Gabriel García-Márquez, o autor das fantasias reais

6 MARÇO, 2017 -

De jornalista a autor, de ativista a político, de editor a conceituada figura da literatura do século XX. O colombiano Gabriel García-Márquez viveu uma série de peripécias, série essa que radicou na personalidade lisonjeada e reconhecida globalmente. Como pai do realismo mágico, deu à luz uma nova forma de se narrar e dos próprios momentos a serem narrados, dando à chama real dos acontecimentos um misticismo e uma magia alheias à tradicional abordagem terrestre. Mais do que cem anos de solidão, são aqueles que ele vive e viverá na companhia daqueles que o estimam pelos tempos e pelos momentos mágicos proporcionados. Mais do que um Nobel, deixa uma inspiração, um rastilho imaginário que coloca tudo e todos em busca da pegada de magia que a história e a realidade suscitam na confirmação do bem e na afronta do mal.

Gabriel José de La Concordia García Márquez nasceu a 6 de março de 1927, no município de Aracataca, na Colômbia. Tendo dez irmãos, os pais mudaram-se precocemente para Barranquilla, deixando o futuro escritor ao cuidado dos avós maternos. Após a morte do seu avô, aos oito anos de idade do pequeno “Gabo“, – como seria conhecido desde então – passou a viver na casa dos seus pais, sendo o seu pai dono de uma farmácia.

Quando ele tinha oito anos, seu avô morreu, e ele se mudou para a casa de seus pais em Barranquilla, onde seu pai era proprietário de uma farmácia. Isto não se sucedeu antes dos seus avós terem estimulado a imaginação do rapaz, em especial o seu avô Nicolás Márquez, veterano na Guerra dos Mil Dias (guerra civil colombiana entre 1899 e 1902). Também a avó chegou a inspirar “Do Amor e Outros Demónios” (1994), fundamentado em lendas contadas por esta e que se baseia no enterro de uma criança que morre pela raiva, causada por uma mordidela de cão.  Este e a sua avó Tranquilina Iguarán seriam homenageados na sua grande obra “Cem Anos de Solidão” (1982), nas figuras de Buendía e Iguarán. Os estudos de Gabriel prosseguiram na cidade dos seus pais, essencialmente no Liceu Nacional de Zipáquirá. Antes de ingressar em Bogotá no estudo de direito e ciências políticas na universidade nacional da Colômbia, – licenciatura essa que viria a interromper em detrimento do exercício jornalístico em Cartagena das Índias – dedicou a sua adolescência ao fascínio por obras como “A Metamorfose”, de Franz Kafka, e “As Mil e Uma Noites”, proveniente do folclore oriental.

A prática jornalística iniciou-se assim no jornal El Universal, mudando pouco depois para o El Heraldo, tornando-se repórter em Barranquilla, e no El Espectador, aqui também como crítico. Nessa fase prolífica e ativa da sua vida, chegou a integrar um grupo de escritores, este que visava incentivar e promover a literatura nacional. Logo em 1958, com vinte e nove anos, tornou-se correspondente internacional na Europa, regressando pouco depois a Barranquilla para se casar com Mercedes Barcha, de quem teve dois filhos, de nome Rodrigo e Gonzalo. Em 1961, trabalhou também em Nova Iorque e, pouco depois, no México.

Tendo alguma experiência como crítico, para além das diferentes realidades com as quais interagiu, García-Márquez sentiu-se confiante para redigir sobre o traçado sócio-político do seu país e dos restantes que compõem a América do Sul. Estas obras seriam importantes para que a visão internacional se tornasse mais nítida e consciente das perturbações que assolavam o continente. No entanto, apesar da repercussão robusta na crítica, foi no romance e na criação fantástica que se destacou de forma repentina e volumosa. Tudo começou com “La Hojarasca” (1955) e “Ninguém escreve ao Coronel” (1961), mas foi “Relato de um Naufrágio” (1955 mas publicado em livro em 1970) que o talento criativo do colombiano se tornou difundido. Esta obra relata uma história verídica no papel de Luis Alejandro Velasco e do naufrágio que este sofreu. Publicada no periódico El Espectador, tornou-se anos depois em livro independente.

As suas três grandes obras seriam escritas entre 1965 e 1985, incluindo “Cem Anos de Solidão” (1967), “Crónica de uma Morte Anunciada” (1981) e “O Amor nos Tempos de Cólera” (1985). O primeiro narra a história da família Buendía, que ganha descendência na cidade fantasiada e utópica de Macondo. Esta cidade, que seria cenário de uma diversidade de outras obras da criação de García-Márquez, baseia-se na vila de onde o colombiano é natural, mas  O livro aborda sete gerações genealógicas desta família e viaja pelas peripécias vividas pelos diferentes descendentes da mesma, para além do mistério místico que subjaz nas suas vidas.

“Um único minuto de reconciliação vale mais do que toda uma vida de amizade.”

Gabriel García-Márquez, in “Cem Anos de Solidão”

Esta obra, tornando-se numa das mais traduzidas numa perspetiva internacional e dando o mote para a galopante produção literária sul-americana, reflete as linhas pelas quais se cose o Realismo Mágico. Colocando a história ancestral da América do Sul ao serviço da narrativa e da ficção, originam-se novos mundos nos quais, não obstante os mitos viverem e remanescerem, a lenda e a ficção se mesclam na criação de uma nova realidade, capaz de estar numa relação estreita e vincada com aquela em que todos vivem. Assim, permite também refletir sobre a realidade nacional e sobre a possibilidade de ir para além das minudências, chegando até à transcendência individual e social.

“Crónica de Uma Morte Anunciada” segue o registo e a exploração conceptual jornalística que Márquez usou no início da sua carreira. Neste caso em particular, expõe a história de um assassinato às mãos de dois irmãos criminosos. Por sua vez, “O Amor nos Tempos de Cólera” expõe a história de amor que liga duas pessoas que não se contactam ao final de quase cinquenta e dois anos mas que não se esquecem desde os seus tempos de jovens. Entre outros romances e contos curtos, foram estes os predicados que levaram o colombiano a ser galardoado com o Nobel da Literatura no ano de 1982. No final da sua carreira literária, e sabendo que padecia de cancro no linfa, redigiu a sua autobiografia e publicou-a em 2002, cujo título é “Viver para Contar” e onde desvenda que o seu grande mestre literário é William Faulkner, experimentalista e até ativista por natureza.

“A Humanidade, como um exército em campo, avança à velocidade do mais lento.”

Gabriel García-Márquez, in “O Amor nos Tempos de Cólera

Para além do explicitado realismo mágico, a sua obra destaca-se pela versatilidade e pela independência de cada uma, existindo um mundo por trabalho do autor. De forma a favorecer a integração do autor no momento da leitura, o colombiano deixou protagonistas de algumas obras – como “Ninguém Escreve ao Coronel” – sem nome. Nesta omissão de detalhes fulcrais da narrativa, foi influenciado pelas tragédias gregas, nas quais as incidências mais importantes das histórias não ocorrem no palco ou perante a atenção do leitor. Também a solidão é sobejamente estudada, explorando não só a individual mas a do próprio amor e do próprio sentimento de paixão e de apreciação do outro. O próprio discurso de aceitação do Prémio Nobel, nomeado “Solitude of Latin America” exorta para essa crescente solidão em padrões de interpretação cada vez mais próprios e unidimensionais.

A violência é o prato principal de outras obras dele, tais como “La Mala Hora” (1962) e “La Hojarasca”. Várias situações conturbadas e atitudes de repressão são tomadas e vividas nestes trabalhos, com o primeiro a caraterizar a desintegração social levada a cabo pela “la violencia“. Porém, e não estando longe de caricaturar a natureza corrupta e injusta desses anos 60, García-Márquez abdicou de assumir uma postura propagandística, afirmando que aquilo que move é o leitor é precisamente a exposição dos factos e a possibilidade de penetrar e explorar a realidade. Viajando pela história dessas quezílias, também escreve sobre a solidão que o poder transmite e as tormentas da vida de um ditador em “El Otoño del Patriarca” (1975), e ficciona os últimos anos do revolucionário Simón Bolívar em “O General No Seu Labirinto” (1989).

“O mundo avança. É verdade, disse eu, avança, mas dando voltas em torno do sol. (…) Os adolescentes da minha geração, alvoraçados pela vida, esqueceram em corpo e alma as ilusões do futuro, até que a realidade lhes ensinou que o futuro não era como o sonhavam, e descobriram a nostalgia. Ali estavam as minhas crónicas dominicais, como uma relíquia arqueológica entre os escombros do passado, e aperceberam-se que não eram só para velhos mas também para jovens que não tivessem medo de envelhecer.”

Gabriel García-Márquez, in “Memória das Minhas Putas Tristes” (2004)

Também no cinema o sul-americano se envolveu, chegando a ser guionista em vários filmes, incluindo “Fábula de la Bella Palomera” (1987), do moçambicano Ruy Guerra; para além de ter participado em alguns filmes, de ter estudado em Roma e de criar instituições de formação e de fomento na capital cubana de Havana. Em 1990, conheceu duas das suas referências cinematográficas, sendo estas Woody Allen e Akira Kurosawa. De muito ajudou ter uma literatura que favorecia a criação de impressões visuais e invisíveis para a mente mas suscetíveis de serem apreciadas pelo coração. Para além destes tributos, também a sua obra recebeu diferentes adaptações cinematográficas de vários realizadores, como o italiano Francesco Rosi (“Crónica de Uma Morte Anunciada”) e o mexicano Miguel Littin (o conto “A Viúva de Montiel”).

Comunista e socialista de valores e de convicção, lamentou o estado a que o Chile chegou com Augusto Pinochet, condenando a morte do estadista Salvador Allende. O sul-americano escreveu sobre a história africana, para além de louvar a influência cubana em Angola e na África do Sul em períodos conturbados destes. Embora tenha estabelecido uma relação próxima com Fidel Castro, não deixou de criticar os extremismos da administração do coronel. Para esta posição de esquerda apregoada pelo escritor, muito contribuiu a opressão social e cultural que se sucedeu no seu continente e a influência norte-americana nos países cujas liberdades foram colocadas em causa.

Superado temporariamente o cancro linfático, Márquez acabou por ser diagnosticado com uma demência, perdendo a memória e não podendo voltar a escrever. Esse tempo angustiante findou a 17 de abril de 2014, quando “Gabo” foi vitimado por uma pneumonia e partiu na Cidade do México. De muito contribuiu a proliferação das células cancerígenas pelos seus pulmões, para além dos gânglios e do fígado.

Não obstante as adversidades políticas, sociais e ao nível da sua saúde, Gabriel García-Márquez apresentou e foi o rosto da explosão literária sul-americana do século XX. Baseando-se no exotismo e no misticismo muito próprios e comuns da identidade cultural desta região, o colombiano deu expressão a uma galáxia de planetas nos quais as suas obras orbitam em torno do seu génio. Uma fantasia sem excedentes que ganha solidez no método jornalístico empregue em diversos trabalhos e ambição na capacidade que os seus escritos tinham de contagiar e de maravilhar os leitores. Tal como os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, deu asas e rumo a uma literatura que estava destinada a chegar muito além do sítio onde se criou. Do pequeno e pouco numeroso continente para o mundo inteiro, não esquecendo as criações imaginadas e fantasiadas. É nesta senda que “Gabo” se pode gabar de um imaginário fascinante onde a realidade mergulha de forma extasiante e confiante.

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