Feira do Livro do Porto chega aos Jardins do Palácio de Cristal na próxima sexta-feira

29 AGOSTO, 2017 -

Os Jardins do Palácio de Cristal voltam a receber os livros, num ano em que, a par da “internacionalização”, Sophia de Mello Breyner é a homenageada

A Feira do Livro do Porto regressa esta sexta-feira aos Jardins do Palácio de Cristal e terá Sophia de Mello Breyner como figura homenageada. Para começar, e depois de uma cerimónia na avenida das Tílias, na qual será colocada uma placa atribuindo à poeta uma das icónicas tílias do espaço, caberá ao filho, Miguel Sousa Tavares, abrir o ciclo de debates no sábado.

É a quarta vez que a autarquia assume a organização do certame, tendo-se livrado da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), polvo que, em Lisboa, continua a cobrar valores proibitivos pela concessão dos pavilhões, o que restringe o acesso das editoras e livreiros independentes ao principal evento de promoção do livro no país.

Até 17 de setembro, a par da oferta de livros – com o mesmo número de pavilhões do ano passado (131) –, a programação cultural tentará seduzir mais visitantes, tendo o município anunciado que em 2016 foi estabelecido um recorde, com 250 mil pessoas a servirem de testemunhas ao reencontro entre a literatura e os jardins românticos da Invicta.

Depois do Festival Literário Internacional de Óbidos não mais ter tido condições financeiras para manter as curadorias de Anabela Mota Ribeiro e de José Eduardo Agualusa, o duo dinâmico e, ao que parece, incontornável em matéria festivaleira, assume agora as rédeas de mais um programa, entre a homenagem a Sophia e a outras figuras maiores, que ficam sempre pelas mesmas e já tão cariadas bocas que a todos os temas emprestam um hálito nauseante. Indo dos supostos debates às sessões de spoken word, há ainda margem para um ciclo de cinema e uma exposição de arte contemporânea (pode consultar a programação mais abaixo).

Segundo o adjunto do presidente da Câmara Municipal do Porto para a Cultura, Guilherme Blanc, o tema que baliza toda a programação é o da relação da Humanidade com o planeta, bem como a forma como hoje interfere e se relaciona com o equilíbrio natural. Blanc refere como este conceito atravessa a obra de Sophia de Mello Breyner. Mas a novidade desta edição, de acordo com o responsável, está no objectivo de internacionalização, “com três autores fulgurantes internacionais de diferentes geografias, literárias e culturais”. São eles o escritor francês Laurent Binet, vencedor do Prémio Gouncourt em 2010 por “HHhH”, a sul-coreana Han Kang, que em 2016 venceu o Man Booker Internacional por “A Vegetariana” e  Teju Cole, autor de dupla nacionalidade nigeriana e norte-americana.

O responsável pelo pelouro da Cultura congratulou-se com a evolução da Feira, afirmando em entrevista à Lusa que o programa cultural “tem vindo a maturar e a crescer”, adiantando que se no terceiro ano “a forma programática estava sólida”, com níveis de público a aumentar e “um nível de qualidade interessante”, “neste quarto ano era preciso crescer um pouco”, razão que justifica a “dimensão internacional do programa, depois de confirmada a estabilidade e qualidade”.

E é assim que, das boas intenções dos responsáveis políticos, cada vez menos se percebe o que se entende por Cultura quais as linhas que devem ser apoiadas. E fica esta desenxabida grandiloquência das coisas muitas que se fazem com palavras, mas sempre dessas que, embrulhadas, já as leva o vento. Assim, estamos cada vez mais longe desse grito puro em que “se ouve a linguagem que, como nenúfar, aflora à tona das águas paradas do silêncio”.

E do muito que o nome dos poetas é usado em vão, é bom lembrar alguns versos num país que busca a ferros a internacionalização, mas que de si não tem mais que “A memória longínqua de uma pátria/ Eterna mas perdida e não sabemos/ Se é passado ou futuro onde a perdemos”. Quem mais escreveu versos com a imensíssima reverberação de um eco, antiquíssimo, clássico e, por vezes, fatal, um eco que volta a um lugar onde a erosão temporal lhe sacrificou a memória, para despertar-nos, devolver essa consciência, colectiva mas culta, actuante e tão digna.

Pode ser que, entre os ‘debates’ e as várias oficinas, as actividades para crianças, que decorrem nos próprios jardins e na Biblioteca Almeida Garrett, entre outros espaços, ainda sobre tempo nestas “Tardes inertes [que] morrem no jardim./ Esqueci-me de vós e sem memória/ Caminho nos caminhos onde o tempo/ Como um monstro a si próprio se devora.” Pode ser que sobre tempo ainda para buscar essa “pausa em que o instante, de súbito, surpreende e fita e enfrenta a eternidade”.

 Podes consultar aqui o Jornal da Feira do Livro com toda a programação do evento.

Artigo escrito por Diogo Vaz Pinto, publicado pelo nosso parceiro jornal i

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