Fausto Bordalo Dias e a genialidade do cantor maldito

18 ABRIL, 2016 -

Quando utilizamos a palavra “fausto”, lembramo-nos de várias coisas, mas, certamente, não é o “Fausto” de Goethe que nos vem logo à mente, nem a acepção do adjectivo “fausto”, que significa prosperidade ou felicidade. O mais certo é lembrarmo-nos que o “Capitão Fausto têm os dias contados” saiu há poucos dias e não aquele que é considerado, por muitos, o maior compositor popular português vivo, Fausto ou, mais correctamente, Fausto Bordalo Dias.
Os dois primeiros lapsos até se desculpam, o terceiro é imperdoável.

Este artigo não serve, contudo, para acicatar conflitos intergeracionais, no entanto, não há dúvidas que os Capitão Fausto não são comparáveis com o cantautor Fausto Bordalo Dias, desde logo, porque os seus estilos são diferentes e a obra do segundo é, incomparavelmente, mais marcante para a música portuguesa do que a dos primeiros.
Este artigo também não serve para insinuar que Fausto Bordalo Dias vendeu a alma ao diabo, como fez “Fausto” de Goethe. Não só não vendeu a alma ao diabo, como também não vendeu a sua exigência, rigor e génio com a finalidade de poder vender mais a sua alma, não ao diabo, mas ao mercado comercial. E, nós, os que conhecemos a sua obra, estamos lhe gratos por isso.
Este artigo serve, fundamentalmente, para mostrar que Fausto, o cantautor, faz jus ao adjectivo “fausto”, pois o seu legado na música popular portuguesa é altamente próspero e diversificado. E às novas gerações deve-lhes ser possibilitado e estimulado o interesse na sua obra.

Este homem, nascido a bordo do navio “Pátria”, que fazia as ligações entre Portugal e Angola durante o Antigo Regime, estava, logo à nascença, destinado a ficar na história da música portuguesa pelo seu relacionamento próximo com a diáspora portuguesa.

Podemos falar em “Por este rio acima“, considerado o melhor disco de música popular portuguesa de sempre e o seu mais reconhecido trabalhado, como também no disco “Para além das cordilheiras” que relata as alterações socioculturais que aconteceram durante a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, como a homenagem que constitui o disco “A Preto e Branco” a África, continente no qual o compositor viveu a sua adolescência.

São apenas três exemplos que se encontram numa lista que vai desde cantigas de protesto, muito relacionadas com o período da clandestinidade antes do 25 de Abril e que ainda conservam muita actualidade, até cantigas de desolação que marcaram as utopias frustradas do pós-25 de Abril, passando, naturalmente, pelas líricas que parecem não ter igual no panorama da música portuguesa, como é exemplo a música “Em Poucas Palavras”.

Não sabemos se rigor e exigência, se timidez, o certo é que Fausto apresenta-se em público poucas vezes, e cada concerto seu é uma experiência imperdível e única.
Nesse sentido, queremos chamar a atenção de todos os nossos seguidores que este genial compositor vai estar presente no Teatro Vila do Conde, no dia 23 de Abril, pela ocasião das comemorações do 25 de Abril. Por enquanto, ainda há bilhetes, apesar de serem poucos.

Para além disso, anexámos ao artigo uma playlist representativa do melhor que Fausto Bordalo Dias produziu ao longo das últimas décadas.
Como diria Viriato Teles, jornalista e crítico, “leiam estes livros, por favor”. E nós acrescentamos: leiam, mas antes de o fazer, captem as sonoridades que são ao mesmo tempo oníricas e cruas, populares e sofisticadas.

Texto de João Esteves

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