‘Fraktur’ de Gilles Ribero, a coreografia de um Maestro

10 MAIO, 2017 -

É um filme realizado pelo jovem Gilles Ribero, um estreante no mundo da realização; produzido pela conhecida escola Le Fresnoy, marca presença, este ano, na Competição Internacional de Curtas do IndieLisboa. Traz um novo olhar sobre a vida, com ideias refrescantes, significativas e espontâneas.

Os 18 minutos da curta-metragem dão-nos um longo sentimento; de coexistência, de imensidão. Narram quase que um monólogo só, uma dança solitária de um Maestro em palco. Este envolve-se na música que o rodeia, e gesticula intensamente como se algo o preenchesse. É um filme que nos apresenta uma simples equação, cujos resultados são amplos e significativos. A ideia é inteligível; já aquilo que sentes sobre a ideia é altamente complexo e muito bem explorado.

O realizador segue aquilo que a música de Strauss lhe traz – uma das obras do fim da vida do compositor. É uma música complexa, que combina diferentes estados emocionais, por vezes emoções contrárias, que a tornam pesada. Gilles Ribero explorou os efeitos e as sensações da música, e combinou-as com o gesticular do maestro. A melodia é um dos principais elementos para o filme, porque essencialmente lhe traz toda uma estrutura.

O Maestro movimenta-se de forma densa e estruturada, tem como função liderar os músicos da orquestra. Sem músicos, o maestro não é nada, não tem nada. Esta dança a que o maestro se compromete, adensa-se com o passar da música, respira e transpira melodia, fica-se pelas notas íntimas da pauta e de si. Fala-se sobre este baile solitário, este diálogo sozinho entre o maestro e si mesmo. Uma orquestra inexistente, e um maestro ermo em cima de um palco cheio, uma autêntica luta individual dele com os seus pensamentos e sentimentos.

Fraktur é o título do filme. Vem com um propósito: é uma fonte de letra gótica, que Strauss também usava. Parece escrita à mão, e marca uma espécie de silêncio; assim que Fraktur entra no filme, ficamos com uma fusão entre a música, o cinema e o texto. Nesta curta-metragem a imagem também é composta por texto, os planos textuais narram os estados de espírito do maestro. O texto traz a ideia íntima, como se fosse um livro, ou um diário, em que lemos os seus pensamentos, como se o realizador escrevesse à mão uma conversa entre o público, a câmara e o maestro.

A esta coreografia do maestro junta-se uma memória corporal de um corpo melódico, cheio de notas, uma lembrança ao automatismo da escrita à mão que se assemelha à arte que o maestro traz. São técnicas que nos tentam mostrar como resolver os nossos problemas de comunicação. Por vezes falamos, e falamos, e nada resolvemos; por vezes escrevemos, outras vezes ouvimos, muitas das vezes ficamo-nos só pela vontade de comunicar.

A solidão chega na escuridão, tal como está o público numa sala de espetáculo, em silêncio, em uníssono. O mestre é o maestro, é a figura que se vê e que dança numa artificialidade sobre algo bem real, a música. Para o maestro, também ele pessoa, tudo respira com música, a música é a 1º arte, e é a arte que chega mais rápido ao ser humano. Esta respiração existe porque o maestro ouve e faz aquilo que gosta, como que o vento que passa. “ … O vento é precioso, sem ele ficamos sem fôlego”.

Tal como a câmara, o maestro também parece um impostor. A câmara segue-o nos seus movimentos, de lá para cá. Por isso o objecto que se filma, e a câmara, têm uma grande ligação entre si. Por vezes parecem um só, outras vezes parecem distintas e distantes. A câmara reflecte o Homem e a sua imagem, os seus movimentos surgem de forma natural e orgânica, tal como a expressão e o movimento do corpo. Ambos se encontram no mesmo espaço, e por isso fazem parte da mesma realidade.

A música pára, o maestro desaparece, e a câmara recua nas calhas do charriot. Deixa o maestro na sua conversação solitária, numa dança onde por vezes os movimentos são também eles invisíveis.

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Nos próximos dois meses vamos ter alguns filmes a tomar em conta e por isso mesmo decidimos fazer

Foi na “bota” da Europa que alguns dos melhores artistas de todos os tempos emergiram, tais com

Leonardo DiCaprio trará o icónico produtor musical dos anos 50, Sam Phi

O mês de fevereiro de 2017 pode não ter tido muito impacto na história mundial, mas teve na hist