Filipe Duarte Santos: “As pessoas nas cidades vivem numa redoma”

5 OUTUBRO, 2017 -

Especialista em alterações climáticas ajuda a perceber os impactos da atual seca. E explica como anos secos como 2017 acabam por não contribuir para um rumo mais sustentável

As alterações climáticas não são apenas um desafio para o planeta: vão exigir cada vez mais solidariedade e que cada um de nós se ponha nos pés dos outros quando há um cataclismo natural. O alerta é de Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável e perito em clima. Hoje, tecnologia e formação permitem mitigar alguns impactos, mas não conseguirão evitar todos os prejuízos.

O governo admitiu um agravamento da seca para os próximos três meses. Hoje já é possível fazer estas previsões a médio prazo com segurança?

Não é muito fiável. Tem havido um grande esforço em termos de investigação para se conseguir fazer estas previsões intersazonais mas não são muito fiáveis.

Mas há sinais que apontam para esse cenário?

Não está previsto haver precipitação nas próximas semanas. Para além disso, é difícil fazer prognósticos.

Este calor que tem estado parece mais sufocante. É algo a que nos devamos habituar?

É preciso perceber que estamos perante um aquecimento global. Nos últimos 55 anos, a temperatura média tem aumentado por década em média 0,2ºC em Portugal continental, o que significa um aumento de um grau no último meio século. As pessoas dirão: o que é isso de um aumento de um grau? É isto: períodos mais quentes como o que tivemos em setembro e por estes dias e ondas de calor mais frequentes.

E menos chuva.

Fazendo as mesmas contas, a precipitação em Portugal continental está a reduzir-se por década 40 milímetros, isto também nos últimos 50 anos.

O que significa essa medida?

A precipitação mede-se por altura. Quando ouvimos dizer que no furacão Harvey nos EUA choveu 1,3 metros, significa que a superfície ficou coberta no equivalente a 1,3 metros de altura de água. A nossa diminuição por década tem 40 milímetros, portanto menos 4 centímetros de água por década. Quanto é que chove em Portugal? Há locais no Alentejo onde chove à volta de 500 milímetros, meio metro. Se tirarmos 4 centímetros por década e multiplicarmos por meio século, dá menos 200 milímetros. É um décimo da precipitação anual que desaparece, o que é muito significativo. Claro que isto não significa que depois não haja anos em que chove muito.

Tem havido alertas de que as alterações climáticas não são uma ameaça: já chegaram. Este ano tem sido um bom exemplo disso?

O problema é esse: se não conseguirmos controlar as alterações climáticas elas vão tornar-se ainda piores do que já são. Isso vai-nos afetar muito – a mim não que já sou velho mas vai afetar sobretudo os seus filhos, os seus netos, bisnetos.

O mundo continua a perseguir acordos climáticos. Reduzir as emissões de gases com efeito de estufa teria um efeito no nosso tempo?

O efeito não é imediato, mas quanto mais atrasarmos essa diminuição mais tarde esse efeito se dará. E o problema é que continua a ser difícil convencer o mundo inteiro a fazer isto.

Os EUA com Trump recuaram.

Mas a nível geral há uma grande dependência do combustível fóssil, do carvão e gás natural. E depois há outra questão. Repare-se no que acontece em Portugal num ano como este, seco. Geramos menos eletricidade nas barragens, estão menos cheias, e em parte acabamos a ter de gerar mais eletricidade com carvão nas centrais térmicas do país.

Portanto o agravamento das alterações climáticas acaba por ser um ciclo vicioso.

É isso.

Acha que este ano a violência dos incêndios em Portugal mas também lá fora e as tempestades no EUA terão ajudado a reforçar o perigo das mudanças no clima?

É provável. Este ano, sobretudo nos EUA com vários ciclones tropicais, furacões e precipitação a bater recordes, talvez as pessoas comecem associar uma coisa a outra, o mesmo com os incêndios. Agora daí a tomar medidas é um passo. Mas, nos EUA, uma coisa é o governo federal e outra é o governo dos estados. A Califórnia tem políticas climáticas muito avançadas, comparáveis com as da Europa.

E por cá? Temos avisos para ondas de calor mais frequentes, secas mais prolongadas. Parece-lhe que o país está preparado para o que isso significa e vai significar no quotidiano?

É um bocado difícil responder. Penso que a maioria das pessoas ficaram chocadas, mesmo perplexas, com o que se passou nos fogos este ano. Mas esta seca, repare, é uma coisa que afeta sobretudo os agricultores. Esses, sobretudo os que têm gado e precisam de dar de beber aos animais, estão a ter verdadeiros problemas. Uma pessoa que esteja na cidade, vai ao centro comercial, vai almoçar normalmente, é como se não se passasse nada. Tem legumes, tem tudo.

Houve altura em que parecia haver menos frescos nos supermercados.

Mas importa-se.

Importações que também não contribuem para o tal ciclo das alterações climáticas.

Precisamente. O que se passa é que as pessoas nas cidades, sobretudo as que têm facilidade económica, vivem numa redoma. Numa cidade que tem parques, jardins que são regados, ter mais um dia de sol é agradável.

Se as decisões políticas fossem tomadas no campo e não na cidade haveria mais medidas de adaptação?

O que digo é que tem de haver por parte de todas as pessoas do país a consciência de que há setores que são mais afetados do que outros. Tem de haver uma certa preocupação, vontade e comprometimento de procurarmos resolver este problema. Dito isto, Portugal no contexto da União Europeia – e a UE no contexto mundial – estão bem posicionados neste esforço, o que já é um aspeto positivo. Por exemplo Portugal está bastante bem no que diz respeito às energias renováveis. Entre os países que têm mais geração de energias renováveis nos 28 estão a Suécia, Finlândia, Letónia, Áustria, Dinamarca, Estónia e Portugal.

Estamos na linha da frente.

Em 2015, o ano destes dados, gerámos 27% da energia em fontes renováveis. Se for um ano em que chove muito ficamos melhor posicionados. Num ano como este, menos.

O período crítico de combate aos fogos só foi antecipado depois da tragédia de Pedrógão Grande e só este ano passámos a ter uma comissão permanente para a monitorização da seca. Sendo conhecidos os alertas, o país não podia ser mais proativo?

Há alguns avanços. As alterações climáticas são conhecidas e o país tem uma estratégia nacional. Coordenei o projeto Climadapt-Local, que consistiu em fazer estratégias de adaptação para 26 autarquias, e os técnicos dessas câmaras ficaram um pouco mais sensibilizados. Portanto, há algumas câmaras que estão a avançar, mas claro que é preciso esse esforço a nível nacional.

Mas no caso concreto da fase Charlie, não fazia sentido começar mais cedo?

Sim, sem dúvida. Portugal tem um problema especifico com os fogos: é diferente do que se passa em Espanha apesar de terem um clima parecido connosco.

Temos a maior área ardida do Sul da Europa.

Temos questões de organização da floresta, ficamos de facto mal na fotografia. Em relação à seca, noutros anos foram criadas comissões. O problema é que essas comissões entre secas ou estão inativas ou parecem não ter atividade. A probabilidade das secas serem mais recorrentes é um facto e o país tem de se ir preparando. Pode não acontecer em 2018, mas acontecer depois.

Mas em que ponto de estamos?

No caso da agricultura, que é um dos setores mais afetados, os agricultores têm feito um esforço meritório para se adaptarem. Usam-se novas tecnologias para rega que gastam menos agua e antecipam-se as colheitas. A vindima este ano foi feita mais cedo. Não são todos, mas há muitos agricultores que estão mais informados. No que diz respeito aos fogos florestais, há pessoas que estão conscientes do problema, mas não temos tido sucesso.

Em termos de impacto no país é possível dizer qual é a maior ameaça: é o calor e estes fenómenos de seca, fenómenos extremos de precipitação e inundações, a subida no nível do mar?

É tudo junto. Em termos de agricultura, qualidade de água e fogos, a questão da seca é a mais complicada. Em termos de inundações, o problema são as cidades. A baixa de Lisboa, Algés, a baixa do Porto, a baixa de Coimbra. Em termos de zonas costeiras, o cenário a longo prazo também é muito difícil: a subida do mar não vai parar neste século. Conforme a ameaça, são diferentes setores e zonas do país que estão em causa.

E isso também pode dificultar a consciencialização nacional?

Precisamente. Aquilo que é preciso ter presente é que as tecnologias não resolvem tudo. Suponha que esta seca a que estamos agora a assistir, em vez de ser em 2016/2017, era em 1503 ou 1504, na Idade Média. O país estava destroçado, havia fome. Hoje não há porque temos importações, barragens, porque há toda uma infraestrutura que nos permite ser mais resilientes. É nisto que temos de continuar a trabalhar. Mas isso tem custos, sociais e financeiros. Uma situação destas prolongadas tem consequências.

Temos algumas barragens abaixo dos 10% de armazenamento. Um inverno normal chega para recuperarem ou podemos chegar ao próximo verão já com falta de água?

Depende muito. O Alqueva levou vários anos a encher, demora mais tempo a esvaziar. Uma albufeira mais pequena esvazia mais depressa.

A comissão da seca recomendou medidas para as zonas mais afetadas, como restringir o uso de água em fontes, lavagens de carros, piscinas, mas não são obrigatórias, estão dependentes das autarquias as implementarem. Havendo uma ameaça, não poderia haver uma tomada de posição mais assertiva?

Quando se põem em marcha estas medidas no fundo o Estado dirige-se mais uma vez à solidariedade das pessoas umas para com as outras. Evidentemente que o Estado tem mecanismos para impor em casos extremos. As secas também se dão em países do Centro e do Norte da Europa e conforme os países as pessoas são mais ou menos cumpridoras. Estou-me a fazer entender não é…

Mas não seremos ainda um pouco amadores?

Sempre tivemos secas. A intensidade que estão a atingir é que é uma novidade e o que importa é alertar as pessoas para que, muito provavelmente, isto se vai repetir e de uma forma que não é previsível. Repare: não conseguimos dizer se 2018 vai ser muito chuvoso, pouco chuvoso. Isto neste momento é uma questão de solidariedade: ou as pessoas pensam só na sua família e no seu círculo ou pensam umas nas outras, os da cidade pensam nos do campo que são agricultores, as do interior pensam no litoral e vice-versa.

No fogo de Pedrógão vimos uma onda de solidariedade.

Vai ser cada vez mais importante.

Entrevista de Marta F. Reis / Parceria jornal i
Fotografia de António Pedro Santo

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