Escritora Carla Pais critica ‘a necessidade que a sociedade tem de julgar’

28 NOVEMBRO, 2016 -

Carla Pais, vencedora do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, criticou “a necessidade que a sociedade tem de julgar e condenar“, que é “tão grande, que quanto mais civilizados nos acharmos mais imorais nos tornamos“.

A autora falava à agência Lusa, após saber da vitória no Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, com o livro “Mea Culpa“, que fonte do júri qualificou como “um romance realista e telúrico”.

A necessidade que a sociedade tem de julgar e condenar é tão grande que quanto mais civilizados nos acharmos, mais imorais nos tornamos” e “foi, por isso, a partir desta minha ira, que apareceu a personagem principal [do romance], Amadeu Jesus, um homem a quem não chega carregar o nome do filho de Deus“, afirmou a autora à agência Lusa.

Esta personagem quer amar uma mãe e não pode, quer amar uma mulher e não pode, quer amar a poesia e não pode, quer amar a vida e não pode. Não pode simplesmente porque nasceu do lado errado da aldeia. Nasceu do lado torto da sociedade“, acrescentou.

A protagonista feminina, Briosa, “é criada no seio das montanhas, no seio de nenhures onde desenvolve o instinto de sobrevivência através dos sinais que o corpo lhe envia“.

No dia em que toca a ‘civilização’, perde todas as defesas. É mais ou menos o que acontece às crianças quando crescem, perdem a capacidade de sonhar. Esta personagem foi inspirada numa pastora do interior a quem a mãe proibia ir à escola e que fugia de bicicleta precisamente para conhecer o mundo do lado de fora das montanhas“.

Carla Pais afirmou-se “surpreendida” com a distinção. “Nunca me passou pela cabeça arrecadar o galardão. Ainda assim precisava de tentar; saber se aquilo que escrevera podia ser apreciado por um júri. Foi por isso que concorri ao Prémio Agustina Bessa-Luís“, disse.

Carla Marisa Pais nasceu em Leiria e reside em Paris, onde trabalha, num Centro de Formação à Distância.

A paixão pelos livros – porque não há outra palavra para descrever a minha cegueira por literatura – foi-se acentuando, agravando, com o avançar da idade“, disse à Lusa.

A partir de uma determinada altura, escrever tornou-se tão necessário como ler. Em 2013 ou 2014, confiando na recomendação de um crítico literário que muito aprecio, descobri a escritora Herta Müller, a sua prosa tão poética e tão crua em simultâneo, e resolvi fabricar o conto ‘A alma do Diabo’, com que concorri e ganhei o Prémio Literário Horácio Bento Gouveia, no ano passado, na Madeira“, disse a autora.

Também no ano passado arrecadou o 3.º lugar do Prémio Poesia Agostinho Gomes, com o poema “Assimetria dos lábios“.

A autora decidiu então, escrever um romance: “Um bom romance, um romance com a qualidade que exijo dos escritores que admiro“, disse.

Quis provar a mim mesma que seria capaz de escrever um romance. Foi daí que nasceu ‘Mea Culpa’. Dessa exigência. Dessa vontade de conseguir“.

Segundo a autora, “escrever este romance só foi possível porque Rui Nunes escreve livros sublimes, porque o Herberto Helder decidiu desconcertar o mundo com a sua poesia, porque [José] Saramago nos ensinou um novo Evangelho, porque António Lobo Antunes nos afunda numa literatura sem filtros, porque, independentemente das agruras, Portugal dá à estampa uma nova geração de escritores que muito promete: Ana Margarida de Carvalho, Afonso Cruz, Valter Hugo Mãe, Nuno Camarneiro, Valério Romão, entre todos os outros“.

Allen Ginsberg, Philip Roth, Bernard Malamud, Marguerite Duras, Laurent Gaudé, Philippe Claudel ou Mathias Enard são alguns dos autores das suas leituras, que citou, pois “tiveram uma importância descomunal” na sua “construção como leitora e, consequentemente, como escritora‘”.

Texto de Lusa

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