Era uma vez uma Festa com Milhões de música

20 JULHO, 2017 -

As palavras “Milhões de Festa” fazem-nos criar imediatamente imagens mentais— as paisagens de Barcelos, o Palco Piscina, os episódios caricatos. Mas o Milhões é mais do que isso, e fomos perceber como surgiu e como se processa o festival com mais estórias de todos.

A primeira edição do Milhões de Festa remete para o Porto, no ano de 2006. Em 2007 mudou-se para Braga, para o espaço Censura Prévia, onde os concertos aconteciam indoors. Foi o acaso que fez o festival e desse acaso surgiu a necessidade de arranjar um nome para algo que era maior do que aquilo que a organização estava à espera. “Apareceram uma série de oportunidades de marcar bandas que nós queríamos muito ver e aconteceram todas nos mesmos dias. E as hipóteses eram: ou fazíamos concertos diferentes e competição entre nós próprios com esses concertos, ou então juntávamos tudo. E surgiu aí o nome Milhões de Festa; foi um acaso em que metemos uma série de bandas a tocar e decidimos repetir no ano seguinte uma proeza semelhante”, conta André Forte, press manager na empresa que organiza o festival, Lovers&Lollypops.
2010 foi um marco para o Milhões. Barcelos passou a ser a sua residência e aí começaram a surgir oportunidades que até à data não eram uma realidade.

Pela primeira vez, a Lovers organizava um festival “em grande”, sem saber muito bem o que esperar dali. No início, eram três os palcos por onde o público podia descobrir música, agora são quatro. Para a organização, fazer um festival vai muito além de pôr bandas a tocar consecutivamente num palco e é aí que o Milhões começa por fazer a diferença. Segundo André Forte, “cada palco tem mais um modus operandi do que uma programação específica, porque no final do dia o puzzle não pode resultar num palco que funciona totalmente à parte do resto do festival”. Quando começam a escolher os artistas que querem ter no cartaz percebem que têm “um aglomerado que à partida não faz sentido” e começam, assim, a derreter as fronteiras.

Juntar aquilo que à partida não tem um ponto de ligação é o desafio dos programadores que vão criando pequenas narrativas para cada palco que, ligadas umas às outras, acabam por criar a narrativa de cada edição. O que faz com que o Milhões seja único é, nas palavras do press manager, “ não ser um festival em que se vai ouvir um tipo de música em específico, mas o festival em que se vai descobrir música”.

À descoberta do Puzzle

Para conseguir montar o puzzle do festival é preciso percorrer os palcos. Cada um tem uma narrativa própria, que vai sofrendo mutações, inserida na história principal. O Palco Piscina, o mítico Palco Piscina, começou por ser “uma espécie de palco secundário”, que com o tempo foi ganhando a sua força. André Forte recorda quando os Moon Duo tocaram em Barcelos e mal souberam da existência deste palco quiseram tocar lá. Aí perceberam que a piscina tinha “uma vida um bocado própria” e foram passando por lá nomes, como Matias Aguayo e Adrien Sherwood, estando este ano já reservado para Hieroglyphic Being e mais uns quantos de igual importância. Porque é assim que funciona o Milhões de Festa: põe os artistas em pé de igualdade, sem separar “artistas principais” de “artistas secundários”.

Corria o verão de 2012 quando surgiu o Palco Taina. Abraçar a cidade de Barcelos, que tão bem recebia o festival, era uma vontade da Lovers, e retribuir com música para todos pareceu ser a melhor opção. Os encontros improváveis que este palco criava eram, para André, uma das características que o distinguiam: “O propósito era comer, beber o vinho local do Minho; tínhamos ali os maiores punks com hipsters e pessoal de eletrónica, e um velhote de Barcelos que estava ali a beber o seu vinho com eles. E esse tipo de sinergia é ótimo de criar”. Em 2016 passou para o interior do recinto.

O maior palco do festival é o Palco Milhões, cujo cenário permite viagens nas paisagens da outra margem do rio Cávado. Nele já aconteceram  grandes concertos e estão guardadas umas quantas memórias.
Para completar a quadra surge o palco que rapidamente se transforma numa pista de dança: o Palco Lovers. Se o Taina já proporcionou encontros improváveis, o Lovers já foi companhia para aqueles que queriam dançar até o dia nascer.

Vale a pena crescer?

Pensar no público e no seu conforto está em primeiro plano para a organização do Milhões de Festa. O limite de bilhetes vendidos por dia é 3500, sendo que existe uma lotação de 500 pessoas para assistir aos concertos no Palco Piscina. Este limite acaba por tornar o ambiente mais intimista e é uma garantia para a organização de que quem vai quer, de facto, estar ali. André Forte confessa que uma das piores sensações ao ir a um festival é sentir-se tão rodeado de pessoas que não consegue tirar proveito de cada momento e que “ (…) às vezes, quanto mais gente, menos atenção vai ser dada ao concerto, e seja em que festival for nem toda a gente é O cabeça de cartaz. E estar nessa condição de não ser banda principal é complicado, principalmente num festival em que ninguém o é”.

O limite, que numa primeira instância pode ser mal interpretado, acaba por tornar possível fazer acontecer coisas que não aconteceriam se o festival tivesse outras dimensões, e vendesse mais bilhetes. Torna possível existir um torneio de matraquilhos durante o festival sem ter 20 000 pessoas à volta, treinar o olhar e o ouvido para “não pôr só bandas a tocar num palco”, honrar a herança de bandas que por vezes se juntam a outras ou criam algo único para apresentar ali. Torna possível derreter fronteiras.

As memórias fazem o festival

Além do ambiente intimista, que torna tudo “mais especial”, são também as memórias que caracterizam o espírito do Milhões de Festa. Em 2010 os Monotonix faziam parte do cartaz, mas o concerto esteve quase para não acontecer. A filha do Ami Shalev nascia no dia em que iam tocar e o vocalista queria voltar para Israel, para a ver. Quando o organizador do festival, Joaquim Durães, mais conhecido por Fua, lhe disse que estavam duas mil pessoas à espera para o ouvir, mudou de ideias. A exigência que a banda tinha feito previamente era tocar no meio do público e Shalev não veio embora sem saltar de uma altura de (mais ou menos) 3 metros para cima das pessoas.

Dois anos depois, os Alt-J lançaram An Awesome Wave, e, no mesmo ano, viajaram até Barcelos. André recorda que andavam “para lá perdidos a olhar para as pessoas” e que uma vez em palco, enquanto cantavam as músicas do primeiro álbum, o público cantou com eles “mas sem gritar; assim num sussurro engraçado”. Na mesma edição, Connan Mockasin subiu ao Palco Milhões e conseguiu sentar cerca de 3 mil pessoas enquanto estava a tocar, e ainda roubou a máquina fotográfica a um jornalista para captar o que estava a acontecer diante de si.

Encontrar os artistas pelo recinto também é normal no Milhões. Quem lá esteve em 2011 pode ter visto os Graveyard a passear com as suas calças à boca de sino e t-shirts tie-dye. Quem sabe se o cenário não se repete em 2017?

10 anos a derreter fronteiras

 “Festão mínimo garantido” podia ser o slogan do festival, no entanto a organização percebeu que mais do que uma boa festa, o Milhões era uma festa diferente. Quebrar ideias pré-concebidas é quase uma missão para a Lovers and Lollipops, contribuindo para “uma noção mais lata daquilo que a cultura pode ser”. E é isso que os distingue.

Juntar estilos musicais que, à partida, não vão dar certo, bem como não excluir géneros de música com base no preconceito, é um desafio que têm edição após edição. André acredita que “Nós nunca devíamos tentar olhar para a música pelas nossa visão de pessoas europeias que cresceram a ouvir música inglesa, anglo-saxónica e variações de blues.”. Na Lovers pensa-se que a música devia ser percebida por aquilo que cada cultura representa e que “não faz sentido ter ideias pré-concebidas do que é preciso ter para fazer boa música”. A título de exemplo, o press manager menciona as BALA, “duas miúdas da Galiza que tocam rock pesadão mesmo muito bem, e não é por não terem uma barba muito farta que não estão completamente habilitadas a fazê-lo”. E derreter fronteiras é isso; é juntar o improvável, é derrubar estereótipos e preconceitos, passando a música sempre para primeiro plano.

O Milhões de Festa começa hoje, dia 20, com Ensemble Insano, Live Low, Enablers, Cigarra & BirdzZie, Stone Dead, Rizan Said, Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs e DJs da Casa. A entrada é gratuita.

Fotografias de: Milhões de Festa

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