‘Factotum’, de Bukowski, em carne viva

1 MAIO, 2017 -

Henry Chinaski é um sacana com lábia. Os admiradores de Bukowski conhecem-no bem. Álcool, sexo, libertinagem e procrastinação são de feitio. A pobreza e a deterioração física são consequências dessa vida desregrada.  Ele é livre como todos gostaríamos de ser. Talvez por isso seja adorado por diferentes gerações de leitores. Só dispensaríamos a parte em que defeca sangue e em que confessa a depressão sempre latente. Não parece ser possível ignorar o magnetismo deste personagem. A personalidade de Henry Chinaski, um escritor à procura de aceitação, é delineada na maior parte dos romances de Bukowski, assim como em alguns poemas e narrativas breves. ”Factotum” (Alfaguara), primeira vez publicado em Portugal, é o segundo romance de Henry Charles Bukowski.


Chinaski tem sido adjectivado de seu alter-ego.
A autoficção é a matéria-prima do escritor nascido em Andernach, Alemanha. Até que ponto as duas consciências coincidem faz parte do sedutor jogo literário. O leitor sente-se cativado pela constante e escorregadia linha entre verdade e ficção. Será através de Chinaski que Bukowski se olha ao espelho?  Será possível viver como Bukowski? Afinal, o autor naturalizado americano morreu em 1994, com setenta e quatro anos, na cidade de Los Angeles. É possível haver fígado que aguente tanto álcool?A literatura aponta caminhos para as respostas.
O sujeito narrador e narrado é já um ser de ficção; é um “ser de linguagem”, como afirma Régine Robin. Em consequência, é pouco rigoroso apontar Bukowski de misógino a partir da leitura das desventuras de  Chinaski.  Se o leitor deve afastar, tanto quanto possível, o seu julgamento moral sobre o autor de ficção, isso não quer dizer que não exista um cunho moralista  na história e nas suas personagens, mas este é um outro campo. A moralidade no livro não tem que ser a projecção do carácter do autor.
Bukowski, em entrevista à Cultural Weekly (1981), afirmou: “I’m not a great fucker. I don’t go around fucking women by the dozens. But when I started writing this novel called Women, I had to do some research. I figured I had to meet more women. So I almost did it deliberately, I knocked on doors, I hopped into beds and I fucked when I didn’t feel like fucking. I’m not really a great fucker. I’m not too interested in that kind of thing. It’s kind of drab. It’s hard work. The people that call me male chauvinist don’t know all my works, they’ve just heard rumors. If they had read the total body of my work they would know that I love women almost as much as I love myself.”

A única verdade é a verdade do texto. A reprodução de acontecimentos é já uma interpretação. Como tal, aproxima-se da ficção. O facto fecha-se em si, dando somente espaço a interpretações mais ou menos afastadas do que em si encerrou. Podem existir sinais que remetam o leitor para sua própria realidade ou para a realidade do autor, mas será uma estratégia narrativa que visa dar verosimilhança à história. Quanto mais perto do leitor, mais impacto a história tem. Bukowski utiliza aspectos da sua vivência como matéria para a produção literária; são referidos constantemente pelo seu editor e pelo próprio autor. Isso dá a já mencionada verosimilhança. Segundo John Martin, editor que fundou a editora Black Sparrow para poder publicar o autor, Bukowski trabalhou numa fábrica de biscoitos de cães, a colocar placards no metro e dormiu em bancos de jardim. Tal e qual Chinaski em “Factotum”
aqui é um anti-herói, um indivíduo que tenta contrariar as normas sociais. A organização do trabalho, com o seu horário fixo e de carreira estável, é o inferno. Casamento, hipotecas, empréstimos e obrigações são para os outros. “Fazer as malas era sempre um tempo bem passado”, afirma Chinaski.

A pobreza é um preço que ele está disposto a pagar para não entrar na máquina utilizada pelo liberalismo. E ele sabe bem disso, apesar de se revoltar com a situação, principalmente quando essa condição interfere com a escrita: “Só que a fome, infelizmente, não melhorava a arte. Só a estorvava. A alma de um homem tem raízes na sua barriga. Um tipo consegue escrever muito melhor após ter comido um bife do lombo e bebido uma garrafa de whisky, do que alguma conseguiria após ter comido um chocolate de tostões. O mito do artista que passa fome era um embuste. Assim que nos apercebemos de que tudo não passava de um embuste, ganhámos juízo e começámos a extorquir e a queimar os nossos iguais” .

O personagem tem oscilações, é volúvel, mas acaba por voltar à libertinagem com que se identifica.
Chinaski escreve compulsivamente. Chega a enviar 4 a 5 narrativas curtas por semana para diversos jornais. Quase todas são recusadas. Só uma, neste livro, é aceite. Tem um título revelador: “A Minha alma Ébria de Cerveja é mais Triste do que Todas as Árvores de Natal Mortas do Mundo”. Os empregos são precários, mal pagos e sustentam-no a curto prazo. Ele é um “Faz-Tudo” (factotum), que se despede ou é despedido. A sua incapacidade (ou escolha) em manter a disciplina motiva-o a constantes mudanças para manter o que realmente lhe interessa: dias passados na cama, ocupados por sexo, escrita, muita bebida e alguma comida.

Bukowski escolheu uma estrutura fragmentada, com uma coleção de pequenos episódios, em que a prosa crua, quase jornalística, é dotada de descrições pungentes de “realismo sujo”: “Eu estava sentado na beira da cama. Ela saltou para cima de mim sem que eu pudesse mexer-me. Encostou a boca aberta à minha. Sabia a cuspo e cebola e vinho passado e (imaginei eu) ao esperma de quatrocentos homens. (…) Cingiu-me os tomates sem piedade com ambas as mãos. Abriu a boca e apoderou-se de mim; (…) com um valente puxão nos tomates ao mesmo tempo que quase me rachava a pila com os dentes, obrigou-me a ir para o chão. (…) Eu sentia-me como se estivessem a comer-me vivo.   Se me vier, pensei desesperadamente, jamais me perdoarei.  (…) Comecei a vir-me. Aquilo era como sugar as entranhas de uma cobra encurralada.”

Admirador de John Fante, cuja obra está a ser publicada pela Alfaguara, Bukowski retrata neste livro os marginais da sociedade americana, nas décadas de 40/50. Neste campo partilha algumas características com “1933 foi um ano mau”, de John Fante, publicado recentemente. Os dois livros abordam, sob perspectivas diferentes, a precariedade no emprego, a falta de perspectivas numa sociedade quase a entrar na II Guerra Mundial (Fante), ou já a sair da Grande Guerra.

Henry Charles “Hank” Chinaski não deixa ninguém indiferente. .É carismático e está à beira do não-retorno. A sua complexidade fez dele um ícone. A indústria cinematográfica fez dele um produto, com dois filmes sobre as suas deambulações: “Barfly”, com o adequado Mickey Rourke, e “Factotum”, com Matt Dillon. “Factotum” não desilude os seguidores de Henry Chinaski. Eis Bukowski e a sua prosa em carne viva.

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