‘Game of Thrones’: a realidade é muito mais fantástica do que a ficção

22 JULHO, 2017 -

George R. R. Martin confessou, em entrevistas, ter lido muitos livros sobre as Cruzadas e sobre guerras, como a dos Cem Anos e a das Rosas, para formar uma sociedade medieval verosímil. A sua intenção não era fazer um romance decalcado da História, mas ir beber na realidade ideias e conceitos que lhe permitissem escrever algo que fosse lido com interesse e que até pode fazer-nos pensar nas nossas vidas. O sexo, a morte, o combate pelo poder têm sido uma constante no percurso da humanidade até aos dias de hoje. Nestas páginas deixamos algumas das pistas que o autor seguiu.

A Muralha de Adriano só não era de gelo  

A Muralha de Adriano é uma fortificação erigida para dividir o norte da atual Inglaterra, sob o domínio romano, da atual Escócia. O imperador Trajano determinou que se iniciasse a construção de uma muralha, estrutura defensiva com a função de prevenir as surtidas militares das tribos que habitavam a Escócia – os pictos e os escotos (denominados caledónios pelos romanos) – e assinalar o limite ocidental dos domínios do império. O autor da “Guerra dos Tronos” confessou que esta foi a sua inspiração para a muralha de gelo: “O que se dizia dos escoceses, na época, não era muito diferente de como aparecem caminhantes brancos.”

A Guerra das Rosas e os sete reinos

A Guerra das Rosas foi uma série de lutas dinásticas pelo trono de Inglaterra ocorridas entre 1455 e 1485, durante os reinados de Henrique VI, Eduardo IV e Ricardo III. Em campos opostos encontravam-se as casas de Iorque e de Lencastre, ambas originárias da dinastia Plantageneta e descendentes de Eduardo III, rei de Inglaterra entre 1327 e 1377. A Guerra das Rosas foi motivada por problemas económicos e sociais decorrentes da Guerra dos Cem Anos, combinados com o reinado fraco de Henrique VI, que perdeu muitas das terras francesas conquistadas por seu pai e foi severamente questionado pela nobreza. Esta inspiração é assumida na série, em que o mapa dos sete reinos é parecido com o da Grã-Bretanha.

Janízaros mamelucos e os imaculados

Os imaculados, combatentes de elite escravos que são criados para lutar desde a infância e fazem parte das tropas de Daenerys Targaryen, da tormenta e do sangue da antiga Valyria, são assumidamente baseados em castas de escravos guerreiros como os mamelucos do Egito ou os janízaros da Turquia. Ambos eram constituídos por escravos educados desde crianças para combater e tornaram-se poderosos sustentáculos do poder, até quererem, como os mamelucos, instrumentalizar e tomar esse mesmo poder. Em 1811, os mamelucos foram exterminados por Mehmet Ali, considerado o fundador do Egito moderno.

Massacre de Glencoe é quase o sangrento noivado 

O Red Wedding, em que grande parte dos chefes dos Stark são liquidados, tem vários antecedentes reais. George R. R. Martin afirmou que a história da Escócia, com os seus episódios de crueldade, foi uma grande fonte de inspiração para a sua saga “Canções do Gelo e do Fogo”. Neste caso concreto, uma das inspirações reais foi o massacre de Glencoe, em que 38 membros do clã MacDonald foram liquidados por elementos convidados que estavam hospedados pelas vítimas, com o pretexto de não terem sido suficientemente rápidos a jurar fidelidade aos novos monarcas. O massacre, que começou a 13 de fevereiro de 1692, estendeu-se a várias terras.

Os Templários são a patrulha da noite

A Patrulha da Noite é, na “Guerra dos Tronos”, uma irmandade ajuramentada, constituída por homens em pé de igualdade mas de todas as proveniências sociais, que tem como missão garantir que os selvagens e os caminhantes brancos não consigam ultrapassar a grande muralha de gelo que defende os sete reinos.
O modelo de irmandade guerreira parece ser muito influenciado pelas numerosas congregações de monges guerreiros existentes na Idade Média, como os Templários. Os membros da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão também fizeram o voto de pobreza e castidade, como os seus irmãos imaginários da Patrulha da Noite.

Tywin Lannister é baseado em Warwick The Kingmarker 

Quando Tywin Lannister dá uma descompostura ao filho, o rei, e o manda dormir, o outro herdeiro diz-lhe: “Mandou dormir o homem mais poderoso do reino.” Tywin replica que se ele o acha poderoso é porque ainda não percebeu nada. Até à sua morte, Tywin é o homem que manda. O seu perfil tem muito de Ricardo Neville (conde de Warwick), apelidado “fazedor de reis” pela capacidade de, quando mudava de campo na Guerra das Rosas, alterar o tabuleiro. Iniciando o conflito do lado da Casa de Iorque, tornou-se apoiante dos Lencastre em 1468. A subida ao trono de Eduardo IV, bem como de Henrique VI, devem-se a vitórias suas no campo de batalha.

Os Hunos e os Dothrakis

Os Dothrakis, de quem Daenerys se torna rainha depois de ter queimado os chefes que se lhe opunham, são parecidos com uma série de povos, desde os índios americanos até aos mongóis. Mas é nos hunos e nos guerreiros de Gengis Khan, que conquistaram grande parte do mundo, que o escritor bebeu maior inspiração. Gengis Khan nasceu cercado de lendas sobre a vinda de um lobo cinzento que devoraria toda a Terra. Jovem, matou um enorme lobo cinzento. Conquistou a liderança dos clãs e unificou os povos mongóis sob seu comando. Passou a Grande Muralha, conquistou a China e estendeu o seu império.

A idade média antes do absolutismo

A Idade Média é o período da história da Europa entre os séculos V e XV. Inicia-se com a queda do Império Romano do Ocidente e termina durante a transição para a Idade Moderna. Depois da queda de Roma e até ao estabelecimento de monarcas absolutos, grande parte dos territórios europeus vivem em permanentes guerras entre senhores feudais que procuram conseguir o domínio absoluto. Toda a imagética da Idade Média, com a sua crueldade e os seus conflitos religiosos, como o aparecimento dos pardais, na série, estão espelhados na saga “Canções do Gelo e do Fogo” e na série televisiva. Um manual de lutas pelo poder.

Artigo escrito por Nuno Ramos de Almeida, publicado no nosso parceiro jornal Sol

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