Ermo: mesmo sem face, são eles a cara da nova música portuguesa

12 NOVEMBRO, 2017 -

Ermo pode significar solitário, inóspito ou desabitado e que em principio provoca medo. Ou então podemos estar a referir-nos ao grupo bracarense Ermo, constituído por António Costa e Bernardo Barbosa que se estreou com o EP homónimo em 2012. Um ano depois, a critica aplaudia “Vem Por Aqui”, primeiro longa-duração com o selo NOS Discos. Os elogios à diferença do que estava a nascer há 4 anos fizeram-se ouvir e o projeto gozou de ampla aceitação por parte da crítica.

O – à data – ainda curto cardápio, com as suas oito músicas, quis conquistar o mundo musical português. A capa do próprio álbum oferecia o mote, ao equiparar o duo aos maiores da nação. Encontramos tanto António como Bernardo ao lado de Saramago, Sophia, Amália, Zeca Afonso, Pessoa entre muitos outros que elevaram o país. O primeiro acorde ainda nem se fez ouvir e já ganhamos um coletivo cheio de orgulho na sua portugalidade. Mais que isso, somos brindados com um projeto capaz de moldar e reproduzir essa herança, sem que soe a lamento histórico, ou pior, sem que emane aquele cheiro bafiento, sempre típico de quem ousa (re)mexer no passado.

Os Ermo propondo-se a tanto e quando era tão fácil falhar, acertaram em cheio. E como todo o génio musical digno do título, não esperaram pelo fim da obra para nos trazer o melhor dela: toda e cada faixa se excede, excelsa na execução e brutalmente firme no conteúdo. “Fronteira” é bem capaz de nos atirar para uma liturgia consertada. Não, talvez se trate de um renhido concurso de cantares alentejanos. Ou melhor, é mesmo um relato fiel das conquistas marítimas lusas. Escolham vocês, nós não conseguimos, tal é a ambivalência do grupo.

Em “Porquê” há palco para indagações avulsas em tom retórico, a toque de um piano mais clerical do que o normalmente suportável. Aqui, mas não só, hands down para a eletrónica exclusiva do duo: o experimentalismo nem sempre soa bem, embora pareça que nada foge à mestria artística destes senhores. Está feito um slow dos tempos modernos. Já “Macau” é o roteiro que o título sugere, por entre especiarias várias, uma terra desconhecida e gentes nunca antes vistas. Há um tom epopeico que adivinharíamos só pela audição, uma mistura de sonoridades antigas (não confundir com ultrapassadas) com questões presentes. É a música do futuro a ser ouvida no nosso tempo.

Daí para cá reinventaram-se. Tornando-se outros. Não só no estilo musical, que do folk se metamorfoseou tornando-se eletrónico, como na imagética que se modificou. Em Lo-fi, o álbum de 2017, ambos se escondem atrás de luzes, fumos e máscaras que não tinham sido apresentadas inicialmente. Contrasta com o primeiro, não tão intelectual. Não pedem que encontremos mensagens nas palavras, pedem que as sintamos.

O grupo não tinha esquecido o passado, embora a convulsão fosse evidente. Surge então a necessidade de se esconderem, para segundo os próprios “verem e fazerem ver claramente”. Um álbum sobre os dias de hoje, com samples de aparelhos eletrónicos que nos rodeiam, sobre a vida digital e o quotidiano real. Uma mistura do terreno com o virtual onde nos vamos encontrando todos, com uma fronteira cada vez mais ténue entre as duas planícies.

Os Ermo começaram por cantar Portugal, partindo do coletivo para o individual em “Vem por aqui”, invertendo essa lógica em “Lo-fi”. Saem diretos do individuo, anulando-o e escondendo-o, tornando-o uma abstração. Desta abstração tiram ilações do coletivo. Todo o disco foi, porventura, influenciado pela pequena digressão no nordeste brasileiro, realizada como parte integrante do festival itinerante DoSol. Na ressaca dessa digressão, e ainda com o disco em fase de produção, anunciavam a intenção de fazer um Lo-fi Moda “(…) mais violento, mais pungente e não tão lírico”. Ora, o prelúdio não podia ter sido mais certeiro.

Lo-fi Moda foi extremamente bem recebido pela crítica, mesmo configurando uma inegável ruptura face ao produto anterior. E evidenciou mais ainda a capacidade destes meninos se afirmarem em Portugal como um grupo ainda novo, ainda que cheios de margem para progredir; alcançar tudo isso e ainda desbravar trilhos nunca antes musicados, assumindo-se reis e senhores de um nicho só deles? Está feito, com mestria.

Daqui resta-nos esperar que só cresçam. Lo-fi Moda será apresentado no Vodafone Mexefest, a decorrer na Avenida da Liberdade, entre os dias 24 e 25 de Novembro.

Artigo escrito por: João Jacinto e Samuel Pinho
Fotografias de Tiago da Cunha

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