‘Francofonia’ e a metáfora para o nosso comportamento com a arte

22 JULHO, 2016 -

Há desde o início uma vontade de desafiar o espectador por parte de Alexander Sokurov neste seu mais recente filme Francofonia. O genérico, usualmente no final, aparece desde logo no início onde uma imagem estática, divida em metade preta e outra branca, onde a voz do realizador aparece tentando comunicar com o Capitão Dirk, cujo navio carrega contentores cheios de peças de arte durante uma conturbada tempestade.

Metáfora ou não é uma interrogação que surge desde logo e à qual temos resposta conforme o filme se desenrola, alternando com uma mestria (por parte de Sokurov) híbrida entre documentário e momentos ficcionados pelo realizador. Agora no Louvre, tal como já tinha feito em Arca Russa em 2002 sobre o museu Hermitage em São Petersburgo, Sokurov serve-se de um museu para passar uma mensagem, um pensamento, mas mais do que isso neste caso: uma reflexão intelectual e pessoal.

Esse barco em alto mar no meio da tempestade pode muito bem ser o próprio Louvre, agora, sempre, mas também no período abordado pelo realizador, o da ocupação nazi durante a Segunda Guerra. Aí, o director do museu, Jacques Jaujard (representado por Louis-Do de Lencquesaing) e o conde Franz Wolff-Metternich (Benjamin Utzerath), enviado do exército alemão, são as duas altivas figuras em confronto de presença. O primeiro, recusando-se a abandonar Paris, mas sobretudo o museu, guardião do tempo, da arte e da história, da civilização e das obras por ela criadas e o segundo, tentando “diplomaticamente” passar a tomar conta do recheio no museu.

Um filme em forma de abanão à necessidade de preservar o que de bom é feito (tendo o Louvre como pano de fundo e bastião escolhido). A arte aparece então como vítima daqueles que a fazem e as obras de artistas excepcionais que marcam o Mundo são em última instância destruídas, esquecidas e maltratadas de tempos a tempos, vítimas de uma quase distante e desatenta falta de cuidado e atenção daqueles que deviam ser os seus guardiões. Sokurov emerge nestes pensamentos chamando até si os grandes nomes como Tolstoi ou Tchekhov, a quem pede que acordem. Na realidade somos nós, os vivos, que precisamos de acordar, que precisamos desse tal “abanão”.

O Louvre é pois uma inabalável fortaleza, protector de memórias em forma de obras de arte, e cedo percebemos que a tempestade no meio do mar presente na sequência inicial do filme éramos e somos “nós”, useiros e vezeiros sem olhar a consequências dos nossos comportamentos que colocam em causa o que de mais eterno temos: o nosso património.

Um filme desafiante com recompensas imensas a nível do paladar intelectual para quem se dispuser a emergir nesta reflexão do realizador russo com uma disciplina estética aprumada (própria da grande escola soviética). A arte e a guerra não conjugam, a menos que estejamos a falar de um filme de Alexandrr Sokurov.

 

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