‘Flores’, Jorge Jácome: a mais bela catástrofe

23 JULHO, 2017 -

Depois da estreia nacional no IndieLisboa, Jorge Jacóme estreia em Ponta Delgada, no festival Walk&Talk, o filme em que imaginou os Açores destruídos por uma praga de hortênsias.

Visitei os Açores no verão passado. O meu pai foi destacado para o quartel de São Gonçalo, na ilha de São Miguel, como sargento-mor, e eu fui com ele para filmar as ilhas repletas de hortênsias.” Essa planta originária do Japão e da China foi trazida no século xix por colecionadores para os Açores para depressa se apoderar da paisagem das ilhas. Isto no mundo real. Em “Flores”, que Jorge Jacóme veio filmar a São Miguel no verão passado como um dos artistas em residência do festival Walk&Talk, as hortênsias fizeram-se praga. Destruíram a flora nativa, apoderaram-se de estradas e de casas, tomaram por completo as nove ilhas e obrigaram à evacuação de todos os seus habitantes para o Continente.

Santa Maria, São Miguel, Faial, Graciosa, Pico, São Jorge, Terceira, Flores e Corvo, por todo o lado cresceram flores”, e vamos então dar neste “Flores” em que tudo será lilás com dois dos poucos soldados que sobraram para completar a operação: Andrade e Rosa. André e Pedro, que são mesmo André Andrade e Pedro Rosa, dois jovens açorianos que Jorge Jácome descobriu num longo processo de casting que começou a partir de França, onde vivia quando estava a preparar o filme, e completou em Ponta Delgada no ano passado, a guiarem o realizador, que é mesmo Jorge, por São Miguel, num documentário sobre esta catástrofe mais bela.

Ficção, documentário, ficção Filme dentro de filme, documentário dentro de ficção ou o contrário numa sobreposição de géneros que não acaba. Como as hortênsias que nos sonhos de André fazem o camuflado dos uniformes roxo e azul. “Tive um sonho que podias usar no teu filme”, diz, e quando chegamos aqui já não é sobre uma praga incontrolável este filme, é sobre aquela amizade, que é real. “Vim cá dois meses antes de filmarmos [fazer o casting] e um dos primeiros rapazes que conheci foi o André, por quem me apaixonei imediatamente”, recorda Jorge Jacóme sobre a preparação do filme que teve este ano estreia nacional no IndieLisboa (Prémio Novo Talento FCSH/Nova – Curta Metragem) e é esta noite projetado pela primeira vez nos Açores como parte da programação do Walk&Talk (9500 Cineclube, 21h30). “Por coincidência, um outro rapaz a quem tinha mandado mensagem pelo Facebook era realmente o melhor amigo do André, e isso acrescentou uma nova camada ao filme que é esta amizade entre eles, maior do que qualquer catástrofe, que passa a ser também um pretexto para poderem continuar juntos na ilha.

Veio então depois aquele cravar de um nome na madeira, com todos os nomes que André diz, numa lista do que poderão ser os últimos sobreviventes, não sabemos, que irá dar a uma procissão com uma santa rodeada por hortênsias, no mar. “Para mim é impossível pensar os Açores sem as catástrofes e sem uma certa religiosidade pagã, que vem associada às catástrofes”, explica o realizador, que fez belo o acontecimento mais “terrífico e triste”.

A minha família está toda no Continente. Falamos poucas vezes, uma vez por semana, por aí”, diz Rosa. “Se, por acaso, eu e o Pedro formos para o Continente, a ver se nos encontramos em Lisboa. Gostávamos de ver aquilo que filmaste.” Se isto foi ficção ou real, nunca saberemos. Melhor assim, é mesmo isso este filme de 26 minutos de Jorge Jacóme que, a propósito, visitou mesmo os Açores pela primeira vez quando o seu pai foi destacado para Ponta Delgada como sargento-mor.

Texto de Cláudia Sobral, publicado no nosso parceiro jornal Sol

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