Eu, a política e a partidocracia

10 OUTUBRO, 2016 -

Sou relativamente recente no que toca a estas andanças de ver e de pensar política. Primeiro, achei por bem conhecer algumas bases da História, com vista a ganhar forças e argumentos para opinar com sustento. É preciso olhar para trás e recolher o que desta se fez para se perspetivar um presente e um futuro prósperos e sólidos. Usando o caminho pelo qual a vida se desencadeia, perceber onde se errou e como se cometeram essas lacunas para se visualizar a coisa com algum sentido crítico. Tudo para que não pise poças nas quais possa encharcar mais do que a minha humilde e ignorante linha de pensamento.

Foi com vontade de aprender e de entender os meandros de toda a congeminação política que embarquei numa empreitada de ler sobre as taxas e taxinhas e sobre a Constituição e demais ramos. Tentei não deixar de parte uma análise ao espaço geopolítico e à sua disposição e sobre as forças políticas e as suas ideologias, não descartando pensar nos outros órgãos com especiais votos na matéria. Foi com um desalento crescente que comecei a caminhar em areias movediças, entrando conceitos que tentava perceber mas que não conseguia. Mesmo vistos e revistos, mesmo talhados a ouro ou com uma taxa de câmbio modesta, fui-me atrapalhando. Ainda hoje me atrapalho. Ainda hoje não perco de vista a burocracia que não me agrada mas que tenho de entender para a poder refutar. Até lá, há tanto para se observar, para além das entrelinhas que são merecedoras de um particular estudo. Não estamos num meio transparente, onde tudo se vê pela rama da essência. Há sempre algo mais problematizador. Uma existência profunda e difusa.

Com as mínimas bases da História, as bases que me foram permitidas pela celeridade do presente, entrei na partidocracia dos nossos dias. Uns à direita e outros à esquerda, uns engravatados e outros mais casuais, uns empresários e outros investigadores, uns distintos e outros por se revelarem. Sessões parlamentares e demais debates nos quais se discutem propostas e medidas através das quais governar o estado das variáveis que afetam a sociedade como um todo, desde os mais abonados até aos mais carecidos. É isso que pinta a teoria e o que se coloca na tela do que menos se informa e que menos se interessa, que mais deixa andar e que opina somente na hora de ir às urnas. Torna-se desconhecedor e talvez nem perceba o que realmente se passa na hora de trocar ideias e premissas construtivas para uma sociedade sustentada e satisfeita.

Li crónicas, vi debates e acompanhei sessões parlamentares. Ainda assim, continuei a interrogar-me. O que aconteceu? O que se discutiu? O passado. As divergências. As acusações. Os vícios. As promessas. O que se celebrizou? Uma pequena parcela que não é de todo proporcional a todo este agrupamento desnecessário ao mais comum cidadão. Será que é isso que queremos saber? Será que é disso que queremos tomar conhecimento? Importa conhecer a credibilidade e a qualidade das ideias defendidas por este ou aquele. Certamente. No entanto, será que vale mais pensar ideologias ou medidas? Partidos ou planos de atuação? Bem mais diferenças do que paridades (um termo conhecido para os amigos dos bancos)? É aí que os decibéis aumentam. É aí que as estribeiras se perdem em plena idealização de medidas. A prosperidade social é relegada para segundo plano. As emoções dominam as intervenções daqueles que estão encarregues de definir os próximos passos da sociedade como um todo. Porque está na decisão de uns o caminho de muitos mais.

A anomalia que afeta a política nos dias de hoje não é só resolvida a partir daqueles que propõem, que deliberam e que viabilizam. Passa essencialmente por não nos deixarmos adormecer, não nos deixarmos acomodar e encolher num canto à sombra de uma fértil bananeira. Por muito que seja proveitosa para a economia, há tanto por onde se olhar e se entender política. Somos responsáveis por exortar pela razão que se escapa com tamanha frequência nestas calorosas intervenções. Não somos partidos, somos seres humanos. Não somos ideologias, somos seres subjetivos que formulamos opiniões distintas e que temos pontos de vista singulares entre si. Não somos os erros, somos aquilo que fizemos deles. Demasiada filosofia? Talvez seja essa a lacuna. Falta pensar o que foi dito. Falta raciocinar sobre o que foi feito. Falta olhar para a política sem olhar a partidos. Falta olhar para a política olhando para as pessoas, para os indivíduos, para os contribuintes, para os empreendedores da vida e da profissão.

Sou demasiado desconhecedor para me aventurar em propostas. Apenas me reduzo ao capítulo das sugestões, ao capítulo da especulação com algum sentido. Pensar criticamente nunca ofendeu ninguém. Pensar criticamente as questões mais badaladas e atender às que passam pelos pingos da chuva e que envergam os seus impermeáveis. A política não é um campo fácil mas torna-se mais recetiva àqueles que estão dispostos a compreendê-la e estão munidos perante a eventualidade de inesperados rumos. Tal como os gregos, é preciso pensar política. É preciso ir questionando desde o mais elementar até ao mais ardiloso. Só assim se perceberá com o que podemos contar. Só assim se pode efetivar alguma diferença e se pode olhar com maior empatia a política que é de todos e não só daqueles que a instituem. Estamos na base das escolhas mais preponderantes e determinantes. No final, não conta a ideologia nem a força partidária mas sim o impacto positivo/negativo da proposta que veio a ter corpo, forma e atividade.

Talvez a política não seja assim tão fechada e anónima. Talvez convide-nos no silêncio dos seus gestos a caminhar e a contemplar o percurso que vamos seguindo, sem deixar de expressar o que sentimos perante este e aquele cenário. Talvez sejamos agentes com a capacidade de assinalar o caminho quando o norte se perder perante um centro tão agitado e efervescente. Um talvez que se sublinha perante a minha ignorância. Um talvez que terá caráter definitivo e que afirmará ou negará quando perceber um pouquinho mais disto. Até lá, vou aprendendo e pensando em como a política se traduz como oportunidade para se mudar e se atuar em plena realidade.

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

“Crónicas de uma Vida Parisiense – uma rubrica sobre a vida