Francisco Vieira: “Petróleo continuará a ser a principal fonte energética nas próximas décadas”

29 MAIO, 2017 -

Todos os anos o mundo consome mais energia. Mas as geografias da oferta e da procura mudaram, devido à eficiência energética e à agenda das alterações climáticas.

O petróleo “é uma fonte de energia de que o mundo vai continuar a precisar”, pelo menos, nos próximos 20 ou 30 anos. Apesar da inovação tecnológica que resulta na eficiência energética e das alterações no mercado, a nível da oferta e da procura, esta é a previsão de Francisco Vieira.

Em entrevista ao i, a propósito do Dia Mundial de Energia que hoje se assinala, o professor da escola de negócios AESE e investigador com mais de 25 anos de experiência na indústria do petróleo diz ainda que, em Portugal, a prospeção de petróleo é uma atividade que morreu.

Chegámos ao fim da ‘Era do Petróleo’ ou isso é um mito?

É um mito. Mas também não é propriamente uma ideia sem justificação. É a fonte de energia de que o mundo vai continuar a precisar. Por causa das novas tecnologias, do desenvolvimento das novas descobertas que entretanto foram sendo feitas, em zonas anteriormente inacessíveis. E a própria eficiência no consumo da energia fez com que aquilo que eram reservas que continuam a ser finitas possam apresentar hoje perspetivas muito mais duradouras que apresentavam há 20 ou 30 anos. Não estamos no fim da Era do Petróleo. O petróleo e os hidrocarbonetos de origem fóssil continuarão a ser a principal fonte energética mundial, nos próximos 20 ou 30 anos.

O petróleo continuará a ser usado como fonte principal?

Não são expectáveis grandes surpresas relativamente àquilo que é a substituição do petróleo como fonte primária de energia nas próximas gerações. Mas na área dos transportes o veículo elétrico está a emergir, por isso é normal que assuma um protagonismo crescente. Mas vai demorar muitas décadas até que o petróleo seja integralmente substituído na área da mobilidade e dos transportes. O que vai acontecer, sim, é um consumo de energia muito mais eficiente. Os carros terão de consumir muito menos para conseguir movimentar-se a mesma coisa. Outra coisa muito interessante são os carros sem condutor. Essa é que é a verdadeira disrupção na mobilidade. No futuro, a sociedade vai organizar-se à volta de veículos em modo sempre partilhado. E isso vai reduzir o próprio consumo de energia.

Qual será o impacto na atual geoeconomia e geopolítica? Os principais produtores terão de encontrar outras fontes de rendimento…

É evidente que sim, com certeza que preocupará os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Mas é uma preocupação com gestão de recursos e não de uma migração para outras fontes. O principal motivo de preocupação geopolítica não tem tanto a ver com o petróleo ter deixado de ser usado para produzir eletricidade, mas com a produção de petróleo noutras fontes que não os países da OPEP e dos países produtores de petróleo. Isso é o que mais os preocupa, neste momento.

Está falar petróleo de xisto?

Estou a falar do shale gas, do shale oil nos EUA, que acabaram por desequilibrar esta harmonia cartelizada dentro do mercado do petróleo. De há um ano que a OPEP tem uma posição muito firme. Liderada pela Arábia Saudita, recusou-se a reduzir a produção, o que levou os preços a entrar em colapso e obrigou a própria Arábia Saudita a tentar corrigir essa posição com um acordo de redução que teve um efeito imediato. A OPEP no fundo fornece 40% a 42% da oferta mundial. Há também outros produtores como a Rússia.

Que teriam de embarcar também…

Também teriam de acordar e ter a mesma visão estratégica que a OPEP. Se é certo que a indústria do petróleo é vital para a sobrevivência destes países e também para os outros (a Rússia, a Noruega), os que estão fora da OPEP têm uma visão a longo prazo assente numa estratégia menos perturbada pelo curto prazo. A OPEP é diferente. Tem grandes problemas entre os seus membros, como por exemplo a Venezuela e Angola, que, de facto, não têm dinheiro para comer nem para alimentar as pessoas.

O preço baixo do petróleo tem vantagem para o consumidor. Mas limita a prospeção de novas fontes?

Absolutamente. A leitura destes temas na energia precisa de ser cuidada e de avaliar os diferentes impactos. Num país como o nosso, que é quase totalmente dependente de fontes primárias, é verdade que sim. Na área dos transportes, é evidente que o petróleo barato significa uma grande ajuda no próprio equilíbrio das finanças públicas do país. Se um barril de petróleo estiver a 120 ou 130 dólares teríamos bastante mais despesa e mais encargos e maiores dificuldades nas finanças públicas. Do ponto de vista dos países produtores, como Angola ou a Venezuela, assistimos a crises profundíssimas. Se o corte drástico do investimento, que tem vindo a ocorrer desde os finais de 2014, resultar em limitações significativas na produção, o que pode acontecer é voltarmos a ter um contraciclo e assistirmos a uma escalada dos preços, por causa do desequilíbrio entre a oferta e a procura no sentido contrário ao que temos hoje.

Porque a procura mundial continua a ser crescente, não é?

A procura mundial continua a ser crescente porque o mundo continuará a necessitar de mais energia todos os anos. O que acontece é que o progresso na forma como se consome ou produz energia resulta na necessidade de menos energia. Mas há sempre necessidade. Em termos absolutos, cada ano tem de se produzir mais energia do que no ano anterior, para continuar a alimentar o crescimento do mundo. Mas é um crescimento a duas velocidades. O mundo cresce em zonas de economias emergentes muito determinadas. O mundo ocidental típico OCDE não cresce, ou cresce muito pouco. Onde realmente se consome energia a nível global é na China e na Índia. A velha Europa Ocidental e os EUA consomem menos energia do que consumiram no ano passado e há dois anos.

Por causa da eficiência energética?

Por causa também de toda a agenda das alterações climáticas que fazem com que se tomem algumas decisões que têm impacto no consumo de energia. Não há dúvida que vamos continuar a necessitar de mais energia, mas não de tanta como necessitávamos há 30 ou 40 anos para fazer crescer a economia. Isso está muito alterado.

O mesmo contece com o gás natural, ou vive noutro paradigma?

O gás natural continua a ganhar quota no mercado energético mundial. Existe em grande quantidade no mundo e tem a vantagem de contribuir menos para a emissão de gases com efeito de estufa. Apesar de ser um combustível de origem fóssil, tem sempre esse selo, tem uma prestação muito favorável. Com a tecnologia para o extrair e para a sua distribuição tão desenvolvida, tem havido um recurso crescente ao gás natural em detrimento do petróleo e do carvão. E isso nota-se na produção de eletricidade. A maioria da produção de eletricidade, no mundo ocidental, é já com recurso a gás natural. Depende de país para país, há países muito ricos em carvão, como a Polónia, que tem de usar os seus recursos. Mas a nível global, o que se verifica é um aumento da quota do gás natural e uma diminuição das quotas do petróleo e do carvão.

Faz sentido a prospeção de petróleo e gás em Portugal?

Tenho de reconhecer que tenho assistido a alguns constragimentos a avanços. Há retrocesso. Houve, nos últimos 20 anos, algumas entidades interessadas na prospeção de hidrocarbonetos no offshore da costa portuguesa, do Minho até ao Algarve. Houve muita atividade, chamada sísmica, que é uma tecnologia que suporta a atividade de deteção.

Não só a petróleo e gás?

Pode haver muita matéria-prima ali armazenada. Muita prospeção teve lugar. Este é um negócio com um risco intrínseco elevado. Fazer uma sísmica, fazer uma prospeção é caro, perfurar um poço é caro. E aquilo que se pode encontrar pode não ser rentável do ponto de vista de exploração comercial, portanto, fecha-se. Isso acontece muito. Com o afinar da tecnologia, quem investe consegue minimizar esse risco. Mas a sensação que há dessa atividade sísmica é que aquilo que existe, ou pode existir, na costa portuguesa muito dificilmente é explorável ou comercializável. Há petróleo em Portugal, seguramente. Agora não será suficientemente atrativo, portanto é uma atividade que morreu.

Entrevista de Magalhães Afonso, publicada no nosso parceiro Jornal SOL
Fotografia de João Biscaia

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