Ensaio de imprensa – ‘Os Últimos Dias da Humanidade’

19 OUTUBRO, 2016 -

Karl Kraus (1874-1936) é um dos autores desconhecidos mais fundamentais do início do século europeu.

As razões são simples e auto-explicativas. Foi um jornalista e cidadão activo na sua época, extremamente culto e conhecedor do contexto que a sua Áustria natal albergou no período da I GM (antes, durante e depois da guerra).

Dirigiu e editou o importante jornal “Die Fackel” (A Tocha), onde consistentemente criticava a propaganda e a imprensa por todos os meios que tinha ao seu alcance: ensaios polémicos, sátiras, aforismos e poemas.

A forma mais pungente que encontrou para deixar esse retrato para a posteridade foi a mastodôntica peça “Os Últimos Dias da Humanidade”.

Os números são impressionantes. Prólogo, epílogo, cinco actos e mais de duzentas cenas, foi publicada em livro em 1922, depois de ter sido estreada em quatro fascículos no jornal de Kraus. Aproximadamente 600 páginas na sua tradução inglesa.

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O próprio Kraus dizia ter sido criada para ser lida e não representada, pois representá-la na íntegra implicaria uma representação de 22 horas, sem intervalos (!). O mesmo escritor dizia não haver leitura mais difícil do que uma leitura fácil e nada como a sua obra para confirmar as suas palavras.

Cada cena enquadra uma classe social e um determinado cenário, e com eles, necessariamente uma perspectiva díspar dos factos que se vão testemunhando directa ou indirectamente: a frente de batalha, a rua, o Café Pucher, o salão de beleza, uma estação de combóios, uma drogaria, um hospital, um gabinete do ministro da guerra austríaco, um funeral de Estado, onde se cruzam, entre outros, o Optimista e o Rabugento (personagens transversais à peça, com Kraus aparentemente encarnando o Rabugento, contraponto ao Optimista, obstinadamente nacionalista e influenciável), intelectuais, ladrões, nobres, militares, ministros, médicos, camponeses, a multidão, os bêbados, os polícias, o ardina, o Patriota…

Ninguém é poupado e ninguém é inocente, no conflito que ainda hoje é lembrado como um dos mais sangrentos da história da Humanidade.

O fresco é impressionante e exaustivo, num registo similar ao documentário, mas através do recurso ao jogo de palavras e repetições com efeito dramático, ao humor fino, à ironia e ao retrato minucioso e exploratório dos tiques expressivos de cada personagem, Kraus capta, com minúcia quase científica, as falácias presentes nos omnipresentes arremedos patrióticos e nacionalistas, clássicos da época, onde a massa se sobrepõe ao indivíduo, em todas as suas dimensões.

Tudo se torna mero detalhe perante o orgulho e dignidade feridos das classes dirigentes, inclusivé as necessidades mais básicas de todo um povo (também ele contagiado e arrastado para este renovado espírito combativo da Nação), dos estrangeiros e das suas minorias (considerados, sem excepção, como “espiões” e “inimigos da Áustria”), sacrificados por algo que nem os próprios intervenientes directos na guerra conseguem convenientemente explicar, sem o recurso constante à falácia, divulgada por uma imprensa cuja liberdade de expressão e de opinião é suspensa, substituída pela propaganda nacionalista de guerra, onde mitos e as opiniões se sobrepõem aos factos, a bem da Nação.

Pelo que o generoso ensaio de imprensa demonstrou, o espírito que Kraus procurou inculcar no texto original foi plenamente respeitado e preservado na sua versão portuguesa, com excelentes representações em perspectiva e uma selecção do melhor que a obra tem para oferecer.

A expectativa para a apresentação é enorme e lá estaremos para testemunhar o espectáculo que se anuncia imperdível.

A peça será apresentada entre 27 de Outubro e 19 de Novembro, no Teatro Nacional S. João. Poderá ser dividida em três representações de 2 horas cada uma, sendo também possível assistir às três sessões no mesmo dia, a 19 de Novembro.

Para além disso, a versão integral em português da obra será apresentada a 12 de Novembro no TNSJ, com a presença do tradutor António Sousa Ribeiro, de João Barrento, eminente germanista, José Pacheco Pereira, Rui Bebiano e a jornalista de guerra Cândida Pinto.

Para mais detalhes, fica o link para a bilheteira e para o folheto promocional .

Fotografias: © TUNA/TNSJ

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