912) e “Saint Joan” (1923). A primeira peça remonta a dois indivíduos de gerações distintas e com óticas bem diferentes que são deixados na tutela da filha de um homem de família. Esta possui um paralelismo com o mito Don Juan, em que o mais jovem desses dois homens assume um papel de descendente da figura desse libertino.  A segunda conta a história de uma humilde jovem florista que conhece um conceituado professor de fonética que a torna apta para se inserir num contexto social formal como dama de alta sociedade. O título desta obra relaciona-se com o mito homónimo da cultura grega, que se refere a um escultor cipriota que se apaixona pela estátua que esculpia. Afrodite, considerando a escultura uma representação da mulher mais bela que alguma vez vira reproduzida, decide torná-la animada por desejo do artista, que se casa com a mesma. Por fim, o terceiro alude à vida e ao julgamento de Joana d’Arc, guerreira francesa que ostentava o nome de Deus diante das forças inglesas na Idade Média e que seria futuramente beatificada. As dezenas de peças que compôs e que redigiu culminaram no Prémio Nobel da Literatura em 1925 (que aceitou com relutância mas que dedicou ao país que o viu nascer) e até num Óscar em 1938 na adaptação de “Pigmalião” à sétima arte. A linguagem tragicómica e bastante simbólica que empregava no seu discurso cénico permitia a veiculação de uma subtileza que o tornou distinto dos demais dramaturgos de então, maior parte arreigados aos preceitos da arte romancista vitoriana.

De volta à sua visão política, Shaw associou-se ao emergente socialismo fabiano através da redação de folhetos, nas quais difundia os seus valores e observações políticas. Esta organização socialista de origem britânica defendia a imposição gradual e fluída dos valores social-democratas no âmago das democracias, propondo também alguns conceitos progressistas que viriam a tornar-se termos comuns no presente século. Salário mínimo, igualdade de género e sistema nacional de saúde foram algumas das ideias que viriam à tona nesta resposta aos desafios que a revolução industrial e a nova dinâmica fabril despoletavam. Foi este movimento o responsável pela fundação da London School of Economics, instituição na qual vários nomes de destaque se graduaram, como o filósofo Karl Popper ou o economista Friedrich Hayek. Porém, algumas das visões de Shaw no que toca à política destoavam da essência do movimento fabiano. Este afastamento foi sendo desencadeado pelas fraturantes opiniões que ia emitindo nos seus panfletos, tais como a culpabilização de todos os agentes participantes na Primeira Guerra Mundial. Promotor da eugenia e alheio à religião organizada e à vacinação, o irlandês viu as suas convicções desvincularem-se dessa corrente socialista e aproximarem-se com admiração às ditaduras de Mussolini e de Estaline.

O progresso é impossível sem mudança. Aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada.

Shaw e a mudança

Foi desta forma sui generis que George Bernard Shaw revolucionou a literatura no século XX, em especial no que toca ao teatro. O irlandês, que faleceu com 94 anos a 2 de novembro de 1950, sempre se revelou como alguém bastante proativo e expressivo no que aos seus ideais e visões concerne. Tanto na representação como na ação se mostrou ambicioso e profícuo, nunca se acomodando na inércia e na porosidade da passagem do tempo. Shaw nunca se rendeu a essa unidade que ia crescendo em número e extensão enquanto o mesmo ia dando palavras e ação a pensamentos e crenças. A partir do palco da arte, Shaw dava uma via de interpretação ao que acreditava ser a sua realidade. A partir do palco do seu teatro até à realidade da sua vista, da sua irreverência, da sua diferença. Ao lado de nomes como Samuel Beckett, Eugene Ionesco e Bertolt Brecht, Shaw desenhou esta nova forma de se fazer e de se viver teatro. Com a sociedade por perto, dando por si a tomar conhecimento da crescente eternidade da artística realidade. Ecoam os aplausos e faz-se a devida vénia.

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