Filipa Melo: “O adultério é a face oculta do casamento”

2 JULHO, 2017 -

Um livro que alimenta uma paranoia doce para uns, para outros dolorosa, pode ser terapêutico também, entre o guilty pleasure e a erudição, Dicionário Sentimental do Adultério é um desses raríssimos exemplos em que História, ciência, curiosidades ou revelações picantes se combinam com a ironia num objeto de cultura todo sedutor.

Na memória de quem viveu a derrocada do melhor período do jornalismo cultural entre nós, poucos terão esquecido como o Mil Folhas – suplemento cultural do Público editado por Filipa Melo no seu ano de lançamento, em 2001 – se destacou como uma das publicações mais influentes no domínio literário. Desde 1990 dedicada a esta vertente jornalística, Filipa Melo assume-se como «uma crítica literária da velha guarda», no sentido em que se abstrai tanto quanto possível das circunstâncias, para se entregar a uma espécie de ortodoxia em que, primeiro que tudo, estão os livros, a leitura, numa abordagem que contorna outras acrobacias publicitárias e o ruído que tem bichado o silêncio necessário para se chegar à literatura.

Depois da estreia no romance em 2001, com Este é o meu corpo, o segundo tem-lhe exigido um bestial hiato, exemplar num momento em que os que praticam a arte do romance o fazem de forma tão incontinente. Acaba de publicar Dicionário Sentimental do Adultério (Quetzal), que é de certo modo um regresso, depois de, em 2015, ter publicado Os Últimos Marinheiros, uma reportagem para a coleção Retratos da Fundação (Fundação Francisco Manuel dos Santos). O Dicionário foi apresentado há dias pelo emérito secretário de Estado do Humor, Ricardo Araújo Pereira, e Filipa integra, como independente, a lista de Carlos Carreiras (PSD), nas autárquicas em Cascais. Depois de anos a escrever regularmente crítica e a orientar oficinas de escrita, numa parceria com a Booktailors, vai coordenar uma pós-graduação em escrita de ficção na Universidade Lusófona.

Sem lhe pedir para revelar algo de mais pessoal, gostava de saber…

Se eu pratiquei adultério (risos).

Gostava de saber se houve alguma história que a levou a escrever sobre o adultério.

Vai-me perguntar se é autobiográfico?

Não, mas aqui o adultério surge-nos quase como uma instituição oculta, uma perspectiva sobre esse lado sombrio das sociedades. Por outro lado, há sobre este fenómeno uma leitura muito pessoal. Gostava de saber o que a atraiu a escrever sobre o tema.

Há uma história muito curiosa, com a escritora francesa Marie Darrieussecq, que tem um livro [“Truismes”] em que a protagonista se transforma numa porca. Quando comecei a escrever sobre adultério pensei: Deus queira que não me aconteça o que lhe aconteceu a ela, em que uma das primeiras entrevistas que lhe fizeram começaram por perguntar-lhe se era autobiográfico (risos). Eu estava com medo também que me perguntassem, mas não, não é. No entanto, todos os casos que aparecem numa das entradas, que se chama “marginália ou as coisas como elas são”, todos esses casos são reais. Foram-me contados por amigos, por conhecidos, casos de que fui sabendo. E, na verdade, o adultério é a face oculta do casamento. É o lado negro da lua. Existiu desde que existe o casamento. E, socialmente, desde Roma Antiga, desde leis augustas, a Lei Júlia, passou a ser um crime público. Portanto, é uma realidade privada, escondida e secreta, mas é uma realidade pública desde Roma Antiga, e embora hoje em dia já não se penalize o adultério, é condenada socialmente. Mas a par desse lado, e sobretudo da condenação moral e social quando acontece com figuras públicas, há a dimensão privada, que é fascinante para mim, e que diz muito sobre os instintos, sobre o balanço entre os instintos e as convenções nas relações amorosas.

Qual foi o ponto de partida para o livro?

O tema conjugava-se com este formato de um dicionário sentimental, ou seja, de uma espécie de almanaque pessoal. É uma abordagem muito pessoal a um determinado tema, e a escolha do adultério foi pensada porque está em tudo: na literatura, na História… Há casos de que nos podemos socorrer na vida real, pessoas que conheces. Portanto, é um tema que dava para tudo.

E houve alguma história em particular que espoletou esta investigação ou que foi central à organização do livro?

Quando comecei a pensar na estrutura do livro, e arranjei um programa específico porque na escritas de dicionário tens de controlar as entradas, e não é muito fácil não extravasá-las quando estás a escrever… O que pensei foi ir de A a Z, e dar o exemplo em A, que é Abraão, e em Z, que é Zeus. De Abraão a Zeus percebi então qual era a extensão do tema. A primeira entrada é sobre a importância absolutamente crucial para as três religiões abraâmicas um caso de adultério, ou de barriga de aluguer, se se quiser. Que é o caso da relação de Abraão, Sara e Agar, e que dá origem a tudo. Depois na mitologia grega, tens Zeus, que é o maior adúltero de sempre. Só isso bastava, cobria tudo.

Mas as três religiões abraâmicas divergem hoje sobre a forma como encaram e lidam com o adultério.

Sim, o judaísmo e, particularmente, a sociedade israelita, repudia os bastardos, impedindo-os e à sua descendência de casarem com judeus. Ou seja, impede que sejam cidadãos de Israel. Impedem o fruto do adultério, e isso prende-se com a raiz do judaísmo, que é fundado numa transmissão de sangue, numa linhagem. Portanto, o adultério é tido como uma corrupção da essência.

Se nas sociedades ocidentais e de matriz judaico-cristã a carga punitiva do adultério se perdeu, no mundo islâmico é um dos aspectos que revela maior violência sobre as mulheres, enfrentando estas o apedrejamento, ao passo que aos homens o adultério é perdoado.

Não tens em nenhum caso uma regra. A poligamia é perfeitamente aceite nas culturas islâmicas. Depende, portanto, de sociedade para sociedade. Se a lei civil acompanha ou não as orientações religiosas… Mas não existe uma regra universal, nem uma regra específica para cada uma das religiões. Podes encontrar em África duas tribos que distam 20 quilómetros uma da outra, e uma é polígama e outra pratica a monogamia. Não há uma regra e por isso é que acho muito interessante este tema, porque remete as questões do adultério para aquilo que me interessava mais: reflectir quanto da pulsão para a infidelidade é biológica e quanto é que é societal. A conclusão a que chego na investigação que fui fazendo para este livro é de que, de facto, a fidelidade é uma pura construção humana. São pouquíssimas as espécies animais que são monogâmicas. Mesmo as monogâmicas dão umas voltas por fora, experimentam outros parceiros… Portanto, a monogamia enquanto fidelidade absoluta é quase um mito. E é tanto nos animais como nos humanos.

O que está na origem deste mito?

A monogamia e a fidelidade são uma construção, antes de mais para a preservação da espécie, para vingar o mais forte, para não haver perda de esperma… Eu conto no livro como, em algumas espécies, os machos, no acto do acasalamento, vedam os orifícios das fêmeas para que não sejam fecundadas num determinado período, para que vingue o seu gene.

Ao olhar para a forma como as religiões e as próprias leis foram lidando com o adultério este parece ser um fenómeno que gera uma espécie de pavor matricial, com o corpo da mulher e a disputa sobre quem sobre ele manda é um dos aspectos nucleares em todas as sociedades políticas. Muitas vezes parece que o grande tema em debate nas sociedades se prende com a forma como se exerce o controlo sobre o corpo da mulher, que é aquele que, dando vida, promete um futuro. E isto vai desde a imagem da mulher até questões que mexem com a sua privacidade e o seu papel na sociedade.

Nas primeiras sociedades, surgiu a par com a questão da posse da terra, a posse do corpo da mulher. A mulher foi empurrada cada vez mais para o interior da casa. Isso é uma forma de controlo, uma forma de poder. Na civilização judaico-cristã, e particularmente no catolicismo, tens o marianismo, uma concepção muito forte do papel da mulher seguindo o exemplo da Virgem Maria, que concebe o seu filho sem pecado… E o marianismo é também uma forma de controlo ou de orientação quanto à postura da mulher, relativamente ao seu corpo, e que passa pela fidelidade ao marido, fidelidade à religião, e até à Virgem Maria. A questão do corpo da mulher e da sua posse foi, portanto, central desde sempre. E a emancipação da mulher foi muito lenta. No século XIX, e há um exemplo que dou no livro disto entre nós, de que os maridos podiam facilmente interditar as mulheres e dá-las como loucas, inclusivamente se quisessem trocá-las por outras. Isto vai para além da posse do corpo, e significa uma posse total: da mente, do espírito, da liberdade… O caso a que me refiro no livro é o de Maria Adelaide, que se passa já no início do século XX, e se trata de um caso extraordinário de uma mulher que se apaixonou quando tinha já 48 anos e um filho de 26. Apaixonou-se por um chofer com a idade do filho e foi dada como louca por acção do marido. A perícia foi feita por Júlio de Matos, Egas Moniz e José Sobral Cid, que disseram que ela evidenciava “loucura lúcida”, que era “originariamente tarada”, coisas completamente absurdas se pensarmos sobre elas hoje em dia, mas o que está por trás disto é o pavor quanto à liberdade da mulher poder dispor do seu corpo. Algo que ultrapasse a convenção do casamento, da idade… A condenação do adultério está, desde sempre, ligada à condenação da fruição do corpo por parte da mulher. A história do adultério é uma história do domínio masculino.

Dois aspectos onde se nota mais a assinatura autoral neste dicionário é um lado humorístico…

Irónico.

Se há uma análise rigorosa, nutrida pelos factos históricos, muitas vezes parece ouvir-se o riso de uma mulher. Sem haver qualquer tentação revisionista, há um olhar do século XXI e de uma mulher que não deixa de sublinhar como este está longe de ser um assunto arrumado.

A base deste livro é uma investigação, portanto, a primeira perspectiva que se encontra aqui é a da constatação. Ou de confirmação, se havia algumas suspeitas que tinha já relativamente à forma como o adultério foi evoluindo ao longo dos tempos. Fui confirmando essas suspeitas, que tinham a ver com essa noção de que o poder da mulher sobre o seu corpo foi constantemente cerceado. Mas, porque tem um lado privado e secreto, o adultério tem um lado picante, interdito, e só por isso já propicia que, em algumas histórias, uses o humor, a ironia, mais raramente o sarcasmo, esse só em momentos em que há mais uma indignação do que propriamente uma crítica. Mas tal como a imagem da senhora que aparece na capa, que é a [Condessa de] Castiglione, uma cortesã francesa muito conhecida. Gostei muito desta imagem exactamente porque vemos nela uma cortesã a espreitar por uma moldura de uma foto familiar. É a imagem da amante a espreitar pela moldura do convencional da família. No fundo, isto é o resumo do livro: mostrar uma realidade que está por detrás das fotografias. Supõe-se que as amantes não figuram nos álbuns de família. Mas algures estarão na memória. Há um caso que pus na secção da “Marginália”, um caso que eu conheço, de uma mulher que foi amante de um homem 20 e tal anos e que, quando ele ficou doente, não o pôde visitar no hospital, nem pôde sequer ir depois ao funeral. Isto não obstante ter sido uma pessoa determinante na vida daquele homem durante vinte e tal anos. Há um lado escondido que está sempre à espreita, e há portanto esse outro olhar sobre aquelas vidas.

Esses casos são-nos dados mas despidos dos elementos que identificariam as pessoas?

Sim, não identifico as pessoas. São casos que conheço, e até as duas histórias que parecem anedotas… A do voo livre de um caniche num edifício muito alto – e deixamos por isto para não estragar a surpresa –, ou a de uma senhora que se embrulha em papel higiénico e se oferece ao marido no dia a seguir a tê-lo traído pela primeira vez, são histórias reais, tal como a entrevista que fiz a um detective particular… Aquilo que ele diz é real. Muitas dessas histórias parecem ficção, e julgo que isso se prende com esse olhar do que está do outro lado  da fechadura. São as coisas que sabemos que existem mas sobre as quais falamos baixinho, aos segredinhos. O livro tem por isso esse lado picante e, em termos literários, propicia um tipo de escrita muito apetitosa também, que passa por juntar à informação o trabalho para capturar a atenção do leitor, com um fio que une esses pormenores picantes, fait divers, curiosidades. O trabalho do livro foi o de tecer uma espécie de filigrana a partir de um tema que é sério e importante na definição da forma como as sociedades foram evoluindo e como se processam as nossas vidas privadas, e, ao mesmo tempo, permite essa conjugação do que é sério com o que é risível, e o que raia quase o anedótico. De tão escondido que está, mas à mostra. É o chamado gato escondido com o rabo de fora.

Há aquela conhecida frase da Margaret Atwood que ao passo que os homens têm medo que as mulheres se riam deles, as mulheres têm medo que os homens as matem.

O grande receio dos homens é que os filhos que as mulheres dizem ser deles afinal não sejam.

Isso quem o disse?

Isso digo-o eu (risos).

Mas voltando à frase de Atwood, se a relação amorosa e sexual para os homens parece pôr em causa a sua afirmação pessoal e identitária, para as mulheres muitas vezes parece ser uma questão de vida ou de morte.

Podes falar de um fenómeno curioso que eu abordo no livro que é o efeito de Coolidge, que é transversal à maioria dos mamíferos, e que diz que os machos se cansam rapidamente da fêmea. Depois do acto sexual têm um período refractário, em que descansam, e, quanto mais relações sexuais têm com a mesma fêmea, mais longo é esse período refractário, até chegarem ao limite, quando perdem o interesse pela fêmea. E é muito curioso como, no caso das vacas, os cientistas pintaram a fêmea rejeitada, alterando-lhe as manchas, puseram-lhe ainda outro odor, e mesmo assim o macho rejeitou-a. Portanto, existe qualquer coisa biológica que leva a que os homens procurem ter mais parceiras do que as mulheres. As mulheres querem preservar, desde logo querem ser fecundadas, e depois precisam de protecção para a cria. Assim, procuram o macho que as proteja, portanto, procuram a constância, enquanto os machos procuram fecundar o maior número de fêmeas, para que os seus genes vinguem. Se calhar é estranho para os leitores que eu dê estes dados ou que fale assim, muitas vezes trocando macho por homem, mas é exactamente a mesma coisa. A base é biológica, animal. Como disse no início, a fidelidade é uma absoluta convenção.

Em que é que a sua percepção se alterou com a investigação que fez?

Já acreditava nisto antes, mas depois da investigação que fiz para este livro estou ainda mais convicta de que nós nos condicionamos para amar para sempre. Isso é uma convenção que depois vai sendo gerida pelos homens e pelas mulheres a partir desta base biológica, sendo que os homens não deixam nunca de ter este instinto predador e um desejo de expansão, a tentativa de implantação do gene, e as mulheres têm um instinto de preservação. Mas é muito difícil falar dos homens e das mulheres… O que acho é que as questões ligadas à fidelidade se calhar têm de ser revistas de todo. Falo nisto no livro: a ideia de que antes se casava e de que se era feliz para sempre. Agora existe a monogamia serial, ou seja: vamos casar seis vezes durante a vida e cada uma delas será para sempre. Isso é irónico, mas é natural. Embora vivamos ainda com um enorme peso moral sobre aquilo que nos é instintivo.

A noção de que o maior medo dos homens é a de que os filhos que criam não sejam afinal deles em que é que se expressa?

Foi o que determinou que o adultério fosse condenado sobretudo, ou quase em exclusivo, pelo lado da mulher. O homem pode trair, não tão mal visto socialmente por fazê-lo, ao passo que para a mulher é gravíssimo.

É uma espécie de traição eterna, porque o homem fica a educar o filho de outro e…

É infrutífero em termos de espécie, em termos da herança genética. É um engano, uma traição… Essa é a verdadeira traição. Existe traição maior do que essa? É capaz de ser a maior que se pode imaginar. Dizer alguém: este é o teu filho, não o sendo. Fazerem-te criar um filho que não é o teu.

Isso justifica uma diferença de atitude face ao adultério consoante os géneros?

É mais fácil ouvires um homem numa mesa de café vangloriar-se por trair a mulher do que uma mulher vangloriar-se por trair o marido. Persiste esse lugar-comum de que os homens traem mais do que as mulheres, mas depois há uma objecção lógica a essa ideia: os homens traem as mulheres com outras mulheres, e, estatisticamente, nalguns países, como Inglaterra, sabe-se que maioritariamente traem com outras mulheres também casadas. Portanto, tens aí um primeiro tabu. Existe esta convicção de que as mulheres traem muito menos do que os homens, mas qualquer investigação que comeces a fazer sobre o adultério leva-te a concluir que essa é uma noção completamente errada. As mulheres traem tanto como os homens. O detective João Santos, que eu entrevistei, diz que elas são é muito mais cautelosas. Exibem menos, mas traem tanto como os homens. De qualquer modo, o adultério nunca foi uma causa. Não é uma bandeira feminista. O adultério é uma prática oculta, que, por ser sexual, diz respeito à vida privada de cada um, e que, no século XXI, se espera que não seja regulamentada, pelo menos no mundo civilizado. Depois a forma como é encarado isso relaciona-se com as convicções de cada um, com o livre arbítrio. Não se pode neste tema falar em causas, e não se espera que surja um grupo de mulheres a reivindicar: “Nós também traímos” (risos). Mas, na verdade, hoje em dia, 2017, não será muito difícil fazer a experiência – se uma mulher comunicar às pessoas à sua volta: “Eu traí o meu marido”, e se ao lado tivermos um homem a confessar: “Eu traí a minha mulher”, o peso de censura social é brutal sobre a mulher e não tanto sobre o homem. É uma das marcas da diferença de estatuto em termos do exercício da liberdade sexual.

E o que lhe disseram os casos que investigou?

Por de trás de todas as histórias de adultério há sempre um lado muito triste, porque há uma perda. Quanto mais não seja porque, num casamento, quando trais a outra pessoa, perdeste a imagem que tinhas de ti próprio quando casaste. Nem é o traíres o outro, tu é que já te sentes diferente daquilo que foste. Procuro dizer isso no livro: tu não vais à procura de outra pessoa mas daquilo que tu és, da outra pessoa em que te tornaste. O tema do adultério é, por isso, muito complexo, porque tem a ver com as motivações muito profundas das pessoas e que as leva a decidir estar com alguém, sexualmente, ocasionalmente ou partilhando uma vida. É um tema profundissimamente complexo. Passando por muitas outras questões, até pelo lado económico. Não há dados a comprová-lo, mas acredito que uma das razões por que se trai muito mais agora é o facto de não haver condições financeiras para as pessoas se divorciarem. Portanto, o adultério que se pensa ser acima de tudo uma questão moral, tem também muito a ver com circunstâncias práticas. Acompanha a evolução da sociedade. A poligamia, por exemplo, é praticada pelos homens que têm capacidade de sustentar um maior número de mulheres, portanto, é uma questão também financeira.

Dá a sensação de que este livro surge num momento em que pode estabelecer uma linha de ruptura entre o passado e o futuro do adultério, uma vez que a revolução tecnológica veio facilitar em muito a busca de parceiros fora do casamento. Há uma série de aplicações, como o Tinder e outros, que parecem ter exponenciado essa predisposição para a traição, providenciando condições de secretismo, meios de contacto…

Eu não acredito que se traía mais porque existe o Tinder, ou porque é mais fácil. Sempre se traiu, sempre se continuará a trair. Acho que mudam as circunstâncias, e sobretudo muda o conhecimento sobre a realidade, isso sim. Não sei se haverá uma revolução sobre a realidade. Acho que não. Há uma entrada no livro em que questiono como se traía no século XIX, uma vez que não havia espaços públicos. Aliás, havia o privado e o público, não havia espaços intermédios. E eu pergunto: onde é que as pessoas traíam. A vida doméstica das mulheres era muitíssimo vigiada, em sociedade também. Era uma vida bastante claustrofóbica em termos de cerceamento das liberdades, sobretudo nas classes mais altas… entre os burgueses havia sempre muitos olhos sobre tudo. Então , pergunto onde é que as pessoas traíam. Onde é que tinham relações? Mas tinham, é evidente. Quando vais ao Tinder, uma das coisas que me faz confusão é o modo como vês a sociedade toda a assumir que está à procura de alguém com quem ter relações… Enfim, não sabemos se sexuais, mas algum tipo de relação. Não me parece mal, até me parece bem, passa por assumir algo que é natural: a dinâmica das relações humanas e sexuais. Portanto, está mais à vista, agora, se isso vai ser uma revolução em termos de prática em si… Não acredito. O que essas tecnologias novas proporcionam é o espreitar-se mais facilmente pela fechadura para o quarto dos outros. É o lado voyeurista. Mas o que se passa no quarto dos outros sempre se passou e sempre se há-de passar. E felizmente.

Este livro parece também um estudo sobre aquilo que editorialmente mais hipótese tem de vingar nos nossos dias. Não estou a falar de oportunismo, mas há aqui uma inteligência não só na escolha do tema, como vai buscar a tendência dos leitores para procurarem livros que bebem na História…

Que lhes dão informação…

Um livro, do ponto de vista do marketing, genial. Talvez não tenha pensado o livro assim.

Não.

Mas não é uma abordagem literária, senão por um lado jornalístico.

Embora, tenha ficção também.

Mas houve estratégia neste sentido?

Não. Desse ponto de vista, o tema de “Os últimos Marinheiros” [reportagem para a colecção “Retratos da Fundação”, publicada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos], é tão ou muitíssimo mais importante do que o adultério. Portanto, podia-se dizer que aí também teria havido uma estratégia editorial. Ou o tema da morte, que na altura em que publiquei o meu romance, “Este é o meu corpo”, que é um romance sobre a morte, surgiu antes dos CSI, e das séries dos patologistas se terem popularizado. O livro saiu em 2001, antecedendo a vaga que veio a seguir em que a morte foi um tema muito premente na literatura, no cinema, nas séries de televisão. Portanto, em termos de marketing são todos mais ou menos equiparados. E não foi estratégia (risos). Em termos de escrita, este livro foi para mim um divertimento. “Este é o meu corpo” foi um romance que teve muito sucesso, foi extremamente bem recebido, o que teve o seu peso, evidentemente. Não só em termos de responsabilidade em relação ao segundo, que ainda não saiu, mas teve uma excelente recepção internacional e durante muito tempo, praticamente 10 anos, me fez circular pelo estrangeiro a apresentar o livro, sobretudo na Europa. E com reacção muito intensas da parte dos leitores, porque era um tema muito sensível. A herança daquele livro durou muito tempo. Entretanto, eu sou jornalista, freelancer… Trabalhei apenas cinco anos no quadro de uma empresa, e trabalho há 25 anos. O que eu tive de fazer durante estes foi trabalhar, e só por isso é que o segundo romance não apareceu antes. Agora, depois das crianças estarem mais crescidas, pude voltar a escrever, e comecei pela reportagem dos marinheiros.

Em 2001, não era ainda mãe?

O romance acompanhou a minha primeira gravidez. A minha filha Mariana tem a idade do livro. Se “Os Últimos Marinheiros” é claramente um livro de reportagem, este “Dicionário Sentimental do Adultério” é um exercício de prazer, de retomar a escrita, e tem também ficção, é uma escrita literária… (Não é uma reportagem.) E foi um exercício de escrita, mas não foi uma estratégia de marketing. Esta colecção existia já na Quetzal, é o segundo título de uma colecção que começou com o título “Dicionário Sentimental do Futebol”, do Rui Miguel Tovar.

E a ideia do tema foi sua?

Sim, mas a colecção já existia. Em França existe uma colecção de enorme sucesso, que se chama “Dictionnaire amoureux” e que parte mais ou menos da mesma ideia. Ou seja, pedir a um autor que faça uma abordagem pessoal de um determinado tema. Com um formato semelhante ao do dicionário: com entradas, com uma esquematização a partir de pequenos textos, que correspondem a entradas, e um tema.

Entrevista de Diogo Vaz Pinto, publicada no nosso parceiro jornal i

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