Frederico Lourenço: ‘Tenho bastantes características que me aproximam de um eremita’

9 MAIO, 2017 -

A traduzir a Bíblia do grego desde 2014, Frederico Lourenço  continua 100% dedicado à sua missão. Lamenta já não ter tempo para tocar cravo, por exemplo, mas sente que o atual projeto é fundamental para o que quer fazer a seguir: escrever a «história dos dois primeiros séculos do cristianismo».

Gostava que me falasse do prazer de ler estes textos em Grego. Pelo facto de se tratar de uma língua antiga permite um contacto mais direto com aquela época e, de certa forma, até com o sagrado?

Ler os textos em grego tem a suprema vantagem de eliminar os dilemas da tradução. Há tantas expressões que parecem estranhas e opacas aos nossos olhos quando as lemos em português, mas que em grego são perfeitamente lógicas. Um caso nevrálgico nos textos que integram o 2.º volume da minha tradução é o vocabulário da ‘justificação’ nas cartas de Paulo. As frases gregas baseiam-se num jogo de palavras entre o verbo e o substantivo, mas também na utilização da voz ativa e passiva do verbo. Tento nas notas dar conta dessas dificuldades, mas tenho a consciência de que o contacto direto com o autor fica sempre cortado na tradução. Não me canso de dizer que, para chegarmos ao pensamento de Paulo, é imprescindível lermos os textos na língua original.

As epístolas de Paulo eram cartas comuns, parecidas com as cartas que enviamos hoje?

Nós lemos as cartas de Paulo inseridas num livro gigantesco que é a Bíblia. Mas não foi para essa finalidade que elas foram escritas. O que de mais fascinante existe para mim na leitura do Novo Testamento é voltarmos ao contexto real, histórico, em que os textos foram escritos, o que nos ajuda a sentir a realidade do primeiro cristianismo, poucas décadas após a morte de Jesus. Para mim isso é muito mais interessante do que lermos o Novo Testamento à luz daquilo em que o cristianismo se transformou.

Havia alguma coisa parecida com correios naquela época ou seguiriam pela mão de um amigo ou viajante?

Acredito que fossem amigos e pessoas da confiança de Paulo que levavam as cartas.

Qual seria o seu suporte físico?

O suporte seria certamente o papiro. Há em Dublin um papiro de meados do século II com secções bastante bem conservadas da 2.ª Carta aos Coríntios. Já se trata de uma cópia de outras cópias, até porque não se acredita hoje que a 2.ª Carta aos Coríntios tenha a forma que Paulo lhe deu, já que se trata de uma antologia de várias cartas, mas ver esse papiro é emocionante, porque nos ajuda a ter a impressão visual do texto que os primeiros leitores teriam tido.

Diz-nos num dos textos introdutórios que as Cartas Pastorais estão repletas de sentimentos misóginos, homofóbicos, antissemitas e esclavagistas. Considerando cristãos certos valores de compaixão, respeito e humanidade, encontramos na Bíblia muitas passagens que poderíamos considerar anticristãs?

Todo o Novo Testamento obedece a uma agenda que podemos rotular de ‘polémica contra os judeus’. Por isso os romanos são ilibados do estatuto de inimigos dos primeiros cristãos: esse estatuto é atribuído aos judeus. Isso é visível nos evangelhos, em que se fala negativamente de ‘os judeus’ como se Jesus e os seus discípulos não fossem judeus e se carrega a responsabilidade dos judeus na morte de Jesus ao mesmo tempo que se esbate tanto quanto possível a romana. Vê-se nos Atos dos Apóstolos, em que as autoridades romanas são apresentadas de uma maneira positiva e até Paulo é apresentado como cidadão romano (embora essa cidadania seja questionada pelos especialistas). Para lá da agenda de ‘polémica contra os judeus’, há também a agenda de ‘contemporização em relação aos romanos’. É à luz dessa realidade que devemos entender o célebre capítulo 13 da Carta aos Romanos, decerto a passagem da Bíblia que mais terá agradado ao longo da história a ditadores que se aliaram às igrejas cristãs. Esse capítulo tanto legitimou o casamento de conveniência entre Salazar e o Cardeal Cerejeira como legitima hoje a relação entre Putin e o Patriarca Ortodoxo russo. Em relação aos escravos, eu acrescentaria que esse nosso sentimento moderno de que a escravatura é intrinsecamente anticristã é anacrónico. Há passagens nas epístolas paulinas que afirmam que o dever cristão do escravo é ser submisso e que deve aceitar sem queixa os maus-tratos do dono. Os bispos reunidos no Concílio de Elvira, em inícios do século IV, estabeleceram que uma senhora cristã que espancasse a sua escrava até à morte ficava somente impedida de comungar temporariamente. Isto contrasta com a determinação dos mesmos bispos, segundo a qual a mulher que abortasse ficava impedida de comungar para sempre.

Paulo diz-nos que foi espancado, preso, chicoteado, vergastado, apedrejado. Estes eram tempos violentos?

Não eram mais violentos do que os tempos atuais. Veja o que se passa hoje nas prisões da Síria. Toda aquela zona, correspondente ao que é hoje Síria, Israel e Jordânia, é palco dos mais atrozes crimes contra os direitos humanos, já desde os tempos dos assírios e babilónios. Basta lermos o Antigo Testamento, com os ecos que nos traz das atrocidades cometidas nas conquistas das cidades, para percebermos que o ser humano não mudou. No caso de Paulo, é curioso que os maus-tratos por ele sofridos, que são descritos no Novo Testamento, tenham tido por origem agentes judeus, e não romanos.

O capítulo 13 da 1.ª Carta aos Coríntios é um verdadeiro ‘bestseller’ dos casamentos porque fala de amor, embora por vezes essa palavra seja traduzida por ‘caridade’. A que tipo de amor se refere? Amor a Deus, amor ao próximo (no sentido cristão) ou amor humano, do tipo de estar apaixonado?

É quase irónico essa passagem ser lida nos casamentos. Só faria sentido se o projeto de vida dos noivos fosse viverem em castidade e não consumarem o casamento (projeto que era normal entre casais cristãos nos tempos do primeiro cristianismo). A palavra grega é ‘agápê’, que designa em grego um amor não-erótico. Para evitar confusões com a palavra latina ‘amor’ (que dificilmente seria entendida por falantes do latim como tendo por referência um sentimento não-erótico), a Vulgata dá-nos a ler nesta passagem ‘caritas’. Mas não faz qualquer sentido, em português, traduzir ‘agápê’ por ‘caridade’.

O livro do Apocalipse é rico em imagens e tem inspirado inúmeros criadores. Acha que na sua origem pode ter estado uma espécie de delírio ou iluminação? Ou trata-se, antes, de uma pura criação literária?

Penso que se trata de uma criação literária. O livro de Apocalipse é uma reescrita cristã do livro de Ezequiel. Basta lermos este livro profético do Antigo Testamento para percebermos que uma grande parte da aparente originalidade do Apocalipse se esvai. No entanto, é um livro magnífico, cheio de sumptuosidade imagética. Devo dizer que foi um dos textos que gostei mais de traduzir.

Já visitou alguns dos lugares da Bíblia?

Não visitei ainda, mas quero um dia conhecer Israel. No entanto, a validade de conhecer os sítios é relativa, quando se trata do Novo Testamento. Já desde os século XIX os historiadores duvidam se Mateus, Marcos e Lucas conheciam os lugares de que falam, por causa dos famosos erros de geografia nos evangelhos. Por outro lado, sou muito cético em relação à débil facticidade do turismo bíblico que se tornou moda a partir do século IV. O que é que interessa ir a Belém visitar a igreja que marca o local onde Jesus nasceu, se já desde o século XIX o estudo crítico do Novo Testamento mostrou a improbabilidade histórica de Jesus ter nascido em Belém? Em Ítaca também mostram aos turistas a gruta onde Homero supostamente escreveu a Odisseia, mas a própria Odisseia mostra que o autor nunca esteve em Ítaca.

Disse numa entrevista que aprendeu a tocar piano e que, embora não tenha seguido a carreira de pianista, não dá esse tempo por desperdiçado. O que lhe ensinou a prática do piano, ou o que assimilou com esse treino, que lhe seja útil como tradutor, estudioso ou docente? 

A grande lição que aprendi com o estudo da música foi a disciplina e a aceitação do trabalho permanente como modo de vida. Um pianista é por definição alguém que, para manter a forma, estuda seis a oito horas por dia, todos os dias, sem fins de semana nem feriados. É uma vida de trabalho. A minha vida é assim também. O que dá sentido à minha vida é o estudo. Traduzir a Bíblia para mim é sobretudo estudá-la a fundo. Tenho pena nesta fase de não ter tempo para conciliar todos os meus interesses e de conseguir reservar um espaço para tocar cravo (já deixei de tocar piano há muitos anos). É uma ginástica grande fazer render um dia em que tenho de dar aulas e, ao mesmo tempo, arranjar espaço para o trabalho de tradução. O facto de o trabalho ser contínuo ajuda a manter a concentração. Se parasse durante duas semanas, levaria mais duas semanas a reencontrar o fio da meada.

O facto de viver em Coimbra permite-lhe estar mais resguardado de solicitações, e dedicar-se mais afincadamente à sua tarefa?

Gosto muito de viver em Coimbra. É uma cidade que condiz bastante com a minha personalidade. Não sou por natureza uma pessoa social, tenho bastantes características que me aproximam de um eremita. Felizmente, tenho a sorte de o meu marido André ser também como eu, portanto estamos muito bem no nosso eremitério.

Por vezes, quando lemos livros muito grandes, a alturas tantas queremos passar para o livro seguinte, para descobrirmos coisas novas sobre outros assuntos. Isso não lhe acontece com a tradução da Bíblia?

Até agora não me aconteceu. Este projeto só é fazível se eu estiver focado a 100%. Tenho ideias para escrever outras coisas quando tiver terminado a tradução da Bíblia, mas sinto este projeto de tradução como a preparação necessária para escrever no futuro sobre o tema que mais me interessa, que é a história dos primeiros dois séculos do cristianismo.

Já decidiu que destino dar ao valor do Prémio Pessoa? Permitiu-se alguma ‘extravagância’?

Bom, há um reinvestimento necessário no próprio projeto da Bíblia, que me tem obrigado a gastar quantias bastante avultadas em estudos, edições e comentários. Cada um dos seis volumes implica um dispêndio grande para obter a bibliografia necessária. Quando chegar ao fim do projeto, logo se verá.

Entrevista de José Cabrita Saraiva, publicada no nosso parceiro Jornal SOL
Fotografia de João Porfírio 

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