‘GEMINI’, o pop rap de Macklemore desaponta

4 OUTUBRO, 2017 -

Não há como negar, quatro anos depois do lançamento, que “Thrift Shop” teve um grande impacto na música mainstream, e que permitiu a Macklemore e Ryan Lewis atingirem um estatuto de celebridade talvez nunca sonhado pelos artistas. A união do rapper com o produtor revelou-se frutuosa para a carreira de ambos; e, além do já referido intoxicante tema (aquela linha de sopro teima em não sair da cabeça), “Can’t Hold Us” ou “Same Love” elevaram The Heist (o primeiro álbum do grupo) a um estatuto de fama mundial. O projecto acabou mesmo por ser engolfado por uma chuva de prémios, incluindo o Grammy de melhor álbum rap em 2014 – num ano em que o fantástico good kid, m.A.A.d city, de Kendrick Lamar, também estava nomeado. Não há como negar que good kid, m.A.A.d city é objectivamente melhor que The Heist; mas a questão não é essa: ganhar um Grammy é cada vez mais um concurso de popularidade, e, muito provavelmente, em 2013 não houve música de hip hop mais popular que “Thrift Shop”.

No seu álbum de estreia, Macklemore e Ryan Lewis apresentaram músicas com a adição de elementos pop, destinadas a alcançar uma audiência mais abrangente que o típico fã de hip hop. O que fica na cabeça não é a qualidade das rimas de Macklemore, mas sim a produção arrojada, aliada a um refrão cativante e facilmente imitável pelos fãs. Ninguém disseca as letras que Macklemore escreve; não há um significado maior. O rapper diz o que pensa da maneira mais clara possível, mostrando uma certa ingenuidade; e, de forma geral, uma qualidade que deixa a desejar. Para o seu mais recente projecto, GEMINI, Macklemore não conta com Ryan Lewis (uma separação amigável e temporária, segundo o rapper de Seattle), depois de terem colaborado em This Unruly Mess I’ve Made, o segundo álbum do duo (2016) – um projecto bastante desapontante. Neste novo álbum as fragilidades líricas de Macklemore são mais uma vez expostas. E, desta vez, sem a produção agradável de Ryan para o desculpar.

No entanto, o principal problema de GEMINI não são as rimas (quem é que ouve Macklemore pela sua inspirada sagacidade lírica?). O problema é a faceta genérica do projecto, a maneira como se deixa influenciar pelo panorama actual de hip hop, e constrói uma compilação banal de arrancar bocejos ao ouvinte. Isto seria mais desculpável se Macklemore inovasse a nível da sua discografia, mas o rapper limita-se a seguir as modas actuais. Arrisca algumas incursões por temas trap, e “Ten Million” é a mais honesta homenagem a este género.

Mas é em “Willy Wonka” que o rapper se afunda: a batida parece construída a partir de loops já existentes num qualquer software de produção musical, com uma ténue réstia de originalidade; e a participação de Offset é praticamente vergonhosa – mais do mesmo, deste membro do trio Migos. “Firebreather” é mais uma música de braggadocio, em que Macklemore se refugia por trás de um riff badalado e de uma batida que, novamente, parece retirada de uma biblioteca online de beats.

Seja pela produção ou pelos convidados, sente-se um clima de imitação a pairar um pouco por todo o álbum: “How to Play the Flute” junta uma batida trap a um ritmo de flauta serpenteante, que mostra que alguém andou a ouvir o “Mask Off” do álbum de Future lançado este ano. O teclado marcado de “Marmalade” é mais do que uma mera alusão a “Broccoli”, de D.R.A.M. e Lil Yachty, rapper convidado que curiosamente também aparece na música de Macklemore. O tema “Corner Store” parece qualquer coisa saída do universo de Chance the Rapper, e o timbre dos convidados só ajuda a essa comparação. “Ain’t Gonna Die” é produzida por Macklemore, e tem uma sonoridade reminiscente do seu parceiro das batidas Ryan Lewis. Se a imitação é algo normal, e ainda que não se espere que todos os projectos lançados sejam radicalmente diferentes uns dos outros, neste caso as semelhanças são demasiado crassas para passarem ao lado.

E, apesar de já se esperar que as letras não sejam espantosas, não deixam de ter um peso importante num projecto de hip hop. Eis que logo na faixa de abertura – “Ain’t Gonna Die Tonight” – já sentimos algum constrangimento (“Life of a champion, ugh, so Freddie Mercury” – é preciso examinar atentamente esta obscura referência?). São vários os exemplos, mas alguns saltam mais à vista que outros: “How to Play the Flute” é detentora de um verso particularmente azedo em pleno refrão (“Emoji hands, I’m praying for them haters (Amen)”); e em “Firebreather” Macklemore gaba-se da sua destreza enquanto rapper, a quem basta um ad-lib para calar os haters (“I’d probably go double-platinum if I could think of an ad-lib”). Mas a música mais escandalosa a nível de letras é mesmo “Intentions”, em que o músico aborda o idealismo a que aspira e a sua realidade presente. Qualquer semelhança com uma reflexão profunda é puramente ficcional: Macklemore refugia-se entre exemplos básicos e que revelam uma tentativa falhada de aproximação empática aos first world problems do rapper. Não se pode negar que o artista se esforça para parecer empático, mas acaba por ser tão pouco pessoal que transmite falsidade, num processo frustrante em que parece roubar as barras que cospe de um texto modelo de rap.

Há alguns pormenores agradáveis a nível da produção. “Levitate” é, sem dúvida, a melhor batida: um boom bap perfumado por uma linha de baixo com muito corpo. “Zara” surge como uma música fofinha, com uma batida igualmente açucarada. Mas as melhores músicas do álbum não se encontram apenas pelas batidas; o que acaba por resultar mais eficazmente são os temas que representam fielmente o modus operandi de Macklemore. São músicas de sinceridade, de coração aberto; ou temas que reflectem aquele sentimento de cumprir da vida, de sonhos realizados, de vitória gloriosa, como a sequência de três músicas que fecham o álbum: “Miracle” é uma faixa mais intimista e reflexiva, em que Macklemore pondera os seus demónios numa confissão alimentada a cordas, aliadas a um instrumental espaçoso e atmosférico, quase sem batida. “Excavate” funciona como uma retrospectiva da sua vida e do seu existir, um final calmo que contrasta com a atmosfera do álbum sem fugir ao que já estamos habituados de Macklemore. Mas, na terceira etapa desta fase de super estrelato da carreira de Macklemore, estes momentos surgem como uma repetição: parece que o artista já não tem nada de novo para mostrar.

Os dois primeiros versos de “Firebreather” descrevem perfeitamente a atitude de Macklemore em GEMINI: “Got a Guns N’ Roses T-shirt, and never listened to the band/ Just being honest, I just thought that shit looked cool”. O rapper constrói um álbum repleto de ritmos reciclados, várias rimas vergonhosas e uma falta de noção geral sobre como compor uma boa música. Fá-lo com honestidade, mas sobretudo para inglês ver, sem acutilância e profundidade. Porque se nos aproximarmos um pouco e tentarmos desvendar camadas, percebemos que não há praticamente nada de valor neste projecto. Equiparar Macklemore aos padrões de outros artistas do hip hop é irrealista. A sua carreira não aspira ao mesmo que os grandes da arte das rimas. Mas, enquanto não se inventa uma denominação que abarque o género do artista (sugiro cringe rap, parece-me o mais adequado), GEMINI surge como um dos piores projectos de hip hop de 2017.

Músicas preferidas: “Levitate”; “Ten Million” e “Miracles”

Músicas menos apelativas: “Marmalade”; “Willy Wonka”; “Intentions”; “Firebreather” e “How to Play the Flute”

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